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LUIS FERNANDO FERREIRA

Infância enclausurada

Uma criança chega a este mundo indefesa e tem apenas uma referência de proteção: seus pais. À exceção deles, com quem poderia contar? São o seu mundo, o horizonte disponível, e justamente isso torna mais cruel a violência perpetrada no ambiente doméstico.

E é o que torna mais preocupante a leitura dos dados divulgados recentemente pelo Atlas da Violência 2026, pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) feita em parceira com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O levantamento aponta que os casos de violência sexual contra crianças de 0 a 4 anos mais do que quadruplicaram em uma década: de 1.611 registros em 2014 para 7.845 em 2024.

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Em 80% das situações, as agressões são cometidas por familiares. O ambiente doméstico, que deveria ser lugar de paz ou refúgio, é o cenário principal de abusos. Inversão perversa em que, diante de crianças pequenas, os rostos de quem nasceram para amar transformam-se, de uma hora para outra, na face de monstros capazes das piores atrocidades. Sejam estas de natureza sexual ou não.

É inconcebível a morte de Oliver Grayson, 3 anos, em Viamão, por exemplo. Nenhuma pretensão “educativa” pode explicar a natureza das lesões que ele sofreu nas mãos do pai. O que se percebe é apenas um sadismo sem freios, não muito diferente do demonstrado pelo padrasto de Henry Borel, que o torturava não para “educar”, mas porque isso lhe dava prazer. Pelo que se sabe, os quatro irmãos de Oliver – um deles com apenas 1 ano – também eram alvo de espancamentos recorrentes e brutais. Enquanto isso, onde estava a rede de proteção?

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No romance Enclausurado, o britânico Ian McEwan conta uma trama policial a partir do inesperado ponto de vista de um feto prestes a nascer. Ainda na barriga da mãe, descobre que ela planeja assassinar o marido (seu pai) com ajuda de um amante. Percebe isso porque pensa de maneira elaborada e é capaz de ouvir e entender as conversas no ambiente exterior (Não me perguntem como, isso é literatura).

Compreende ainda que, embora a mãe esteja no nono mês de gravidez, ele (o futuro recém-nascido) jamais é citado em qualquer diálogo, como se não existisse ou não tivesse importância digna de menção. Assim, pode testemunhar a violência e a indiferença do mundo antes mesmo de respirar. Ninguém se importa.

Decidido a interferir, ele força de maneira prematura sua chegada. Com a face materna diante de si, tem seu primeiro pensamento livre: “Acho que vejo o mundo inteiro nesse rosto. Belo. Amoroso. Assassino”. Essa contradição viva de fato é o mundo, onde crianças vivem em lares por vezes semelhantes a prisões, enclausuradas e vigiadas por carcereiros cruéis. E que são sua única referência: seus pais.

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