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O Rei e Santa Cruz do Sul: relembre as passagens de Roberto Carlos pelo município

Foto: Lula Helfer

Neste domingo, 20 de junho, completam-se 52 anos desde o momento em que, em 1969, então numa sexta-feira, um rapaz e uma moça, acompanhados de banda, subiram ao palco na Sociedade Ginástica, na Rua 28 de Setembro, em Santa Cruz do Sul, para show cercado de forte expectativa. E arrasaram. Nos anos seguintes e ao longo de cinco décadas, aquele cantor, então com 27 anos recém-completados, firmaria seu nome na história da MPB, a ponto de ser
consagrado como… o Rei.

Em 20 de junho de 1969, pouco mais de um mês antes de o homem chegar pela primeira vez à Lua, Roberto Carlos fez seu primeiro show em Santa Cruz. A turnê pelo Sul do País era feita na companhia dos inseparáveis parceiros Wanderléa e Erasmo Carlos, e a banda era nada menos do que a já famosa RC7, seu grupo pessoal, com sete integrantes. Em show na véspera, Erasmo tivera indisposição, e por essa razão apenas Roberto e Wanderléa se apresentaram na Ginástica.

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Aquele jovem “Rei” acaba de completar 80 anos, no dia 19 de abril, quando nasceu, em pleno Dia do Índio, em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. E neste ano ainda houve o lançamento de nova biografia, assinada pelo jornalista Jotabê Medeiros, um especialista na cena musical brasileira.

E é no contexto dos 80 anos do Rei que a Gazeta do Sul decide recuperar a relação dele com Santa Cruz do Sul. Afinal, é uma das cidades gaúchas em que ele mais vezes se apresentou, talvez só perdendo mesmo para a capital, Porto Alegre. Além do memorável show de 1969, ele retornou cinco vezes. E quem esteve próximo dele nessas visitas pôde verificar que sempre se sentia muito bem na cidade, a ponto de optar por pernoitar aqui. Em suma: ele gosta de Santa Cruz.

Tendo na religiosidade uma de suas marcas pessoais, há relatos de que aqui visitou a Catedral São João Batista e também o Santuário de Schoenstatt. E certamente outro trunfo da cidade para ser a escolhida para shows em suas turnês foi o amplo e moderno Ginásio Poliesportivo, onde 10 mil fãs podiam ir vê-lo, ouvi-lo e aplaudi-lo. Foi assim em todas as vezes, até a mais recente delas, 10 de abril de 2013. Todas a Gazeta do Sul ajudou a divulgar, e de todas fez a repercussão posterior em suas páginas.

Para marcar os 80 anos do Rei, ouvimos fãs que testemunharam sua presença, as pessoas que o acolheram e atenderam no hotel, e até o motorista que o conduziu pela cidade. Há aspectos emocionantes: em 1997, por exemplo, veio na companhia da mãe, dona Laura, e da esposa, Maria Rita. Em 2002, retornaria: já sem Maria Rita, falecida em 1999.

Nada nem ninguém poderia mesmo ficar impassível diante de um astro de tamanho brilho. E o fato é que, ao longo das décadas, Roberto Carlos mostrou e provou, ano após ano, por que é Rei: “Não adianta nem tentar me esquecer”, diria ele. “Durante muito tempo em sua vida eu vou viver.” Afinal, “detalhes tão pequenos (…) são coisas muito grandes pra esquecer”. E “se chorei / ou se sorri, / o importante é que emoções eu senti”.

A Gazeta do Sul de 18 de junho de 1969 anunciava o grande show que Roberto Carlos faria na cidade

Em 20 de junho de 1969, o primeiro show em Santa Cruz
Aos 26 anos, em fevereiro de 1968, Roberto Carlos surpreendia o mundo ao conquistar o primeiro lugar no prestigioso Festival de San Remo, na Itália, considerado uma espécie de Oscar da música. Ao interpretar Canzone per Te, de Sergio Endrigo e Sergio Bardotti, superou estrelas do quilate de Louis Armstrong. No retorno ao Brasil, teve recepção parecida com a da Seleção Brasileira campeã na Copa do Mundo de 1958.

