Simão, o Cireneu foi um homem bom: auxiliou Jesus a carregar a cruz. Mais de uma vez. Atitude humana e solidária, lição que devemos aplicar antes mesmo que nos peçam ajuda. Levar adiante a cruz de nossos diários sofrimentos é tarefa penosa e, em certos dias, insuportável. Então, quando um amigo toma para si, por instantes, a nossa cruz, sentimo-nos reconfortados. De novo a esperança. E, tendo amigos de verdade, muitas vezes podemos dividir esses encargos.
O gesto supremo da via-crúcis, para mim, foi o de Verônica, a que limpou, com seu véu, o rosto de Cristo. Essa virtude contém algo de mais profundo e transcendente – o toque. Verônica não sente repulsa ao suor e não tem medo do sangue. Sua compaixão é total quando apanha o tecido e, muito suave, asa de borboleta, encosta no sagrado Rosto. Tão meigas aquelas mãos que a Face divina, agradecida, retrata-a, para sempre, no pano.
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O gesto de Verônica é o mesmo gesto da mãe, do pai, do amigo sincero, da professora, do médico familiar. De gente meio santa, enfim. De nossa parte – normais entre os normais – limpar o suor do caminhante, o sangue do doente, as secreções do moribundo, são bondades que sempre intencionamos praticar. Conseguiremos?
***
Queridos, a crônica acima é de um livro meu esgotado – Todos os meses –, de 2002. Sobre o tema, não consegui nada melhor, em todos esses anos. Gosto do tema, gosto do texto. Por isso lhes ofereço, nesta época de Quaresma, quando nos tornamos mais reflexivos e fazemos balanços de nossos pensamentos, palavras, gestos, obras e omissões.
***
Para fazer o retrato de um pássaro
Primeiro pintar uma gaiola
com a porta aberta
depois pintar
qualquer coisa de bonito,
qualquer coisa de simples
qualquer coisa de belo
qualquer coisa de útil…
para o pássaro
depois pendurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque, ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem dar um pio
(..)
Às vezes o pássaro chega sem demora
Mas pode também levar longos anos
(..)
e quando entrar
fechar suavemente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades.
(Prévert, Jacques – Paroles)
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Amo este poema, e, por amá-lo tanto, ousei mutilá-lo, para caber no espaço desta coluna. Já o conhecia há décadas, do livro Paroles, que tive e dei para minha filha. Esta versão é de um livro da Cosac & Naify – Dia de folga – e a tradução é de Carlito Azevedo. Foi publicado, primeiro, na Gallimard, em 1949, e teve várias reedições. A edição brasileira é de 2004.
Ele não se parece com o gesto de Verônica?
Obrigada por me lerem!
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