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GISELE SEVERO

Lutas, perdas e recomeços

O luto chega como uma ruptura silenciosa. Ele não grita, mas desorganiza. Não avisa, mas transforma. De repente, o mundo segue com a mesma velocidade, enquanto dentro de nós algo precisa desacelerar para tentar compreender a ausência. O luto é essa travessia íntima entre o que foi e o que jamais será da mesma forma.

Na psicologia, o luto é compreendido como um processo natural e necessário diante de perdas significativas. Não se trata apenas de “superar” alguém, mas de reorganizar o vínculo na ausência. O cérebro precisa reaprender a viver em um mundo que mudou. Por isso, o luto afeta pensamentos, emoções, comportamentos e o próprio corpo. Não é fraqueza: é adaptação.

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Perder alguém ou algo  é perder também uma parte da identidade construída na relação. Perdem-se rotinas, projetos, futuros imaginados. Há um vazio que não é apenas emocional, mas também neurológico: aquilo que antes ativava segurança, pertencimento e previsibilidade deixa de existir. E o organismo reage. Surgem o cansaço profundo, a dificuldade de concentração, alterações no sono e na respiração. O corpo sente antes mesmo de a mente conseguir explicar.

A psicologia nos ensina que não há um único jeito de viver o luto. Cada pessoa atravessa esse processo conforme sua história, seus vínculos e seus recursos emocionais. O sofrimento não segue uma linha reta. Ele vem em ondas. Há dias de aparente estabilidade e outros em que a dor retorna com intensidade. Isso não significa regressão, mas vínculo ativo. Amar não se desfaz com a perda.

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Além da morte, existem lutos pouco reconhecidos socialmente: o fim de um relacionamento, a perda da saúde, de um papel profissional, de um sonho que precisou ser abandonado. Quando essas dores não são legitimadas, o sofrimento tende a se intensificar, pois falta acolhimento para aquilo que não se vê, mas se sente profundamente.

Recomeçar, do ponto de vista psicológico, não é esquecer nem substituir. É ressignificar. É encontrar um novo lugar interno para quem ou para o que foi perdido, permitindo que a vida siga sem apagar a história. A saudade não desaparece, ela se transforma. Aos poucos, deixa de ser apenas ferida aberta e passa a ser memória integrada.

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O luto pede tempo, escuta e gentileza. Não responde à lógica da produtividade nem à pressa social por soluções rápidas. A psicologia nos convida a respeitar o ritmo da dor, a permitir pausas, silêncios e recolhimentos. Sentir não é adoecer; evitar sentir, muitas vezes, é.

Talvez o maior ensinamento do luto seja este: vínculos verdadeiros nos transformam para sempre. E ainda assim, mesmo atravessados pela ausência, somos capazes de reconstruir sentido. A vida não volta a ser como antes, mas pode se tornar mais consciente, mais profunda e mais humana. Entre perdas e recomeços, seguimos não inteiros como antes, mas inteiramente reais.

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