E foi com a credencial e o status concedidos por essa façanha que o Rei chegava pela primeira vez para se apresentar em Santa Cruz do Sul. Neste domingo, 20 de junho, completam-se exatos 52 anos desde aquela primeira visita. Na qual, aliás, apresentou-se ao lado de sua parceira musical da época, a mineira Wanderléa, com a qual formava um dos trios-símbolos da Jovem Guarda, na companhia ainda do inseparável Erasmo Carlos. O trio fazia turnê pelo Sul e se apresentara na véspera em Lages (SC), onde Erasmo teve indisposição, razão pela qual, ao invés do trio, a dupla Roberto e Wanderléa subiu ao palco da Ginástica, na Rua 28 de Setembro, ao lado da banda RC-7.

Isso em nada diminuiu a euforia dos fãs, como noticiou a Gazeta do Sul. A matéria inclusive fazia menção ao nome do show, “O Inimitável”, alusão ao long-play homônimo, “O Inimitável”, que lançara em 1968, seu oitavo álbum autoral. Na época, a Gazeta circulava em duas edições semanais, às quartas-feiras e aos sábados. Foi na edição de quarta, 18 de junho, que o jornal anunciava: “Está chegando o dia do maior show do ano: Roberto Carlos, sexta-feira”. A título de ilustração, trazia três fotos de “flagrante” do show realizado pelo cantor em Lages, Santa Catarina. “Ninguém vai sentir frio, a maior fogueira do ano será armada sexta-feira em pleno ginásio da Sociedade Ginástica”, vaticinava. “Em ocasião alguma uma apresentação artística está cercada de tanto entusiasmo.”

A edição de sábado ainda conseguiu repercutir o show da véspera, em breve texto na capa. “Roberto Carlos e companhia explodiram Sociedade Ginástica”, foi a chamada. “Chegaram e abafaram”, diz a matéria. “A Ginástica pegou fôgo mesmo quando o ‘Rei’ Roberto Carlos começou a cantar com aquele seu geitão inconfundível, as mais conhecidas músicas do seu repertório”, informava, com a linguagem e a grafia da época. E advertiu que no auge da apresentação algumas fãs mais fanáticas lançaram os “tradicionais gritinhos”. De Santa Cruz, RC e grupo seguiriam
para Santa Maria e, conforme a Gazeta, “segundo informações, muitas fanzocas, não resistindo a tentação, para lá também se mandarão de imediato.”

O jornalista Luiz Henrique Kühn, o Ike, colunista social da Gazeta do Sul, estava próximo de completar 16 anos quando da primeira visita de Roberto Carlos à cidade. E era um dos fãs do cantor, de maneira que lembra de circunstâncias. Segundo ele, Roberto e seu grupo foram recepcionados com carreata na altura da rótula do 2001, então subúrbio, entrada da cidade. De lá, todos seguiram em cortejo até o Hotel Charrua, onde os artistas ficaram hospedados. “Lembro que Roberto e Wanderléa fizeram uma entrada apoteótica na cidade, em carro aberto”, diz. E, conforme Ike, o fotógrafo Hélio Christman, estabelecido com bazar na Rua Marechal Floriano, nas imediações hoje do supermercado Nacional, teria ido até a Ginástica fazer um registro de Roberto durante o show.

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Zé da Banca viu a chegada
Quem tem memória especialmente carinhosa da passagem de Roberto Carlos por Santa Cruz é José Manoel de Menezes, o popular Zé da Banca, que ajuda a atender a clientela n’A Banca, na Rua Marechal Floriano, há mais de duas décadas. Natural do interior de Vera Cruz, Zé radicou-se em Santa Cruz ainda menino. Lembra de, quando adolescente, circular pelo Centro, como diz, auxiliando pessoas em tarefas para as quais era convidado ou convocado.

