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Na contramão da saúde mental

Sai governo e entra governo, mas as irresponsabilidades que tangem a administração e os investimentos em saúde mental permanecem. Em 2012 tive uma grande divergência com o secretário de Saúde do município da época, assim como o então vice-prefeito. Tudo começou pelo desligamento sumário do médico psiquiatra do Caps-IA (Centro de Atenção Psicossocial da Infância e Adolescência) sem ter um substituto especialista que pudesse prover o merecido cuidado aos pacientes.

Passados sete anos e a história se repete. Mudaram os atores e os partidos políticos, expandiram-se os cenários, mas o enredo é o mesmo. Demissão sumária de três médicos psiquiatras dos três Caps de Santa Cruz do Sul, sem ter nenhum médico especialista para substituí-los. Resultado: sobrecarga aos já poucos médicos, desassistência aos pacientes e apreensão às (bravas) equipes diminutas para dar conta de tamanha tarefa. Cuidar da saúde mental do município é para os fortes. Tentar enfraquecê-la é sinal de pouca inteligência.

Segundo o Ministério da Saúde, das dez doenças mais incapacitantes, cinco são psiquiátricas: depressão, transtorno bipolar, alcoolismo, esquizofrenia e transtorno obsessivo compulsivo. Sem falar que a região é “campeã” brasileira de suicídio. Se metade das doenças são psiquiátricas, o que tem na cabeça um gestor que demite numa tacada só três psiquiatras? Pelas evidências e estatísticas, o certo seria contratar mais seis psiquiatras e mais equipe, além de aumentar (bastante) as verbas destinadas à saúde mental.

Infelizmente isso não acontece somente em Santa Cruz do Sul. Segundo um estudo do Conselho Regional de Medicina de São Paulo, que analisou 85 dos 230 Caps, 42% não contavam com retaguarda para internação psiquiátrica e 31,3% não tinham retaguarda para emergências psiquiátricas; 25,3% não tinham retaguarda para emergências clínicas. Houve o fechamento de 90 mil leitos psiquiátricos em hospitais no Brasil. E não estou falando de manicômios ou “depósitos de loucos”. Estou falando de leitos que tanta falta fazem para os dependentes químicos e para pacientes psicóticos e suicidas. Se algum paciente necessitar de internação psiquiátrica fechada em nossa cidade, deve fazer sua mala e esperar para ir a outros municípios, pois Santa Cruz do Sul é desprovida de unidade psiquiátrica.

Nos últimos anos todos os três Caps tiveram de se realocar. E não necessariamente por melhores condições de estrutura e localização. Mudar um Caps de local é desgastante para todos (médicos, equipes e pacientes). Se não for para uma melhoria significativa das condições de trabalho e assistência, daí é falta de sensibilidade, conhecimento e respeito.
Fico triste e decepcionado de estar escrevendo sobre tudo isso novamente. Gostaria de estar enaltecendo o trabalho em saúde mental que os servidores fazem todos os dias, com empenho e, muitas vezes, sem respaldo do poder público. Mas não podemos perder a esperança. Quem sabe uma nova gestão (médica) pode trazer novos ares?

 

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