De uns tempos para cá, o verbo “performar” passou a fazer parte das conversas. É um neologismo tão recente que nem tem registro no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), publicação com a grafia das palavras consagradas no idioma.
Vem do inglês “to perform”, que significa executar, realizar, cumprir. Em bom português, corresponde a “desempenhar”, mas o irrefreável gosto brasileiro por estrangeirismos passou a simpatizar com “performar”. Palavra que tecnicamente não existe, mas tornou-se difícil não encontrá-la, especialmente nas redes sociais e no mundo corporativo.
Tem a ver, é claro, com realizar uma “performance”, expressão bem conhecida no mundo artístico e que significa: apresentar-se diante de um público, aparecer, interpretar para que outros vejam e por fim aplaudam (ou não).
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O ator seria então o performer por excelência. Sua tarefa profissional consiste em subir ao palco para encarnar alguém que não é ele. Não é de estranhar, afinal, que esse termo tenha ganhado espaço na internet e redes sociais.
Pois o ambiente digital é o lugar da “performance” ampla e irrestrita, nesse sentido mais específico. Toda atividade que registramos no Instagram, Twitter, Facebook, Tik-Tok e sabe-se lá mais o quê, cada postagem, foto e mensagem inspiradora tem o intuito de exibição, de “se mostrar” – e, eventualmente, mostrar alguém que não é exatamente você, ou pelo menos não sempre. Nada de terrível nisso, é só a natureza das redes, que podem ser proveitosas em outros aspectos. Mas o foco sempre será a plateia, o “ser para os outros”; uma postagem sem curtidas é invariavelmente frustrante.
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Então você resolve deixar o celular de lado e sair para a vida de fato, com suas urgências e exigências cotidianas. Entre elas, a necessidade de satisfazer seus interesses pessoais, aquilo que importa para você e mais ninguém, que não depende de julgamentos externos.
Por exemplo: ler algum livro que não está na moda, no famigerado hype, mas chamou sua atenção. Atualmente, é o tipo de coisa que chega a dar margem para estranhos mal-entendidos. Há poucos dias, causou polêmica nos fóruns da internet o comportamento de gente que ia à praia e passava o dia inteiro… lendo. “Estão performando”, esse era um comentário frequente. “Querem só aparecer.”
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Aparentemente, não passa pela cabeça de alguns que uma pessoa leia porque lhe dá prazer. Não. Em mais um sinal do fortalecimento da lógica das redes na vida concreta, o que você faz em público só terá sentido se for uma “performance”. Na timeline onde todos são atores à espera de atenção e aplausos, a vida interior é uma miragem.
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