Foi assim em um dia de junho de 1969 quando se encontrava nas imediações da Praça da Bandeira, perto do Hotel Charrua. “Um senhor chegou até mim e perguntou se eu não queria ganhar uns trocados ajudando ele a fixar cartazes pela cidade. Topei, claro”, recorda. Esse senhor estava hospedado no Charrua, onde tinha seu QG de atuação em um dos apartamentos. “De lá saíamos para fixar os tais cartazes, e eu vi que eles divulgavam um show. Quis o destino que eu estivesse junto no apartamento para buscar material numa certa hora. De lá se podia olhar para a rua do Centro: de repente surgiu um carrão, mas pensa num carrão, que parou na frente do hotel, e dele desceu um galã com charuto na
boca. Era ninguém menos do que Roberto Carlos chegando para o show na cidade!”, descreve, emocionado.

Ali se estabelecia, e dessa forma inesperada, a ligação de fã de Zé para com o ídolo da Jovem Guarda e futuro Rei da música brasileira. Sem dinheiro para ingresso, Zé achou um jeito de, na companhia de alguns amigos, assistir inclusive ao show, realizado a duas quadras do hotel, na Sociedade Ginástica. Eles escalaram um muro e a parede do lado oeste da sede do clube e, lá do alto, por uma janela que localizaram, ficaram espiando a apresentação. “A gente via o palco por trás. O Roberto e a banda estavam de costas para nós, meio de lado, mas mesmo no improviso vimos todo esse show”, refere. E desse momento em diante o Rei se fixava de tal forma no imaginário do Zé que ele inclusive se aventurou numa carreira de cantor, gravando, com apoio e auxílio de amigos músicos, discos informais com canções de Roberto, de quem ele se declara fã absoluto. “Rei é Rei!”, diz. A foto que ilustra este texto foi publicada no Jornal do Ike, da Gazeta do Sul, num registro da presença de Zé da Banca no show de Roberto Carlos em Santa Cruz em 2013.

Uma relação especial com a cidade
A visita de junho de 1969 foi a primeira de muitas que o Rei fez a Santa Cruz. Na década de 90, e já no século 21, suas turnês costumavam incluir a cidade. A Gazeta do Sul fez o registro dessas apresentações, que passaram a ter como palco o Ginásio Poliesportivo, inaugurado em 1992. Nesse novo ambiente, Roberto apresentou-se em 1993, 1995 e 1997, como a Gazeta do Sul registrou. Aliás, RC parece ter relação toda especial com Santa Cruz, como suas vindas à cidade deixam transparecer. Visitou, como ficou registrado, a Catedral São João Batista e também o Santuário de
Schoenstatt, às margens da BR-471.

Em 1995, veio à cidade em maio com a turnê Luz, como enfatizou o jornalista Mauro Ulrich na Gazeta do Sul. Fechou o show com Nossa Senhora e Luz, com direito a distribuição de rosas ao final. Ulrich apontou que o Rei estava particularmente falante nessa passagem pela cidade. E foi nesse ano, como informou o padre Orlando Pretto, que ele foi conhecer a Catedral, que muito o impressionou.

Marcante foi a apresentação de 1997, no dia 16 de abril, três dias antes de seu aniversário de 56 anos. Roberto veio à cidade ao lado da esposa Maria Rita e de ninguém menos que sua mãe, dona Laura. O caderno Sábado, da Gazeta do Sul, do final de semana seguinte (imagem à direita), justamente no sábado, 19, em que o Rei aniversariava, detalhava
tudo para os leitores, lembrando que ele abriu com Como é Grande o meu Amor por Você, seguido de
1h50 de espetáculo.

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Duas apresentações já no século 21
O Rei retornaria a Santa Cruz já no novo século, em 2002, para show novamente em abril, desta vez no dia 27. O jornalista Luiz Henrique Kühn, o Ike, lembra que Roberto havia feito show naqueles dias em Caxias do Sul, e que lá decidira adquirir motorhome zerado, com o qual se deslocou, dirigindo ele próprio, para as outras cidades
incluídas na turnê.

