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OPINIÃO

Luís Fernando Ferreira: quando o passado toma corpo

Há muitos elementos fascinantes na história de Tia Inácia, a ex-escrava nascida em Rio Pardo que passou seus últimos dias em Santa Cruz do Sul. O simples fato de ter vivido mais de 130 anos, segundo dizem, espanta por si só e é um tema ainda controverso para alguns. Uma pessoa tão velha não merecia ter aparecido no Guinness Book? Bem, ainda não havia Guinness em 1954, quando Inácia morreu. Enfim.

De qualquer modo, não pude deixar de me surpreender com as reações à matéria publicada na Gazeta do Sul do último fim de semana, que resgata a trajetória de Inácia Garcia de Souza. As manifestações dos
leitores foram um sinal claro de que questões referentes à memória histórica são de interesse permanente.

Conhecer o passado ajuda a entender como chegamos até aqui. Tia Inácia foi lembrada na Enciclopédia
negra, obra lançada em 2021 que traça perfis biográficos de várias figuras afrobrasileiras. Está na companhia de figuras históricas de vulto, como Zumbi dos Palmares e o abolicionista Luiz Gama. Muito ainda haveria a ser contado sobre ela e a realidade da escravidão no Vale do Rio Pardo, e a respeito
da contribuição do trabalho negro para o desenvolvimento da região. Como diria uma das autoras da Enciclopédia, a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, muito ainda precisa ser feito para “dar alma, dar corpo para esses personagens que foram durante muito tempo silenciados, apagados ou borrados da nossa história”.

E, quando o assunto é escravidão, não se trata apenas de passado. Práticas de trabalho escravo sobreviveram à abolição e persistem até hoje em certas regiões do Brasil. Livros como Torto arado, de Itamar Vieira Júnior, e filmes como 7 prisoneiros nos apresentam formas contemporâneas de cativeiro.

O documentário Menino 23, disponível no YouTube, mostra o caso de 50 órfãos negros que, na década de 1930, foram adotados com a promessa de vida melhor e acabaram confinados a uma existência de serviços forçados. Crianças ainda, passaram a trabalhar sem remuneração numa fazenda, sendo submetidos a castigos físicos. É só uma de tantas histórias de um Brasil arcaico que, infelizmente, recusa-se a morrer.

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