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Quando a ficção ilumina a história

Doutor em História, o professor porto-alegrense Mozart Linhares da Silva, 58 anos, radicado em Santa Cruz do Sul há 28 anos, e vinculado à Unisc, conhece muito bem o estatuto da narrativa histórica. Como pesquisador e como autor, publicou cerca de duas dezenas de obras de investigação do passado, ocupando-se de variadas temáticas. 

Mas, em paralelo, também se interessou pelas possibilidades de reflexão e de conhecimento da realidade oferecidas pela ficção. Começou com a elaboração de contos. Mais recentemente, concluiu seu primeiro romance.

O lançamento de Em Santa Egivides, uma história brasileira, de 120 páginas, sob o selo da editora Bestiário, de Porto Alegre, ocorreu na Livraria e Cafeteria Iluminura, no centro de Santa Cruz. Exemplares estão à venda no local, por R$ 52,00. Em sua primeira narrativa longa, leva o leitor para o interior de Minas Gerais, à localidade fictícia de Santa Egivides do título. Situada nas cercanias de Ouro Preto, então capital mineira, apresenta uma realidade social e econômica calcada na tradicional sociedade escravocrata. 

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Nesse contexto, um ex-cativo, Martins, retorna à vila depois de ter passado uma temporada em Recife, Pernambuco, onde cursou Direito, apadrinhado por um corregedor local. A finalidade de sua volta, além do contato com a terra natal, tem objetivos claros: um deles é libertar o seu irmão Ernesto, que segue escravizado pela mesma família à qual ele próprio antes servira; outro é obter informações sobre o possível paradeiro da mãe de ambos, vendida para o Rio Grande do Sul.

Nesse reencontro, muitas situações interditas e desconfortáveis vêm à tona, em uma época, a década de 1870, na qual o debate sobre a abolição da escravatura começa a se impor na ordem do dia no Brasil (e no mundo). Além de perseguir respostas para suas inúmeras indagações, Martins ainda se envolve em uma complexa história de amor, e se engajará em um conflito que mobiliza lideranças policiais e da comunidade e os integrantes de um quilombo situado nas proximidades.

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O tamanho do trauma

Os temas contemplados por Mozart Linhares da Silva em seu primeiro romance têm o potencial de alimentar no leitor uma reflexão sobre a complexidade do trauma representado pela escravidão na sociedade. Poucas áreas da existência humana não foram rude e gravemente afetadas pelo que a violência e a degradação em ambiente de cativeiro representaram. Com seu domínio teórico desse tema, Mozart dialoga com autores e com obras que ajudam a ilustrar essa chaga no País.

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Um trecho

“Santa Egivides localizava-se em um vale cercado por montanhas escarpadas, cuja configuração natural lhe conferia certo isolamento e proteção. A um dia de caminhada, além de uma dessas elevações, estendia-se o Quilombo de Mato Fundo, que abrigava uma comunidade composta por cerca de cem almas. A comunidade fora fundada por volta de 1830 por um grupo de escravos rebelados que iriam ser transportados à região cafeeira do Vale do Paraíba. Com o tempo, juntaram-se ao grupo outros cativos fugidos, além de brancos pobres, mestiços desgarrados do convívio social e, ainda, alguns procurados pela justiça. Dedicavam-se à agricultura e ao comércio de excedentes para Santa Egivides, abastecendo o mercado local com produtos agrícolas, como feijão, milho e mandioca, além de ervas medicinais e artesanato.

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A convivência entre o Quilombo e a Vila era de certa reciprocidade velada e cumplicidade tácita, com raros momentos de tensão, quase sempre motivados por algum acordo comercial quebrado.”

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