Na ocasião, vieram com ele os pais de sua falecida esposa Maria Rita, Geramy e Luiz César Pinheiro Simões, e também sua secretária Carminha. E ficara novamente hospedado no Hotel Fazenda Pinus Parque, onde Ike diz ter estado em visita ao então proprietário, Marcos Baumhardt. Recorda que o motorhome fora estacionado próximo a um riacho da propriedade, mais afastado, e que ele e Marcos caminharam por lá, chamando a atenção de seguranças do Rei.

Marcos Baumhardt, que hoje atua como corretor imobiliário, lembra com carinho das duas estadas do Rei em seu hotel, do qual foi proprietário desde a inauguração, em 1990, até 2012, quando o vendeu.

De Santa Cruz, Roberto Carlos seguira em direção a Bagé, novamente dirigindo o seu motorhome. Ike ainda salienta que os shows do Rei seguramente foram os que contaram com o som mais cristalino entre todos os espetáculos sediados no Poliesportivo. “O ginásio tem o histórico de ser bastante desafiador para a acústica, a qualidade e a definição do som, por causa do espaço enorme. Mas os de Roberto Carlos, talvez pela potência de sua mesa de som, grande que nem um ônibus, sempre tinham um som perfeito!”, avalia.

A vez mais recente em que o Rei fez show em Santa Cruz foi em 2013, no dia 10 de abril. Naquela data, uma quarta-feira, o suplemento Mix da Gazeta do Sul, em texto do jornalista Mauro Ulrich, anunciava que naquela noite o Rei abriria a sua turnê pelo Estado na cidade, e depois seguiria para Pelotas, Caxias do Sul e, por fim, Porto Alegre, onde completaria 72 anos. Nada menos do que 16 carretas estavam viajando e levando os equipamentos de uma localidade para outra, com 500 profissionais envolvidos.

QUANDO ELE CANTOU AQUI

  • 20 de junho de 1969
  • 21 de maio de 1993, turnê Coração
  • 23 de maio de 1995, turnê Luz
  • 16 de abril de 1997, turnê Amor
  • 27 de abril de 2002, turnê Amor Sem Limite
  • 10 de abril de 2013
Da esquerda: Alexandre e Lisa com Nicole; dona Laura, Roberto e Maria Rita

Um hóspede muito especial no Pinus Parque Hotel
Quem tem lembrança muito especial das passagens de Roberto Carlos por Santa Cruz do Sul é Elisane Petry Gonçalves, 57 anos, mais conhecida como Lisa. Lembrança, aliás, materializada em várias fotos em papel. Ela é casada com o porto-alegrense e professor universitário Alexandre Rieger, irmão de Ana, esposa de Marcos Baumhardt, então proprietário do Hotel Fazenda Pinus Parque, às margens da RSC-287. Lisa e Alexandre ajudavam a administrar o estabelecimento.

Ela lembra que em abril de 1997, em determinada ocasião, recebeu uma ligação de alguém que, a partir de Santa Maria, queria fazer reserva para um grupo maior, supostamente em deslocamento pelo Rio Grande do Sul para participar de um encontro de adeptos de motorhome. Lisa e Alexandre inclusive moravam junto ao hotel, e ela efetuou as reservas à noite, para uma comitiva que chegaria já na madrugada, em relação à qual teve orientações para que se deixasse alimentação preparada. No dia seguinte, quando iniciou o expediente de trabalho, estranhou um ônibus enorme estacionado no local, além de um motorhome e a presença de seguranças, inclusive com walkie-talkies, não exatamente comuns naquela época. Foi então que ficou sabendo que, na verdade, a comitiva era de ninguém menos do que o astro Roberto Carlos.

