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Francisco Teloeken: “O gol das bets contra brasileiros”

Foto: Banco de Imagens

Nos últimos anos, as bets, divulgadas pelas empresas como formas de entretenimento, têm sido cada vez mais companhia e ferramenta de diversão de pessoas e famílias. Mas o que era para ser brincadeira ou passatempo passou a ser visto como oportunidade para ganhar algum dinheiro extra. Num passo adiante, as pessoas imaginam conseguir um dinheiro para ajudar nas despesas do mês ou, em pior situação, para quitar suas dívidas. Um estudo realizado pelo Serasa revelou que 44% dos endividados já jogaram em bets para quitar dívidas. Entre os motivos destaca-se a promessa de ganho rápido e fácil.

Nos últimos anos, as bets legalizadas cresceram vertiginosamente e hoje patrocinam clubes, campeonatos, influenciadores digitais e transmissões esportivas, ocupando espaços publicitários em todos os ambientes esportivos.

Com a Copa do Mundo, que já movimenta somas astronômicas, as bets entraram com força no patrocínio das transmissões dos jogos. O canal da CazéTV, além de contar com patrocínio de bet, sugeria a seus telespectadores, durante as transmissões, apostarem em determinados resultados muito improváveis e, portanto, arriscados. Essa prática é conhecida como “cachê da desgraça alheia”, em que o influenciador recebe em função das perdas de seguidores em sites de apostas. O Ministério da Justiça passou a questionar o canal.

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Nesse contexto de empresas ávidas por lucros e pessoas em busca de diversão ou dinheiro fácil, os gastos com apostas tem aumentado entre os brasileiros. Levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostra que as bets retiraram cerca de R$ 143,8 bilhões do consumo nos últimos dois anos, afetando diversos setores da economia, principalmente de itens básicos de alimentação. 

A consequência é que o dinheiro gasto em bets está faltando para o consumo e pagamento de dívidas, gerando índices crescentes de endividamento do brasileiro. E o problema do endividamento ganha contornos dramáticos: nome negativado, perda de patrimônio, separações, suicídios, etc. 

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Advogados que atuam com as famílias começaram a perceber mudanças nos pedidos de interdição judicial de familiares. No passado era a demência, o álcool e as drogas. Agora, crescem os casos de ludopatia – o vício em jogos –, impulsionada pelas apostas online. É uma situação que atinge todas as classes sociais. 

A interdição judicial não possui caráter punitivo, mas é uma medida extrema destinada a proteger pessoas que perderam, total ou parcialmente, a capacidade de administrar determinados aspectos de sua vida civil. No caso da ludopatia, a interdição pode ser utilizada para impedir que a pessoa continue praticando atos que coloquem em risco sua própria subsistência e a de sua família. 

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O primeiro passo é reconhecer que a ludopatia é um transtorno de saúde que exige tratamento adequado com psicólogo, psiquiatra e grupo de apoio especializado. 

É fundamental, também, o acompanhamento de familiares, a supervisão das contas bancárias, o monitoramento das dívidas e empréstimos e, também, a administração compartilhada de recursos.

 Infelizmente, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), realizada no Senado entre o final de 2024 e o primeiro semestre de 2025, com o objetivo de investigar o impacto das apostas online no Brasil, a lavagem de dinheiro com o crime organizado e o papel dos grandes influenciadores digitais nessa engrenagem, não deu em nada. Com uma “bancada das bets”, composta por parlamentares de diferentes vertentes políticas, e forte lobby das bets, o relatório final foi rejeitado.

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Recentemente, o governo federal implementou medidas de proteção aos apostadores, incluindo mecanismos de autoexclusão que permitem ao próprio usuário solicitar bloqueio de acesso às plataformas regulares. Além disso, no próximo dia 17 entram em vigor portarias do Ministério da Fazenda com restrições à publicidade, proibindo o uso de influenciadores (comentaristas e especialistas) para recomendar apostas. Nas peças publicitárias terá que constar, também, as advertências do Ministério da Fazenda de que “apostar faz você perder dinheiro, pode causar dependência e não é investimento”.

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Apesar de a legislação tentar colocar limites no mercado de bets no Brasil, tem deixado de fora a peça-chave responsável por prender e viciar os apostadores: a arquitetura das plataformas, criada a partir de vieses cognitivos. É na arquitetura da plataforma que o mecanismo de indução comportamental opera. Estudos de pesquisadores como o Nobel de Economia Daniel Kahnemann demonstram que decisões respondem sistematicamente a estímulos, contextos e enquadramentos, muito mais do que ao cálculo deliberado de custos e benefícios. Ou seja, não se trata de falta de educação financeira ou de busca desesperada por saídas para o endividamento, mas de respostas a iscas colocadas no lugar certo, na hora certa.

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Por oportuno, cresce na sociedade brasileira e de outros países uma discussão importante sobre os limites da publicidade das apostas. O craque francês Mbappé questionou a associação excessiva entre futebol e bets. Argumentou conhecer pessoas que tiveram suas vidas prejudicadas por esse tipo de atividade. O zagueiro da seleção brasileira, Danilo Luiz, também expressou preocupação com o uso da imagem de atletas para promover apostas.

No campo cultural, vários cantores e atores importantes aderiram à campanha de conscientização sobre os riscos associados à promessa de enriquecimento fácil, promovida por plataformas de jogos online.

É claro que ninguém é contra o entretenimento que o futebol causa. O futebol é e continuará sendo uma das maiores expressões da experiência humana. A discussão sobre os limites das apostas não é contra o futebol. É uma discussão em defesa dele e do que faz o esporte ser um patrimônio cultural, afetivo e social incalculável.

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