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EDUCAÇÃO

Implantação do novo Ensino Médio mobiliza escolas neste início de ano

Foto: Alencar da Rosa

Educandário localizado no Bairro Bom Jesus preparou a sala maker, com estrutura diferenciada para o formato que entra em vigor

O novo Ensino Médio, como as mudanças nesse nível educacional têm sido chamadas, passa a fazer parte da vida dos estudantes no dia 21 de fevereiro, quando começa o ano letivo. O trabalho para os gestores e os professores começou bem antes. Faz tanto tempo, que chamar de nova a proposta de alteração é quase incorrer em um erro. Afinal, os debates começaram no Congresso Nacional em 2015, com aprovação em 2017 e determinação para adoção em 2022. Estará completo em 2024.

Na Escola Estadual Ernesto Alves, a diretora Janaína Andréa Halmenschlager Venzon conta que o quadro funcional está sendo organizado para atender todas as turmas. A expectativa é de que supere 1,3 mil alunos e 40 turmas. As de 1º ano contarão com as áreas tradicionais acrescidas de componentes obrigatórios, que são Projeto de Vida, Mundo do Trabalho, Cultura e Tecnologias Digitais. Assim, somarão carga horária com mil horas, ante as 800 de 2021. Para estudantes do 2º e 3º anos do Ensino Médio, não haverá mudança em 2022.

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“A preocupação do momento é montar o quadro funcional”, destaca a diretora. Os professores que atuarão nos novos componentes, mesmo que já trabalhem nas áreas de humanas, linguagem, natureza ou matemática, terão de passar por curso específico. Parte da equipe já começou em dezembro, outros estão em atividade, atualmente, e um grupo ainda vai iniciar. “Os conteúdos serão encaminhados para as escolas, com os professores seguindo rigorosamente, mas a metodologia é do professor, que deve usar a sua criatividade”, salienta Janaína.

Segundo a gestora, uma das preocupações é com o transporte escolar. Mesmo com a possibilidade de realização de 30% de forma remota, o estudante acabará permanecendo algum dia da semana até além das 23 horas na escola. Enquanto o novo e o “antigo” Ensino Médio coexistirem, vai acontecer de alguns serem liberados antes. Além dessa questão de logística, Janaína adianta que aguardam a autorização da Coordenadoria Regional de Educação para a mudança no regimento, que será necessária.

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Outras mudanças serão bem perceptíveis para os alunos. Foram suprimidas as disciplinas de Sociologia e Ensino Religioso, no 1º ano, outras tiveram carga reduzida. Biologia, Física e Química não serão mais vistas no 3º ano. Filosofia e Educação Física serão contempladas apenas no período inicial. Artes, somente no último ano. As avaliações, com aplicação de provas, voltarão a ser bimestrais – para todos os estudantes.

Janaína: docentes farão curso específico | Foto: Banco de Imagens

Estudante passa a ter maior protagonismo

Titular da 6ª Coordenadoria Regional de Educação, Luiz Ricardo Pinho de Moura entende que o novo método faz com que o aluno tenha maior protagonismo. E isso tem sido percebido nas dez instituições em que a proposta foi implantada como piloto na região. Uma das alterações é a diminuição da carga de formação básica e aumento dos itinerários formativos, que permitirão, com o avançar dos anos, a escolha do estudante por aprofundar conhecimento na área em que tiver maior interesse.

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Enquanto isso não ocorre, equipes passam por preparação. “Tivemos seminário sobre a nova prática, as escolas têm organizado quem serão esses profissionais, que passaram ou ainda passarão por formação e qualificação”, afirma o coordenador. Para que não faltem recursos humanos, em dezembro houve um momento de pré-gerenciamento da necessidade de equipe. Em janeiro voltou-se ao assunto, com informações mais atualizadas sobre a quantidade de alunos. “Estamos com contratação de professores em aberto para suprir eventuais aposentadorias ou mudança de rede de ensino, que podem ocorrer”, antecipa.

Para a qualificação dos professores e aquisição de equipamentos ou organização estrutural, parte dos recursos garantidos pelo governo do Estado com o programa Avançar Educação, que soma R$ 2 bilhões, será para a implantação do novo Ensino Médio. “Até o dia 20, as escolas devem receber um plus, que varia de acordo com a área mais o Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (Idese)”, informa Moura. Outra ação considerada positiva é a implantação do Programa Aprende Mais, que qualifica docentes de Língua Portuguesa e Matemática.

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A secretária estadual de Educação, Raquel Teixeira, enaltece as principais mudanças no novo modelo, que já está sendo implementado na maior parte dos estados brasileiros. “A reforma do Ensino Médio talvez seja a mais profunda que eu já vivi em toda a minha trajetória de educadora. Esse movimento que criou a nova BNCC (Base Nacional Comum Curricular) e propôs essas mudanças nesta etapa de ensino é fantástico. É um avanço. A legislação mudou porque havia uma demanda e uma insatisfação com a escola que tínhamos. A escola do século 18, com foco no professor e no ensino, não cabe mais no mundo. A escola do século 21, com foco no aluno e na aprendizagem, é a grande transformação da educação brasileira”, destaca.