Acontece que, no dia anterior, quando se deslocava de motorhome entre Caxias do Sul e Santa Maria, onde faria show à noite, Roberto teve a atenção atraída para a placa do Hotel Fazenda em meio à natureza. Teria parado a viagem para conferir a localização. O grupo seguiu viagem, mas de Santa Maria o Rei orientou uma de suas assessoras, Suzana, mãe de Patrícia Lamounier, esposa do humorista Tom Cavalcante, a fazer contato com o hotel em Santa Cruz. O plano deles era concluir o show em Santa Maria e, logo após, ainda retornar naquela noite para Santa Cruz, onde se hospedariam e haveria o show no dia seguinte. Com a confirmação da reserva, isso de fato se concretizou, e a comitiva teria entrado no Pinus por volta das 2 da manhã.

Em 2002, novo registro da família com o Rei, que perdera Maria Rita em 1999

Lisa lembra especialmente de que o grupo todo, ainda que exigente quanto à qualidade do atendimento a Roberto e ao staff, era muito gentil. Tanto que na saída o cantor prontamente aceitou tirar fotos com hóspedes que estavam na recepção, e posou ainda ao lado de Lisa, Alexandre e da filhinha deles, Nicole, hoje com 25 anos, professora, formada
em Letras e Jornalismo, e que na época ainda não completara 2 anos. Na ocasião, em 1997, acompanhava-o a esposa Maria Rita, que viria a falecer ao final de 1999.

Em 2002, Lisa e Alexandre já nem residiam mais na área do hotel, tendo se mudado para mais próximo da Unisc. Mas do Pinus fizeram contato com ela informando que uma pessoa de fora gostaria de conversar com Lisa. Era novamente Suzana, da assessoria de Roberto Carlos, querendo providenciar reservas no hotel, pois o Rei voltaria à cidade para um novo show e gostaria de se hospedar no mesmo local, do qual ficou com lembrança muito forte. O cantor veio novamente de motorhome, mas desta vez quem o acompanhava eram os pais de Maria Rita, Geramy e Luiz César Pinheiro Simões, e também a sua secretária Carminha.

E novamente a gentileza foi uma das marcas de todos. Lisa mais uma vez registrou essa passagem, dessa vez com o filho Bernardo, agora com 19 anos, junto na foto (ela e Alexandre ainda têm a filha adotiva Pietra, 18 anos). Na época, Lisa mostrou aos pais de Maria Rita e para Roberto as fotos que haviam feito em 1997. Comovido e emocionado, Roberto inclusive convidou a conhecer o motorhome e então mostrou que tinha na mesa uma foto enorme dele e de Maria Rita. “Ele é muito simpático! Tem uma energia incrível, e isso fica evidente para todos que se aproximam dele”, assegura Lisa.

Ademir conduziu o Rei: sempre à direita
O santa-cruzense Ademir Machado não apenas esteve próximo de Roberto Carlos. Ele conduziu o Rei. Aos 71 anos, tem viva lembrança dos momentos em que, por ocasião de shows de Roberto em Santa Cruz, foi ele, motorista executivo, o destacado pela equipe de apoio do cantor para levá-lo do hotel até o Ginásio Poliesportivo. A par de todo o profissionalismo e da discrição inerente a sua função, ele era (e é) “fã de carteirinha” de Roberto, como comentou em entrevista à Gazeta do Sul.

Residindo em Rio Pardinho na companhia da esposa Ivone, Ademir diz que o staff do cantor passava todas as orientações acerca de como deveria percorrer o caminho. “Na verdade, ia comigo um copiloto, dando as coordenadas”, frisa. A precaução tinha razão extra de ser. Ocorre que o carro jamais, sob nenhuma hipótese, podia dobrar ou fazer manobra à esquerda, uma “mania” do Rei. “Eu só precisava guiar, o copiloto ia orientando. Na verdade, a viagem ficava mais longa, e eu ia fazendo balão, sempre à direita, até enfim chegar ao destino”, comenta.

Como recebia crachá especial da equipe do cantor, ele tinha acesso livre ao ambiente do ginásio, e assim pôde assistir aos shows. “Foi muito gratificante, inesquecível”, frisa, embora, pela discrição exigida da condição de motorista, não tenha pedido autógrafos ou para tirar fotos.

