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ROMEU NEUMANN

Os invernos de cada um

Enfim, estamos entrando no inverno. Para o meu gosto, bem que poderíamos ter a opção de saltar por sobre esta estação do ano. A sequência de dias gélidos que tivemos até aqui, ainda no outono, para mim já seria o suficiente para dizer que tivemos um inverno rigoroso.

Conheço pessoas que adoram o frio. Certamente, porque têm o aconchego de um lar, de preferência com aquecedores e lareiras – há tantas alternativas no mercado hoje que São Pedro vai ter que se reinventar diante dos seus termômetros para fazer frente à criatividade dos humanos.

Concordo que há uma série de fatores que sustentam a tese de que é a estação mais charmosa do ano. Para as mulheres, em especial – as que podem, obviamente –, é a oportunidade de desfilarem botas de diferentes modelos, sobretudos, casacos coloridos, echarpes, gorros e tantos adereços mais que não sei nominar. De verdade, ficam bonitas, elegantes, charmosas.

Mas, para mim, frio lembra e sugere sofrimento. Muitos da minha geração vão concordar: não tínhamos acesso a meias e roupas de lã, nem algodão. Nem a tênis e muito menos a calçados forrados para aquecer os pés.

Na infância, íamos à escola calçando chinelos (depois surgiram as Congas, com solas de borracha e tecido de pano) quebrando o gelo da geada e correndo pelo pátio no intervalo das aulas para tentar acessar, pelo esforço físico, um calor que as circunstâncias não nos ofereciam.

À noite, só conseguia dormir após mergulhar os pés numa bacia de água quase fervente para acalmar as frieiras que alfinetavam cada dedo dos pés.

Anos depois, já no internato, elas (as frieiras) mudaram de posição. Concentraram-se nos dedos das mãos. Juro, nem com o maior dos esforços, conseguia formatar um punho cerrado, porque os dedos, de tão inchados, não alcançavam a palma.

Desesperado e sem outros recursos, me submeti a um tratamento (?) – não lembro a sugestão de quem – que propunha mergulhar as mãos em água fervente encorpada com ramos de urtigas. Sim, aquelas que ferroam a pele quando nelas tocamos desprevenidamente. É claro que essa hipotética profilaxia não seria solução. Mas as ferroadas das urtigas eram bem mais amenas do que as espetadas das frieiras, até chegar ao ponto de anestesiar os dedos.

A memória me dá razões para não gostar do frio. E me torna incapaz de compreender que alguém ache belo, talvez poético, um dia encoberto de cerração, sem a luz e o calor do sol.

Mais do que o trauma das minhas frieiras da infância e adolescência, me comove o sofrimento de tantas pessoas que ainda hoje vivem em condições subumanas, sem abrigo decente, sem roupas adequadas para se agasalhar e, pior que tudo, sem poderem se alimentar com um mínimo de calorias necessárias para fazer frente a temperaturas tão desafiadoras.

Nós, os da minha geração, passamos por dificuldades porque não havia recursos alternativos ao nosso alcance. Nem de roupas, calçados, e muito menos tecnologia. Mas tínhamos um lar para nos acolher, um fogão a lenha para aquecer e uma mesa farta para nos alimentar.

Dói, só de pensar, o sofrimento de tantas pessoas que hoje veem o mundo ao redor como uma ficção, como meros espectadores, porque se sentem à margem de tudo o que o mercado oferece e a dignidade humana propõe.

Uma água fervente acalmava as minhas frieiras. E a expectativa pela primavera, logo adiante, era bálsamo de esperança para retomar a vida normal. O passar dos anos ensinou como meu problema era pequeno e insignificante diante do desespero das pessoas que sequer água quente têm para elaborar uma comida que possa amenizar a fome.

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