O chamado da poesia é irrecusável. E ele vai convocando mais e mais adeptos. Entre os que se renderam está uma juíza do Trabalho que por um breve período atuou em Santa Cruz do Sul. Natural de São Borja e radicada em Porto Alegre, Maria Joaquina Carbunck Schissi acaba de lançar um segundo livro nesse gênero. Resultado zero foi editado pela gaúcha Renascença, com 118 páginas, e pode ser adquirido, ao valor de R$ 60,00, em diversas livrarias, a exemplo de Bamboletras, Macun e Paralelo 30, todas na capital gaúcha.
A nova obra chega 16 anos depois de sua primeira incursão pela poesia, com Cor de maravilha, pela editora Dublinense. Em seu novo conjunto, num total de 47 poemas, ela aborda temáticas de cunho existencial, e com um olhar perceptivo igualmente para as circunstâncias sociais da atualidade. Não escapam, por exemplo, os cenários de conflito que devastam regiões do planeta, como Gaza e o território palestino. Não surpreende, portanto, que uma certa melancolia e a angústia dominem muitos dos versos.
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E esse olhar de mundo vem apoiado numa longa e exitosa trajetória no serviço público. Ao deixar sua terra natal, ela se mudou para Porto Alegre, onde estudou no Colégio Estadual Júlio de Castilhos. Ao ingressar no mercado de trabalho, atuou em Redação de jornal. Formada em Direito, tornou-se juíza do Trabalho, estando hoje aposentada. Acumulou vivências profissionais e pessoais nas cidades de Santo Ângelo, Santa Cruz do Sul e Canoas, além de Porto Alegre.
Em Santa Cruz, especificamente, atuou entre julho de 1984 e fevereiro de 1985, uma passagem que, embora breve, firmou-se em seu imaginário e contribuiu para a sua visão sobre a realidade regional do interior gaúcho. Resultado zero tem prefácio do escritor gaúcho Sergio Faraco e o texto de orelha é da escritora Cátia Simon. O trabalho de produção editorial e de curadoria do livro é de Betania Maria Rodrigues Gonçalves.
Sobre os poemas que agora lança, Maria Joaquina comenta: “Pensei em não publicá-los, a essa altura de minha vida. Mas mudei de ideia. Ocorreu-me que devo honrar meus poemas, justamente por sua perseverança em nascer. Depois de nascidos, os poemas querem um lugar no mundo, querem ser lidos, conhecidos, querem falar a alguém”. A partir de agora, falarão aos leitores do presente e do futuro.
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No prefácio que assina, Faraco lança um questionamento: “O que nos resta senão fruir o transitório, o efêmero, as pequeninas coisas que essa avara natureza se permite nos conceder, como as cores de uma borboleta num dia de verão ou, num dia de inverno, a meiguice de um sol em nosso rosto? É pouco, somando o ruim e o bom dá zero”, pontua, referindo ao título do livro. E completa: “Mas é tudo”.
É essa totalidade, essa integralidade entre o ser e seu entorno, que Maria Joaquina oferece.
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Potência lúcida e criativa
A poeta, escritora e ensaísta Cátia Simon, em sua apreciação de Resultado Zero, em uma das abas do volume, aponta que as temáticas são abordadas por Maria Joaquina “com potência lúcida e criativa”. Entre os enfoques listados por Cátia, e que lhe chamaram a atenção, estão nascimento, morte, desigualdade social, relação com Deus. E destaca um verso da autora sobre os caminhos secretos da criação, que compreende como uma definição do próprio fazer literário: “escuras são as sombras/que dão/à luz/um poema”.
Para ler

Um poema
“MISERERE NOBIS”
Seguimos desavisados,
as mãos no bolso,
exalando os melhores propósitos.Publicidade
Ostentamos dotes juvenis,
unimo-nos em clãs,
formulamos votos em prol do bem.De bom grado levamos
a mão direita ao fogo,
na certeza de que eles
(nossos dotes, nossos votos)
se transformarão em obras,
em aplausos,
em olhos ofuscados
pelo brilho da nossa luz.Miserere Nobis!
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Não sabemos, mas
pisamos em terreno minado.Na hora marcada,
saltarão sobre nós
os perigos que nos pertencem:
a verde inveja,
amor escarlate, a
aranha de olhos enormes
e teias de aço,
o caçador
com seu cachorro e
sua espingarda,
o homem
do outro lado da rua,
a mãe
dentro de nossa casa.
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