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RICARDO DÜREN

Quando o motor superaquece

A coluna de hoje se propõe, novamente, a ser muito instrutiva. Desta vez, contudo, não vou abordar o sentido da vida à luz da filosofia, nem os segredos da felicidade, tampouco a interpretação junguiana dos sonhos ou as lições milenares do onírico e da mitologia. Portanto, não citarei Aristóteles ou Epicuro, não farei referências a Homero e não dedicarei uma linha sequer às densas pesquisas de Bachelard, Malinowski, Campbell ou Lévi-Strauss – o que, talvez, seja um alívio para os leitores. Afinal, estamos em pleno fim de semana…

Ainda sim, abordarei um assunto extremamente complexo: mecânica automotiva, particularmente, no que toca aos cuidados necessários com o sistema de arrefecimento. Como tem sido recorrente nesta coluna, a inspiração para tal abordagem vem de um perrengue. Ocorre que, no último domingo, quase ficamos empenhados na estrada e – o que é pior – com as crianças dentro do carro.

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O sistema de arrefecimento, sabe-se, é imprescindível para evitar o superaquecimento do motor dos automóveis. Para que funcione, depende do nível correto do fluido de arrefecimento, um líquido que circula por uma teia de canais no bloco do motor e no radiador, mantendo o maquinário em temperatura ideal. Quando falta fluido, o motor ferve, a junta queima, o cabeçote empena e o bloco dos cilindros pode até fundir. Traduzindo: dá um prejuízo danado… Já tive meus carros velhos durante a juventude e logo aprendi a dar valor ao sistema de arrefecimento. Desde aqueles tempos, tenho o cacoete de checar periodicamente o nível do fluido e de dirigir sempre de olho no ponteiro do indicador de temperatura do motor, item do painel que me parece indispensável – se o seu carro não tem, sugiro mandar instalar. Foi o cuidado com os movimentos desse ponteiro que nos salvou de algo pior no último domingo.

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Após um longo jejum de passeios por força da pandemia, decidimos levar as crianças para uma visita ao Jardim Botânico e Zoológico de Cachoeira do Sul. Não se trata de um zoo imenso, como o de Sapucaia, mas é um local muito aprazível e com um bocado de bichos bem simpáticos: inúmeras aves, ouriços, quatis e graxains, diversos felinos –inclusive uma preguiçosa onça-pintada – e, claro, os irrequietos macacos-prego, sempre fazendo estripulias. O lugar passou por várias melhorias nos últimos tempos e o acesso vem sendo rigorosamente controlado, com limite de público, medição da temperatura, álcool gel e uso obrigatório de máscaras.

A alegria do passeio passou a dar lugar à angústia na volta. Começava a escurecer e rodávamos pela BR-153 – uma rodovia deserta – quando o ponteiro da temperatura do motor da minivan começou a subir rápido. Minha primeira reação, como é comum nesses casos, foi apelar para a força do pensamento: “baixa, ponteirinho, baixa”. Mas não funcionou e alertei a Patrícia sobre o problema. Fiz-o aos sussurros, para não assustar as crianças:
– Tem alguma coisa errada…

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O que eu só descobriria no dia seguinte, após levar o carro à oficina, é que havia rompido um selo do bloco do motor.
É algo relativamente comum, mas que gera um rápido vazamento do fluido de arrefecimento – aquele líquido precioso que citei acima. Na estrada, quando o ponteiro começou a se aproximar da perigosa zona vermelha, tive que encostar. Abri o capô e percebi que o reservatório do fluido estava vazio.

Quando voltei para dentro do carro, o pânico estava instalado entre os ocupantes dos bancos de trás, pois a Patrícia já não tivera como omitir das crianças que estávamos com um problema.
– Não é nada demais – tentou tranquilizar. – É só o motor, que esquentou demais.
– O carro vai explodir? – perguntou a Yasmin.
– Ficaremos na estrada e teremos que dormir na mata? – quis saber a caçula, Ágatha.
Cogitei acionar o seguro, mas a perspectiva de esperar o guincho no escuro, com tamanha tensão dentro do carro, não me pareceu nada agradável.
E então percebi que a Isadora, com uma tranquilidade incomum para a ocasião, bebericava água de uma garrafa que trazia consigo. E então, em um movimento rápido, furtei-lhe a garrafa das mãos.

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Preciso registrar que o que fiz a seguir não é nada recomendável. Em casos de superaquecimento, é preciso esperar até o motor esfriar por si, para só então abrir a tampa do reservatório do fluido. Do contrário, o líquido fervente pode
esguichar para fora e causar sérias queimaduras. Mas eu, movido pela ansiedade, tinha pressa, muita pressa. Abri a tampa com cuidado e taquei para dentro toda a água da Isadora – o que também não é o certo, pois a água gelada pode causar danos ao motor quente.

Enfim, a água da Isadora permitiu-nos seguir até o próximo posto de combustíveis, já na RSC-287. A partir daí, a viagem de volta foi uma peregrinação por postos, para ir repondo a água, que não parava de vazar. E com direito a visitas às lojas de conveniência, em busca de alguns calmantes para a turminha – refris, salgadinhos e guloseimas. O regresso demorou bem mais do que o previsto, mas, enfim, chegamos em casa, dando cabo a mais uma perigosa aventura em família.

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