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Pelo mundo: tensão e rivalidade entre vizinhos

Foto: Acervo Pessoal

Doha: tradição e desenvolvimento acentuado são as marcas registradas da capital

Nos últimos anos, a monarquia capitaneada pela família Al Thani tem sofrido sanções dos vizinhos Emirados Árabes Unidos, Bahrain, Egito e, principalmente, do Reino dos Sauditas. Os motivos oficiais são as alianças políticas e, apesar de o Catar ser predominantemente sunita, sua alegada proximidade com o Irã e com organizações de resistência islâmica como Hamas e Hezbollah. Na prática, há também um certo desalinhamento cultural devido à maior liberdade de expressão e religião em relação aos vizinhos. Os sauditas recentemente reataram relações diplomáticas com o Catar, mas, no final da última década, chegaram a cogitar a construção de um canal ao longo de toda a fronteira com o pequeno país, ameaçando transformá-lo em uma ilha isolada da Península Arábica.

A Copa do Mundo será realizada no inverno do hemisfério norte, entre novembro e dezembro deste ano, evitando assim temperaturas de mais de 40 graus, comuns entre maio e setembro, no Catar. Independentemente da temperatura, é bom levar algumas roupas longas na bagagem. Ter pernas, ombros e braços à mostra, até mesmo para homens, não é bem-visto pelos súditos do Emir Tamim Al Thani. Em um país onde consumir bebidas alcoólicas em público é crime e, nos poucos locais onde é permitida a venda, carrega um altíssimo “imposto do pecado”, veremos se os patrocinadores da Fifa terão a mesma influência que tiveram no Brasil em 2014 para liberar o consumo de bebidas alcoólicas nos estádios e, quem sabe, no entorno deles. Quem souber deixar um pouco de lado o ambiente à parte criado para o Mundial, enriquecerá com a cultura deste próspero, pequeno e interessante país.

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Vista de Riade, capital da Arábia Saudita, único país fronteiriço do Catar

Arábia Saudita

É difícil falar no Catar sem mencionar o maior e mais poderoso vizinho, e único país com quem faz fronteira. Mesmo tendo visitado vários países no Oriente Médio, a Arábia Saudita, ou “O Reino”, como a monarquia é conhecida no mundo árabe, é, para mim, muito diferente e mais difícil de ser explicada e entendida. Na primeira viagem que fiz à Arábia Saudita, os minutos iniciais no aeroporto Rei Fahd em Dammam já trouxeram à tona o esperado abismo cultural.

Eu aguardava meu turno na longa fila de imigração do aeroporto, um pouco impressionado com o fato das centenas de mulheres por ali, sem exceção, estarem usando longos vestidos pretos e o niqab, véu que só deixa os olhos de fora. Quando chegou minha vez de ir ao balcão da imigração, notei que, atrás de mim, estava uma mãe com um bebê de poucos meses no colo, certamente cansada pela espera e pelo peso que carregava, e deixei que passassem à frente. Em seguida, o agente se levantou e conduziu a mãe e a criança de volta à fila, dizendo que era a minha vez. Ao explicar que havia oferecido meu lugar, ele respondeu: “Não fazemos isto por aqui, senhor”. Para não causar maior confusão, me dirigi constrangido ao balcão da imigração.

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O agente seguiu com o protocolo, me pediu para olhar para uma câmera e, com olhar grave, me disse que havia um enorme problema. Em uma fração de segundo, passaram pela minha mente imagens de prisões terríveis e confusões diplomáticas. Ante meu olhar apreensivo, respondeu: “O senhor não está sorrindo na foto”, e deu uma sonora gargalhada, ao que respondi com um sorriso amarelo. Ele me devolveu o passaporte norte-americano e completou: “Americanos são muito bem-vindos no Reino”. Logo atrás do balcão, outro funcionário pediu que eu escolhesse um livro, gratuitamente, em um expositor repleto de literatura islâmica. Escolhi “Jesus e Maria no Corão”, que, confesso, achei interessante na forma e no conteúdo.

Por baixo do véu religioso, nas veias do escaldante deserto, corre o ouro negro do petróleo, fonte de riqueza e poder político, doméstico e internacional. Nos negócios, as relações têm uma dose interpessoal maior do que estamos acostumados, até mesmo na gigante estatal do petróleo Saudi Aramco, considerada a empresa mais valiosa do mundo, com valor estimado em 10 trilhões de dólares.

OPINIÃO: Outros países, outros costumes

Para países ricos e geopoliticamente poderosos como a Arábia Saudita, outros governos, guiados pelo interesse econômico, fecham um olho para arbitrariedades e desmandos. Mesmo estando ali, me parece impossível entender plenamente a cultura saudita, nebulosa para olhos estrangeiros despreparados e exótica nos costumes. Em conversas informais com os sauditas, tento enxergar a essência humana, sentindo neles muito interesse em entender a realidade fora do Reino. Por vezes, esquecemos que os súditos do misterioso reino também nos veem como incógnitas, e que, nesse mútuo interesse, por trás de véus reais e imaginários, há sempre mais semelhanças do que diferenças.

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