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Da terra e da gente

Não há mais segunda-feira

Escrevia da última vez sobre a felicidade. Citava muitos autores famosos e seus pensamentos sobre esse estado de espírito tão acalentado e, ao mesmo tempo, tão vilipendiado pelo ser humano, tão dualista, tão contraditório em suas atitudes.

No mesmo curso do sentimento, volto o pensamento à própria experiência vivencial, em meio à família que propiciou a primeira acolhida em casa, no interior desta bela Monte Alverne, ao Norte da querida Santa Cruz; em meio à família constituída ao Norte desta cidade que, tal qual a família natal, se incorporou de forma definitiva na vida da gente; no Centro desta cidade, onde circula em grau máximo a vida da nossa gente e onde se acha a família de trabalho em que me incorporei, também em definitivo.

Tudo e todos oferecendo um Norte à vida.

Neste espaço sagrado e santo, que percorro todos os dias, não vejo mais dia ruim. Em outros tempos, de muitos atropelos, exageradas preocupações, assoberbadas tarefas, ansiedades permanentes, buscas incessantes, o dia de que não gostava muito era a segunda-feira, onde tudo recomeçava de forma dolorosa, o ponto alto da via-sacra, um reinício dos trabalhos na profissão e na missão pública, onde a reunião oficial acontecia justamente naquele dia e exigia toda concentração das atenções.

A mesma sensação sentia em pessoas próximas, todas sempre loucas à espera da sexta-feira (não da Paixão), mas a da véspera do fim de semana, do encontro festivo com os amigos, do lazer descontraído e descompromissado, da extravasão da alegria. Mas pensava que não precisava ser assim. Que, apesar de se exigir sacrifício para chegar à verdadeira alegria, à felicidade, como nos reensina a Semana Santa, poderíamos trilhar os dias sem tantas diferenças, alcançar uma situação em que se pudesse conciliar as dificuldades e efusividades no dia a dia e poder celebrar cada qual como uma dádiva superior, a ser usufruída com seus altos e baixos, bônus e ônus, alegrias e tristezas.

Pois, creio que o avançar da idade construído com naturalidade, com a absorção dos ensinamentos da vida, com os saberes da maturidade, colhidos com parcimônia, consciência e racionalidade, com a abertura à voz silenciosa e à leveza gritante do espírito, encontra-se a paz, a tolerância diante do que te desagrada nas coisas e nas pessoas, que, na verdade e no fundo, são teu retrato, apenas sob outro ângulo.

Nessa paz de espírito, não há mais lugar para dia desfavorável. No máximo, há de se permitir um dia não tão bom. Mas todos os dias podem ser bons para trabalhar, se encontrar, amar, rezar, comer, beber, falar, cantar, silenciar, meditar, ler. Ler e ver o mundo sob outros olhos, onde as belezas sobressaem, onde as pessoas e a natureza ao meu redor me interessam tanto quanto o meu corpo e meu espírito. Onde os defeitos são compreendidos e as qualidades exaltadas. Onde não há mais segunda-feira chata, porém muito mais sexta-feira, sábado e domingo exultantes. Onde todo o dia nos permite colher e acolher a vida como ela é, e nela ressurgir em sentimento pascal, com a alma aberta à felicidade.

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