Raquel: reforma é um grande avanço | Foto: Felipe Dalla Valle/Palácio Piratini

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Profissionais de Educação Física questionam mudanças

Os profissionais de Educação Física não viram com bons olhos as mudanças na grade curricular do Ensino Médio. As aulas dessa disciplina, que possibilitam a prática de exercícios, estão programadas apenas para o 1º ano. Pesquisadora e doutora em saúde da criança e do adolescente, Miriam Beatrís Reckziegel defende a manutenção em todos os anos do Ensino Básico. “Principalmente, em um momento em que as evidências científicas apontam para a importância da prática de atividade física para a saúde da população e para o enfrentamento da pandemia de Covid-19”, enfatiza.

Ela aponta apreensão de seus colegas pela alteração, em especial no Ensino Médio, que retira a obrigatoriedade convencional e a condição de componente curricular da Educação Física. “Reduz, efetivamente, as experiências corporais, desestimulando essas práticas, além de aprofundar as desigualdades sociais no processo formativo dos jovens, principalmente a classe social que não tem alternativas para essa prática em ambientes extraescolares”, ressalta.

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Miriam: retirada aprofunda desigualdades | Foto: Arquivo Pessoal

Miriam diz que as reivindicações dos profissionais têm o propósito de levantar uma questão importante no processo de desenvolvimento humano. “Educação física é saúde e educação, uma vez que estudos nacionais e internacionais comprovam que a prática está associada com níveis superiores de atividade física e redução do comportamento sedentário entre crianças e adolescentes”, frisa.

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Na sessão extraordinária da Câmara de Vereadores de Santa Cruz do Sul, o parlamentar Professor Cleber (DEM) manifestou sua contrariedade à retirada da disciplina em parte do Ensino Médio. Segundo o legislador, que também é educador formado na área, o novo currículo surpreendeu professores e estudantes. “Como profissional de Educação Física, digo que se trata de um fato extremamente grave, um verdadeiro desmanche, uma deseducação”, criticou.

Em seu pronunciamento, que contou com aparte do vereador Daiton Mergen (MDB), Pereira defendeu a manutenção da disciplina e citou a importância da Educação Física para todos, desde jovens até idosos. “Isso não sou eu que digo, é a própria OMS (Organização Mundial da Saúde). Muitos jovens não têm a oportunidade de praticar esportes e vão fazer isso na escola, onde são orientados por um profissional”, disse ele.

Escola Alfredo Kliemann já vivencia o novo modelo

Os integrantes da comunidade escolar da Alfredo José Kliemann, no Bairro Bom Jesus, em Santa Cruz do Sul, foram convidados a participar de reuniões, em 2019, com o intuito da inclusão da instituição no grupo de escolas-piloto. A atual diretora, Josiane de Mello Batista, era professora e teve a oportunidade de vivenciar o desenvolvimento do projeto. “Nossos alunos escolheram dois percursos formativos: expressão cultural e profissões”, recorda.

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A prática começou em março de 2020, mas logo teve de ser interrompida devido ao agravamento da situação pandêmica. “De qualquer forma, reforçamos a importância que esse novo Ensino Médio tem como meio de reforçar o protagonismo dos estudantes, com a definição da área de maior habilidade, e a criatividade dos professores, que são desafiados a incrementar as aulas”, conta.

Mesmo com o ensino a distância, a instituição preparou-se com a montagem de salas especiais, que estão sendo incrementadas, agora, com a oficialização do método em toda a rede de ensino. “A gente viu que deu certo. Trabalhamos com salas temáticas de acordo com a área de conhecimento. Temos a sala maker, que serve para a vivência dos estudantes”, relata.

Diretora Josiane atuou em projeto-piloto | Foto: Alencar da Rosa

Os jovens voltaram às salas de aula em 2021, mas a prática vai ser ampliada neste ano. Josiane conta que serão formadas parcerias com universidades, empresários serão contatados para conversar com os alunos e se reforçará a questão do projeto de vida, em que eles são incentivados a definir o que querem para o futuro. Entende que esse é um momento importante, porque os estudantes voltaram do ensino remoto com a autoestima baixa e vivenciaram a questão do preconceito social, por ser uma instituição de bairro. “Eles querem ser ouvidos. Faremos um café para que digam a escola que querem, para deixarmos com a cara deles”, adianta.

Além da abertura para a exposição das ideias e interesses dos alunos, Josiane afirma que há interesse de proporcionar menos aulas expositivas e focar mais em projetos, oficinas, viagens de estudos, palestras e atividades práticas. Haverá a montagem de salas/ambientes temáticos, com recursos didático-pedagógicos, para que os jovens tenham a possibilidade de interagir. Isso é possível, em especial, pelo recurso extra dentro do Programa Avançar Educação, que permite a reforma e a organização da estrutura escolar. “Teremos um espaço mais acolhedor, mais organizado, mais bonito para recebê-los”, garante.

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