Ademir foi o motorista que conduziu o Rei do hotel até o ginásio

Uma biografia digna de um astro de tamanha grandeza
Às vésperas da data em que Roberto Carlos completou seus 80 anos, em 19 de abril, o mercado editorial brasileiro passou a contar com nova (e, ao que tudo indica, a mais completa delas) biografia do cantor: Roberto Carlos – Por isso essa voz tamanha é um projeto do jornalista paraibano Jotabê Medeiros, 59 anos, um dos principais profissionais da comunicação na atualidade a se dedicar ao universo da música. Em seu currículo, além da presença atuante na equipe de articulistas do jornal O Estado de S. Paulo e, antes, também na Folha de S. Paulo, Jotabê já assinou as biografias Belchior – Apenas um rapaz latino-americano e Raul Seixas – Não diga que a canção está perdida, ambas lançadas pela Todavia, a exemplo da nova obra sobre o Rei.

Foram cerca de dois anos de pesquisas e entrevistas, sistematização de dados e escrita do livro, cujo prazo de conclusão da empreitada, num primeiro momento, nem tomava por base os 80 anos do cantor. No entanto, a data acabou sendo adotada para impulsionar a distribuição, como Jotabê detalhou em entrevista ao programa “Rede Social”, da Rádio Gazeta FM 107,9, em conversa com o jornalista Leandro Porto.

O resultado final do trabalho de Jotabê de fato constitui o mais panorâmico e abrangente apanhado biográfico da vida do Rei. Recupera inclusive os antecedentes familiares de seus pais, Laura e Robertino, no interior do Espírito Santo. Eles residiam na cidadezinha de Mimoso, e se fixaram em Cachoeiro do Itapemirim quando ela já estava grávida, esperando a chegada do filho Roberto.

O menino cresceu em uma realidade típica de cidadezinha do interior, e ali teve seu primeiro contato com programas de rádio e fez as primeiras apresentações musicais. Jotabê refere, naturalmente, o acidente que o pequeno Roberto sofreu, por volta dos 6 anos, quando brincava junto a uma locomotiva que entrou em movimento, e que implicou na amputação de parte da perna, logo abaixo do joelho.

Tal acontecimento, que marcou a infância do menino, tornouse uma espécie de tabu e alimentou as mais variadas especulações. O próprio Roberto Carlos evitava abordar esse assunto, embora, já adulto, tenha aludido a ele em letras de música.

Foi a mãe, dona Laura, quem se determinou a fazerem a mudança para o Rio de Janeiro a fim de possibilitar que o filho Roberto pudesse apostar numa carreira musical. O resultado disso se sabe hoje, e até que ponto aquele menino se projetou no Brasil e no mundo. A certa altura, ele estava morando na região da Rua do Matoso, ambiente no qual circulavam ninguém menos do que os jovens Tim Maia, Simonal, Erasmo Carlos, Renato Barros (de Renato e seus Blue Caps), Jorge Ben, Wanderléa, entre tantos outros.

Movimentando-se no meio desses músicos, e transitando por praticamente todos os gêneros que se salientavam na época, final da década de 50, início dos anos 60, Roberto Carlos embarcou na onda do nascente rock’n’roll brasileiro, mirando o que acontecia e vinha do mundo todo. E foi subindo, subindo, ainda junto da Bossa Nova, ao lado dos Tropicalistas, e conhecendo absolutamente tudo e todos que fizeram algum papel relevante na MPB. Com seu estilo romântico, nas décadas de 80 e 90, estabeleceu-se em definitivo como o maior ídolo da música no Brasil, com mais de 140 milhões de cópias de álbuns vendidos, e um dos gigantes da América Latina para o mundo.

