Cada pessoa encontra uma maneira diferente de lidar com a perda. Há quem precise falar, chorar, compartilhar a dor. Há também quem prefira guardar tudo para si, como se esconder o sofrimento fosse uma forma de seguir em frente. Mas sentimentos reprimidos não desaparecem. De alguma maneira, encontram outras formas de se manifestar.
É a partir dessa ideia que se constrói Nosso Segredo, primeiro longa-metragem dirigido por Grace Passô. O filme acompanha uma família negra que tenta retomar a rotina depois da morte do pai. Enquanto cada integrante procura lidar à sua maneira com a ausência, antigas dores e segredos começam a emergir dentro daquela casa.
O luto, porém, não aparece no filme apenas como tristeza pela perda. Grace recorre ao mistério e ao fantástico para transformar em imagens aquilo que os personagens não conseguem dizer. A casa, os silêncios e acontecimentos aparentemente inexplicáveis passam a revelar o que permanece escondido — e as consequências de tentar seguir adiante sem enfrentar a própria dor.
Publicidade
Vencedor do Kikito de Melhor Longa-Metragem Brasileiro no Festival de Gramado, Nosso Segredo está em cartaz há uma semana nos cinemas brasileiros. O Magazine assistiu ao filme com exclusividade, a convite da Primeiro Plano, e conversou com a cineasta sobre a obra.
Atriz, dramaturga e diretora, Grace Passô construiu uma trajetória reconhecida no teatro e no cinema brasileiro. Em Nosso Segredo, ela assume pela primeira vez a direção de um longa-metragem e transforma uma história familiar em uma reflexão sobre luto, memória, silêncio e aquilo que permanece escondido.
Entrevista – Grace Passô, diretora e roteirista
Magazine – Nosso Segredo venceu o Kikito de Melhor Filme em Gramado, além de outros dois prêmios. O que esse reconhecimento representa para você e para o filme? Grace Passô – Julian, até chegar aqui foram muitas etapas. Fazer um filme passa por momentos diferentes, intensos e desafiadores. E há o fato de ser o primeiro longa que dirigi, em um momento muito delicado. Foi muito importante receber esse prêmio. É uma forma de festejar coletivamente. E um prêmio para um filme acaba sendo ainda mais coletivo, porque ele reúne muita gente, muitas parcerias novas e antigas. Você sabe bem como é difícil chegar ao momento de lançar os filmes nos cinemas. É mais uma força para que ele continue caminhando, para que seja visível e acessível às pessoas.
Publicidade
Nosso Segredo foi o único longa dirigido por uma mulher na competição principal desta edição de Gramado. Como você recebeu essa informação e o que ela representa? Eu sou uma mulher negra e, infelizmente, desde que comecei a trabalhar no campo das artes, quando não são iniciativas ligadas ao movimento negro, sou uma das únicas. É algo que faz parte da minha vida. E, claro, existe uma profunda solidão nisso, que também é um espelho da nossa sociedade. Não tenho dúvida de que o prêmio de Melhor Filme foi muito forte. Ele foi feito e dirigido por uma mulher, com um elenco majoritariamente negro. Junto disso, muitos artistas negros ganharam prêmios, e houve uma contribuição muito evidente desses artistas para que o festival fosse ainda mais potente. Há um lado muito positivo no que aconteceu este ano em Gramado e que pode dar pistas para os próximos anos e criar outras possibilidades. Acho que a força e a festa que aconteceram, também têm a ver com isso. O que aconteceu mostrou não só uma dívida histórica do cinema brasileiro em relação à produção e às mulheres à frente das funções e das equipes, mas também que isso é incontornável. Deixar de ter a presença de mulheres, de pessoas negras e de outros grupos que reivindicam maior representatividade é uma perda para o próprio festival. Gramado explicitou isso. É importante para a própria qualidade do festival. Foi muito forte ver tantas mulheres e tantas pessoas negras premiadas, porque isso mostra que os próprios festivais precisam dessa presença. São essas pessoas também que têm trazido excelência para a linguagem cinematográfica.
Em Nosso Segredo, uma família precisa lidar com a morte enquanto segredos e antigas dores vêm à tona. O que você queria investigar nessa família? Sobretudo, o modo como o afeto se dá, a importância do afeto em momentos dramáticos ou trágicos das nossas vidas. Essa família é também um pretexto, uma metáfora para falar de um histórico do Brasil, que é dotado de tragédias e dramas. Existem essas duas dimensões: tanto a mais íntima dessa família negra quanto uma dimensão mais ampla e social, que envolve as famílias negras brasileiras e o histórico da negritude brasileira. Só chegamos até aqui, com a dignidade que chegamos, foi por causa de uma força coletiva e do afeto. Ao contrário do que o racismo no Brasil fez, que foi investir em uma imagem de embrutecimento da negritude, de pessoas negras como brutas e violentas. O que nos fez chegar até aqui com dignidade tem a ver com o afeto, com a força coletiva e com a capacidade de resolvermos juntos problemas muito difíceis. A família, nesse sentido, é um núcleo de pessoas muito interessante para mostrar isso numa ficção. Você pode até não ter uma família ou não ter sido criada por uma, mas todo mundo tem algum grupo que o acompanhou e com quem viveu ao longo da vida, tendo sido esse grupo bom para você ou não. E você sempre espera desse grupo afeto e proteção. Então, usar a família para falar sobre afeto é também uma maneira de partir de uma referência que todos temos e, com isso, conseguir falar de luto a partir de algo que é muito comum entre nós.
Em determinado momento, uma das personagens assiste a A Noite dos Mortos-Vivos. Além da relação com a casa e o confinamento, o que levou você a colocar esse filme em Nosso Segredo? Muitas coisas, Julian. A primeira delas tem a ver com isso. Primeiro, eu estava procurando um filme de terror, porque ele aparece no momento em que Nosso Segredo fica mais ressaltado em termos de suspense. E há aquela história que acontece no final, quando eles vão para dentro da casa. É um terror incrível. É uma pista para os cinéfilos, uma piada interna. A Noite dos Mortos-Vivos tem um acontecimento que, apesar de não ter sido dirigido por uma pessoa negra, talvez tenha sido uma das primeiras vezes que algo assim aconteceu no cinema. Lembro da primeira vez que assisti: quando o herói negro é morto pela polícia, aquilo foi muito forte para mim. Foi um dos primeiros filmes de zumbi, de suspense, que me fizeram sentir terror. E é um terror que vem de algo muito forte, do fato de esse personagem ser negro.
Publicidade
Quer receber notícias de Santa Cruz do Sul e região no seu celular? Entre no nosso novo canal do WhatsApp clicando aqui. Ainda não é assinante Gazeta? Clique aqui e faça agora!