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ROMANCE

‘Os supridores’, um estado de espírito

Nascido em 1987, José Falero é uma das grandes revelações da literatura brasileira no século 21

Esta apreciação do romance Os supridores, do porto-alegrense José Falero, adota um tom de resenha/elogio, eventualmente apelando para impressões de cunho pessoal de leitor, e a justificativa será: a leitura foi uma experiência literária e cultural incomum, nada convencional. Primeiro, cumpre referir que, desde as primeiras linhas, apresentou-se na lembrança, como um contraponto ou efeito de comparação, o Grande sertão: veredas, do mineiro João Guimarães Rosa, considerado a mais importante obra da literatura brasileira no século 20 e, logo, um dos livros centrais do País em toda a sua existência.

A obra de Falero não dialoga (ao menos não direta e objetivamente) nem com Grande sertão, nem com Guimarães Rosa. E na verdade, não sugere intertexto com (quase) nenhum outro livro ou autor, tendo uma impressionante independência e originalidade. E, no entanto, a memória do Sertão, de Rosa, sempre esteve lá, na mente do leitor. Por quê?

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De imediato, porque Os supridores é único. É diferente. Aquilo que se chamaria, de forma solta, de ponto fora da curva. Apela para a coloquialidade, para o mundo ao rés do chão, para a vida real, e a traduz, a apresenta, a desenha, a molda, de uma forma autêntica. O faz sem qualquer panfletarismo, sem vitimização. É um mundo literário que “é sendo”, e daí a sua personalidade, que convence em cada coloquialismo, em cada sentimento enunciado, em cada frase de ação, ao descortinar a paisagem e mostrar o seu ambiente. E talvez, nesse caso, a associação com Rosa se explique de algum modo: o “sertão”, esse mundo de veredas, o cenário em que tudo se concretiza, agora é uma vila, um bairro, uma região. Se o sertão, como percebido por Rosa, é um estado de espírito, o dentro e o fora, como propõe de forma tão poética, “a vila” de Falero é, também ela, um estado de espírito, um dentro e fora ao qual o personagem principal, o Pedro, está ligado porque ele é a vila e a vila é ele.

Não por acaso, para quem lê Os supridores o enredo do romance passa a pairar como um mundo à parte, mas extensão de seu próprio mundo até então (e se fixa no imaginário, indelével). Novamente, que nem ocorre com Grande sertão: veredas. A “vila” a que se refere acima é a Lomba do Pinheiro, essa periferia a sudeste de Porto Alegre, um universo social criado ao longo de décadas com o ajuntamento de migrantes das mais variadas origens. É ali que Falero nasceu, em 1987, e cresceu, mais exatamente na Vila Sapo, confluência ou limite entre duas das vilas da Lomba.
Ali se apresentam para seu protagonista Pedro (como certamente ocorreu com o próprio autor) suas possibilidades, bem como ocorreu para seus pais e como ocorre para amigos e vizinhos. Entre um “trampo” e outro, acaba por parar na filial de uma rede de supermercados, e ali é um faz-tudo no meio de outras dezenas de faz-tudos: sua função é a de supridor. E supridor, no mundo atual, é um eufemismo mais do que gritante: é quem supre as carências ou as necessidades de outro, de alguém. Mas quem suprirá as carências do supridor?

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É aí que, no convívio diário com um colega de trabalho, Marques, outro supridor, Pedro idealiza um projeto para romper e driblar o destino: escapar da roda-viva de supridor, e ter ao menos algumas de suas vontades supridas. Como pode observar e testemunhar em seu entorno, alguns vizinhos ou amigos exploram os nichos que estão ao alcance para juntar alguns trocados. Tudo o que é preciso ter à mão é: grana.

E o negócio que melhor se afigura na vila é o comércio de drogas. Pedro vislumbra que quase ninguém mais encontra maconha (boa) por lá, porque os traficantes agora só se dedicam aos itens que dão muito mais retorno. É hora de montar um plano que permitirá a ambos juntar, em pouco tempo, o dinheiro que jamais poderiam ter apenas como supridores de supermercado. O jeito é suprir outras carências. Mas é claro que o passo para um mundo tão perigoso e o trânsito pela ilegalidade só poderiam mesmo vir cercados de muita, muita ameaça.

O que fica, desse movimento constante entre a vila, a periferia, e o ambiente do trabalho formal, no mercado, bem como da interação com outras tribos, é um retrato de um tempo, de uma sociedade, de um país. O Brasil de hoje, intui o leitor, já não é o que se constrói nas veredas do sertão de Rosa, mas sim o das veredas das vilas e das lombas e dos corredores de Falero.

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Por isso, e sem qualquer exagero ou forçação de barra, o leitor de Os supridores saberá que está diante de um romance inaugural: e, enquanto romance inaugural, de um livro definitivo. Não precisariam as gerações de hoje falar de Os supridores. O futuro se encarregará disso. E mais ainda por isso esse livro, lançado ao final de 2020, é tão incomum: Falero escreverá outros livros, é claro, é necessário e é pertinente e correto que o faça. Mas, se não fizesse mais nada, teria feito Os supridores. E não é pouca coisa.

– O nome do cara era Marques, que nem o meu?
– Não. Era Marx, com xis.
– Hum… Tá, mas se esse bagulho que a gente conversa não é novidade, por que ninguém nunca botou em prática?
– Já tentaram. Mas não funcionou.
– Não funcionou?
– Não funcionou.
– Mas como assim. Não funcionou por quê?
Pedro riu.
– Não funcionou porque ainda é uma ideia elevada demais pro espírito da maioria das pessoas no mundo. Não funcionou porque é uma ideia que surgiu antes da hora. Não funcionou porque ninguém quer que funcione, mano.

OS SUPRIDORES, de José Falero. São Paulo: Todavia, 2020. 304 p. R$ 59,90.

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