No vocabulário da aviação, existe uma sigla curta, mas fundamental, que está presente em cada decolagem: V1, ou “velocidade de decisão”. Estando o piloto sozinho ou acompanhado no cockpit, ela é sussurrada para marcar o ponto em que sair do solo torna-se obrigatório na corrida pela pista.
Antes da V1, se um alarme soar ou um motor falhar, é possível pisar fundo nos freios até parar com segurança. Mas assim que a agulha ultrapassa esse marco, a matemática muda – o asfalto restante já não é suficiente. Parar significa um acidente certo. Ou seja, só resta puxar o manche e subir.
É possível usar essa metáfora para falar das várias decisões que tomamos na vida cotidiana, com essas imperceptíveis velocidades V1.
Passamos boa parte do tempo no “taxiamento”, muitas vezes caminhando sem pressa. É um terreno seguro que nos permite recuar de uma conversa difícil, adiar um projeto ou fingir que não ouvimos o chamado de uma grande mudança. Aqui, frear é sempre uma alternativa confortável.
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Mas como a existência parece “não ter sido feita para permanecer no solo”, cedo ou tarde temos que dar “potência nos motores”, e o que se segue é vibração e alguns receios passando pela cabeça. É o instante em que você entrega o pedido de demissão ou assina o contrato da casa nova. A velocidade aumenta e se ouve o barulho forte do vento.
E então, num piscar de olhos, a V1 fica para trás. Vem a noção de que ultrapassamos esse ponto. Não dá mais para voltar, não há mais pista – tentar parar agora seria um desastre. A única saída é aceitar e se “libertar” da gravidade. É preciso puxar o manche, pois chegou a “velocidade de rotação” (VR).
Voar com o motor falhando pode ser assustador, mas ainda há tempo de fazer o que é certo, porque o ar oferece a sustentação que a pista curta nos nega. É na altitude que ganhamos tempo para diagnosticar as falhas, ajustar a rota e procurar um novo pouso. No chão, o impacto é certo; no ar, há o horizonte inteiro e a chance do recomeço.
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Esse texto é uma singela homenagem ao mecânico de aviação e piloto paulista Lito Sousa, que enfrenta uma grave doença, chamada de Creutzfeldt-Jakob. Para quem o conhece e acompanha seu trabalho como divulgador da aviação, especialmente em locais como o YouTube, os últimos dias têm sido da angústia e da tristeza que se seguem à perplexidade inicial.
Lito faz um trabalho notável de explicar com simplicidade temas técnicos que não fazem parte do dia a dia da maioria de nós, além de ajudar quem tem medo – ou até fobia – de subir em um avião. A torcida é para que ele ganhe a chance de continuar fazendo isso no futuro.
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