Será que os olhos das mulheres estão vendados? Não como os da deusa Têmis, cuja venda encena a imparcialidade diante da justiça, mas como os de Paula, que teve a vida interrompida com golpes de faca na última segunda-feira, 26. Pelo ex-companheiro. Não havia boletim de ocorrência registrado. Não havia medida protetiva. Havia, segundo o filho contou à polícia, brigas recorrentes dentro de casa. O que Paula não enxergou?
Gostamos de acreditar que a violência avisa. Que dá sinais claros, audíveis, incontestáveis. Que o perigo sempre entra pela porta da frente, gritando. Mas, quase sempre, ele chega de pantufas. Mora junto. Divide contas, café, cama e rotina. A violência contra a mulher raramente começa com um golpe. Ela vem com um incômodo que a gente aprende a minimizar. Um tom de voz. Um controle disfarçado de cuidado. Um medo que não encontra nome.
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Quais sinais escaparam às 80 mulheres vítimas de feminicídio no Estado no ano passado? E às 264, cujas tentativas felizmente falharam em ceifar-lhes a vida? A cada dez minutos, segundo a ONU Mulheres, uma mulher ou menina é assassinada no mundo por um companheiro ou familiar. Dez minutos é o tempo de um banho rápido, de esquentar um café, de responder mensagens antes de sair de casa. A morte cabe nesse intervalo.
Mas quando o nome ganha rosto, quando a tragédia atravessa a rua, o bairro, a cidade onde a gente vive, a estatística perde o efeito anestésico. A dor fica palpável. Não dá para engolir. Não dá para seguir o dia simulando normalidade quando sabemos que, em algum lugar muito próximo, uma mulher não voltou para casa.
Casa? A morte tem batido à porta das mulheres e não há olho mágico. O perigo não se anuncia com placas. Ele se infiltra na rotina, se esconde no “vai passar”, no “não foi nada”, no “ele vai mudar”. Entre quatro paredes, não há salva-vidas. Não há força física que garanta proteção, muito menos amor que cure violência.
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Talvez a pergunta que reste seja coletiva: o que estamos deixando de ver? Que bandeiras vermelhas normalizamos em nome da manutenção de vínculos, da ideia de família, do medo de romper? Enquanto insistimos em procurar culpadas onde só há vítimas, o ciclo se repete.
Paula não morreu por falta de denúncia. Paula morreu porque a violência contra a mulher ainda encontra silêncio, descrédito e solidão suficientes para seguir acontecendo. E enquanto isso for verdade, nenhuma venda cairá dos olhos da justiça. Nem dos nossos.
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