É todo esse contexto que o livro de Jotabê detalha. Há, de fato, outras obras anteriores dedicadas à vida e à obra do Rei, caso do polêmico Roberto Carlos em detalhes, lançado em 2006 pelo escritor Paulo Cesar de Araujo. A edição virou caso de Justiça, que deu ganho de causa pleiteada pelo cantor e por seus advogados, o que implicou no recolhimento de toda a tiragem ainda nas livrarias. Claro que muitos volumes já haviam sido vendidos, e ainda circulam em sites de livros usados. Paulo Cesar de Araujo, aliás, anuncia para outubro deste ano novo livro sobre Roberto Carlos e sua relação com o Rei. Ao que tudo indica, e ao menos por ora, o livro de Jotabê não sofreu restrições, até porque reconhece perfeitamente a trajetória humana e de sucesso inquestionável daquele que, não por acaso, é chamado de Rei.

Roberto Carlos – Por isso essa voz tamanha, de Jotabê Medeiros. São Paulo: Todavia, 2021. 512 p. R$ 84,90.

Trecho:
“Seria preciso despertar em mim uma nova atitude de repórter para encontrar as chaves da compreensão do fenômeno, que são chaves coletivas, envolvem centenas de aportes e cruzamentos históricos. Roberto também embute, em sua tenacidade mística, a explicação do que significa o brasileiro, suas contradições fundamentais. Não se trata simplesmente de posicionar-se a favor, contra ou de modo moralista. A tarefa requeria um monumental esforço para compreender, mais do que esmiuçar. Examinando tudo com mais vagar e cuidado, é possível concluir, em primeiro lugar, que Roberto é, provavelmente, um fenômeno irrepetível, incomparável, insofismável. Sua presença na rotina social do país é maior do que costumamos admitir.

ENTREVISTA
JOTABÊ MEDEIROS

Jornalista e escritor

Autor da biografia Roberto Carlos: por isso essa voz tamanha, o jornalista e escritor paraibano Jotabê Medeiros concedeu entrevista ao jornalista Leandro Porto, no programa “Rede Social”, da Rádio Gazeta FM 107,9. Na ocasião, detalhou como foi a realização desse projeto e sua relação pessoal e profissional com o Rei.

Gazeta do Sul – Como foi o desenvolvimento desse projeto?
Jotabê Medeiros –
O Roberto é o artista talvez mais longevo da música brasileira. Está em atividade desde o começo dos anos 50; quando ele era criança, já cantava, lá em Cachoeiro do Itapemirim. Daí em diante, ele foi o que a gente chama de um artista de grande transversalidade: integrou os primeiros movimentos do rock brasileiro, depois foi um integrante da Bossa Nova; em seguida criou a Jovem Guarda, movimento de conformação jovem; foi próximo dos Tropicalistas, criou a música romântica brasileira, que a gente conhece. É uma figura muito importante. Era muito desanimador que não houvesse um livro que desse conta da trajetória dele. Foi por isso que resolvi escrever essa obra.

Como foi a tua relação pessoal, profissional, com ele?

Na primeira vez em que fiquei frente a frente com ele eu era iniciante, jornalista, na Folha de Londrina, e ele foi fazer um show lá. Aliás, foi lá que me formei em jornalismo. E a editora me pediu para ir até o principal hotel da cidade
porque o Roberto me esperava; faria um show naquela mesma noite e daria uma única entrevista, para aquele veículo. E aí tive de me preparar no caminho, porque, além de muito jovem, o Roberto não estava no meu horizonte, eu não sabia o quanto sabia a respeito dele. Falei: meu Deus! Fui até o hotel e ele abriu a porta do quarto, uma coisa rara.
Hoje em dia, é muito difícil o Roberto receber jornalistas pessoalmente. Recebe alguns da Globo eventualmente,
porque tem contrato lá, mas não dá entrevistas exclusivas, é um cara mais recolhido. Naquela época foi fácil. E depois
disso, como eu me saí bem da incumbência, começaram a me dar tudo o que tivesse para fazer de Roberto Carlos. Acabei me aprofundando na obra dele, e também na vida pessoal, na trajetória. Cobri, por exemplo, o enterro da mulher dele num cemitério aqui em São paulo, da Vila Mariana, que é um bairro no qual curiosamente resido hoje. Naquela época, tinha 3 mil pessoas no cemitério para a despedida. Depois fui a Jerusalém para cobrir o show dele lá, e também em Miami, para uma comunidade hispânica, majoritariamente. Fui para Recife, Rio de Janeiro. Corri atrás do RC, nos últimos 35 anos, provavelmente uma volta ao mundo. Isso fez com que ele também passasse a se familiarizar comigo, com meu semblante. Mas é uma coisa muito profissional. O Roberto é um cara muito pouco acessível, ele tem uma vida quase reclusa, se relaciona com o mundo quando ele quer.

