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VALESCA DE ASSIS

Leiam este texto, por favor

Foto: Freepik.com

Foi um batismo de fogo. Fiquei cheio de dedos quando soube que meu tio, podre de rico, andava com a corda no pescoço e um pé na sepultura. Que tinha perdido tudo, até a saúde, e que os filhos andavam atrás de mim. Meus primos, com a batata assando, sentiram que não tinham coragem de fazer o que era necessário: jogar fora o bebê com a água do banho. 

Ou seja, o inesgotável manancial havia acabado, estavam pobres como Jó e teriam de trabalhar de sol a sol. Puseram as barbas de molho e estavam já nos estertores da agonia, quando urdiram uma trama diabólica e decidiram que eu, como era um burro de carga, um pé de boi, seria a salvação da lavoura deles. Eu não sabia da missa a metade, aquele tio não tinha coração e, quando falava comigo, as palavras me entravam por um ouvido e saíam pelo outro. Quando os filhos tiveram o topete de falar comigo, eu disse um rotundo não. Que fossem queixar-se ao Bispo.

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As expressões favoritas do meu tio eram: “ajoelhou, tem que rezar!” ou “é pegar ou largar!” E, como eu não ficava comendo moscas, ele, cheio de preconceitos arraigados, me achava, além de burro, um pé-rapado, moveu céus e terra para que eu dançasse conforme a música. Eu preferia dormir em pé ou beber o mar inteiro do que lamber as botas ou dourar a pílula. Às vezes eu tinha o estômago nos calcanhares com minha canina fome, ou sentia um gato na garganta de tanto que tinha para dizer e só não dizia porque mãe é mãe e a minha mãe era irmã dele. Nos invernos, eu rachava de frio, pois sapatos grossos custavam os olhos da cara. Nunca meti os pés pelas mãos, sei que a pressa é inimiga da perfeição e jamais tapei o sol com a peneira. De grão em grão e com santa paciência acalentava o dourado sonho de pegar o diabo pela cauda. 

A esperança é mesmo a última que morre. Quando soube que meu tio havia batido as botas, e meus primos ficaram chupando os dedos, avisei minha mãe. Ela, no velório, chorou todas as pitangas. De minha parte, segurei, por um instante, a vela que me alcançaram, martelei o último prego no caixão e morri de rir. Adeus, mundo cruel!

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Queridos leitores, existe um livro muito bom sobre frases feitas e lugares-comuns. Chama-se O pai dos burros, é de Humberto Werneck, publicado por Arquipélago Editorial, de Porto Alegre. Minha edição é de 2009. Uso-o muito nas minhas Oficinas, quando aprendemos a identificar os indesejados clichês que usamos sem querer. É um santo remédio contra os lugares-comuns e, no frigir dos ovos, ops, ideias novas e elegantes surgem. Neste texto descobri pelos menos três: canina fome, um gato na garganta e beber o mar inteiro. Também ri muito, escrevendo. Rir pode ser o melhor remédio para certos dias.

Obrigada por me lerem!

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