Na conferência “O Brasil não é isto”, proferida no Teatro Lírico do Rio de Janeiro, em março de 1919, Rui Barbosa apropriou-se do célebre Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, para formular uma das mais sofisticadas críticas sociais da Velha República. O que poderia permanecer como simples personagem literário converteu-se, nas mãos de Rui, em metáfora política do fracasso nacional.
Há algo de profundamente desconfortável nessa leitura. O Jeca atravessa independência, abolição da escravatura, República, diversas revoltas e guerras civis sem participar efetivamente de nenhuma delas.
Em paralelo às diversas mudanças pelas quais passa o país, a vida concreta do homem pobre permanece imóvel. A história nacional acontece diante dele – jamais com ele.
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A força da reflexão de Rui está justamente na recusa da caricatura moral. O Jeca não surge como preguiçoso por natureza, inferior biologicamente ou incapaz por essência, como sustentava parte do pensamento social da época. Sua apatia nasce do abandono. O problema não reside no homem, mas na República que jamais o integrou plenamente à vida nacional.
É aí que a metáfora ganha dimensão extraordinária. O Jeca deixa de representar apenas o atraso rural brasileiro e passa a simbolizar uma cidadania incompleta. Formalmente, ele existe: vota, paga impostos, submete-se ao Estado. Substantivamente, porém, permanece invisível. A República o incorpora estatisticamente, mas não politicamente.
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Rui afirma que o ato mais importante da vida política do Jeca é votar – sem compreender em quem vota. Poucas imagens sintetizam tão bem a lógica oligárquica da República Velha. O voto se transforma em ritual mecânico, desprovido de consciência cívica, manipulado pelas estruturas coronelistas.
Democracia, afinal, não se resume à existência de eleições. Sem educação, autonomia material e integração social mínima, a mecânica eleitoral pode coexistir perfeitamente com exclusão política profunda.
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O Brasil urbano, digital e hiperconectado do século 21 continua produzindo novas formas de invisibilidade social. Mudaram os personagens, as tecnologias e as linguagens públicas. O mecanismo, contudo, permanece inquietantemente reconhecível: milhões participam economicamente do país sem jamais sentir que pertencem integralmente a ele.
E talvez esteja aí a ironia mais sofisticada da história brasileira. A República modernizou suas instituições, expandiu direitos, multiplicou tecnologias e acelerou a circulação de informação. Ainda assim, segue produzindo multidões politicamente presentes, porém socialmente apartadas – Jecas conectados à internet, mas ainda distantes da própria história.
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