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RICARDO DÜREN

Fábulas da África

Por ocasião do Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado neste sábado, a turma da nossa caçula, Ágatha, estudou ao longo da semana várias lendas e contos de origem africana. Dias atrás, veio contar a história do jabuti e do leopardo, uma das várias fábulas ambientadas na África, reunidas em livro pelo escritor Ernesto Rodríguez Abad, nascido e criado no Tenerife, uma das ilhas Canárias colonizadas pela Espanha.

Segundo contou-me a caçula, a fábula traz a história de um jabuti que, em uma caminhada à noite, caiu em uma armadilha – um buraco escavado por caçadores no meio da floresta. Enquanto matutava uma forma de escapar, eis que um perigoso leopardo também despencou no buraco.

– O jabuti logo percebeu – relatou-me Ágatha – que estava encrencado. A coisa ficaria feia para ele. Se não tivesse logo uma boa ideia, acabaria virando o jantar do leopardo.

Então, subitamente, o jabuti adotou ar zangado e passou a ralhar com o leopardo.
– Que história é essa de entrar em minha toca em plena noite? – questionou o jabuti. – Não recebeste educação? Isso lá são horas de fazer visita na casa dos outros?

Tanto admoestou o leopardo, que este, aborrecido, pegou o jabuti e o arremessou para fora do buraco. E o jabuti, aliviado, correu para a liberdade.
– E qual a moral da fábula? – perguntei eu, à caçula.
– Ora, pai… E precisa perguntar? A história mostra que a inteligência sempre ganha da força bruta!

Fiquei impressionado com a pedagogia forte e nítida da história, até então desconhecida para mim. Via de regra, conhecemos uma série de fábulas de matriz europeia, que angariaram predomínio em nosso imaginário cultural ao longo de séculos e mais séculos de colonização forçada. E, por outro lado, temos pouco contato com a rica cultura narrativa de povos historicamente oprimidos e excluídos, como o africano e afrodescendente.

Só nos últimos anos o universo letrado passou a dar maior atenção à literatura de raiz africana, reconhecendo e premiando o talento e a coragem de autores como o nigeriano Wole Soyinka, dramaturgo, poeta de versos ácidos contra as tiranias e primeiro escritor negro a conquistar o Nobel (em 1986); ou da escritora Chimamanda Adichie, também nigeriana, expoente do feminismo e vencedora do Orange Prize.

Contudo, desde os primórdios da linguagem, a África é berço de incontáveis narrativas míticas e fantásticas. Muitas delas chegaram ao Brasil nos porões dos navios negreiros – no período mais brutal e vergonhoso de nossa História –, vindo a mesclar-se com a cultura indígena e, mesmo, portuguesa; gerando um arcabouço cultural tão grande que até os principais estudiosos do assunto têm dificuldades em mensurar.

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No que toca às fábulas – ou seja, histórias de fundo moral protagonizadas por bichos –, o povo africano é fonte de narrativas milenares riquíssimas, repletas de ensinamentos, que proporcionam uma pedagogia abundante a crianças e adultos. Pesquisando um pouco mais o assunto, topei com a história do caracol e da gazela.

Consta que a gazela, muito orgulhosa de seus atributos físicos, desafiou o caracol para uma corrida em plena savana. Tinha certeza: seria uma vitória acachapante.

Mas a gazela presunçosa não contava com a rede de camaradagem formada pelos caracóis. Então, às vésperas da corrida, o caracol desafiado convocou seus amigos e posicionou-os ao longo do trecho em que seria disputada a prova. Dada a largada, a gazela disparou e, de tempos em tempos, perguntava:
– Caracol, cadê você?

E sempre havia, por perto, um caracol para responder:
– Estou aqui, no seu encalço.
Até que, por fim, a gazela engoliu sua vaidade. E, rendida, desistiu.
Moral da história? A união faz a força! Vence a prepotência, desbanca os privilégios.

Mais uma lição gestada pela sabedoria ancestral de um continente que, no cômputo final, é o berço de todos nós.

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