Quando efetivamente se iniciou a produção desse livro?
Fazer coincidir o lançamento do livro com os 80 anos era uma bela oportunidade, inclusive porque as pessoas iriam estar mais atentas ao legado dele. Mas o fato é que eu comecei esse livro há dois anos, mais ou menos, e a gente não tinha essa perspectiva de que iria terminar em tal data, era uma coisa meio incógnita.Quando começou a se aproximar o período, fizemos um esforço para deixar ele pronto, porque, você sabe, um livro, uma biografia digna desse nome, tem de conter referências bibliográficas, discografia. E a do Roberto é muito extensa, muito complicada de equacionar. Ele tem muitos discos, gravou em espanhol, em italiano, inglês, gravou discos com outros artistas, fez músicas para outros artistas. Enfim, é uma trajetória muito rica, e muito complicada, mas, como eu me dediquei somente a isso no último ano e meio, consegui chegar a um resultado que considero bastante satisfatório. Agora, quem vai pesquisar ou tentar conhecer essa figura, uma dos maiores mitos da música brasileira, já tem pelo menos uma obra de referência disponível, né?

Tens alguma referência de como ele recebeu a obra?
Sabe que eu durmo e acordo pensando: hoje vai chegar uma mensagem dizendo que ele leu e o que achou (risos). Até agora nada, nem um sinal.

Há como apontar, no cenário da MPB, o que faz com que, a certa altura, seja Roberto Carlos que vai se tornar o Rei?

Rapaz, acho importante dizer sempre que não tem mágica nisso. Ele se preparou muito para isso, veio se preparando progressivamente para assumir essa condição. Desde criança passou a estudar música, piano, depois violão; também se relacionou com as pessoas de todos os grandes grupos criativos. Foi da turma da Rua do Matoso, no Rio: essa turma tinha ninguém menos do que Tim Maia, Jorge Ben, Erasmo Carlos, Simonal… Soube fazer a trajetória dele de forma muito estudada. Não tem nada de acaso. Ao mesmo tempo, você vê que o Roberto constrói pontes entre os gêneros. No começo, tocava rock’n’roll, que chamavam de iê-iê-iê, e o Roberto pegou as bandas de iê-iê-iê que não tinham repertório, não tinham grandes voos até então, e trouxe para o centro da ribalta da música. Deu para elas uma função, um repertório autoral; ele e o Erasmo compuseram as músicas que foram se fixando na imaginação brasileira. Essa transposição de gêneros, ele é o cara que articulou isso. Acho que o Roberto tem uma habilidade tremenda como músico, e como cantor eu adoro, ele é um intérprete refinadíssimo.

E houve a chegada da TV, da qual eles se beneficiaram…

Exatamente. E não basta haver nova mídia. É que nem agora: todo mundo percebeu que existe a internet e ela está dominando a forma de comunicação da nossa era. Mas quantos se destacam nesse mundo? Você tem que ter uma proposição, um plano. E você também precisa adaptar sua própria persona artística a esse novo veículo. E o Roberto fez isso. Na Jovem Guarda, ele era o chefe, o the boss da turma da Jovem Guarda; dava os rumos. E quando ele saiu da Jovem Guarda, esta desmilinguiu, virou nada. Ele era o cara.

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