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ELENOR SCHNEIDER

Ralhos e afagos

Como nesta segunda-feira, 26,  se comemora o Dia dos Avós, então esse é meu tema. Não sei se já escrevi, mas não aprecio muito esses dias disso, dias daquilo, porque normalmente se reduzem mais a trocas comerciais do que a lampejos de amor que deveriam proporcionar. Mas, penso que o Dia dos Avós ainda sobrevive a essa onda e os alvos da homenagem se contentam muito mais com os abraços do que com qualquer presente material.

Perdi todos os meus avós ainda criança, daí uma lacuna de lembranças mais intensas. Bem que eu gostaria de que estas fossem largas, recheadas de histórias e encantos, de ralhos e afagos, de doces recordações eternizadas. Como morávamos perto da casa dos avós paternos, ainda conheci o avô Carlos. Das poucas imagens que me restam, uma remete ao almoço. Em torno de uma mesa grande, com bancos, reunia-se a família e algumas vezes era convidado. A refeição começava com o pai-nosso, em alemão, depois seguia em absoluto e rigoroso silêncio. Após o almoço, o avô costumava sentar-se à sombra das árvores do pátio. Ali, afetivo, às vezes nos chamava para um carinho, nem sempre fácil de conceder.

Os descendentes germânicos são, em geral, econômicos em afetos mais ostensivos, em derramamentos largos, em explícitas manifestações de carinho, de ternura, de amorosidade. Isso não significa que não sejam acolhedores, solidários, amigos. Penso até que as gerações mais novas estão cada vez mais distantes desse comportamento meio arredio, meio reservado, meio frio, que marcava os antepassados. Lágrimas eram para os fracos. Tristezas se recolhiam ao coração.

Em tempos idos, mostrar-se rígido, severo, intransigente era uma virtude do pai, do homem. Quem contrabalançava sempre era a mãe, meiga, acolhedora, confidente. Um ralhava, a outra afagava. A dureza de coração só arrefecia quando surgiam os netos. O carinho subtraído aos filhos passou a ser generosamente estendido aos netos. Acho que era uma forma de se redimir, de pedir perdão.

É interessante observar como as línguas denominam os avós. No inglês, é grandfather, grandmother; no francês, grand-père, grand-mère; no alemão, Grossfatter, Grossmutter. A ideia aí presente é a do grande pai, da grande mãe, essas figuras que abriam os caminhos para a história das gerações. Mas, há formas de amenizar essas palavras longas que parecem sugerir distância. O alemão também usa o suave Oma, o italiano vai direto a nonno, nonna, que explicitamente chamam os netos para um aconchego mais próximo, porque os avós têm muitos abraços a distribuir. Quem resiste a um “Nando, vem cá, a nonna fez um grostoli pra tu comer”?

Tornar-se avó ou avô é uma experiência surpreendente, principalmente quando nasce o primeiro neto. Primeiro, a pessoa pensa que envelheceu, a avó sentada fazendo crochê, o avô fumando cachimbo e pensando nos tempos idos. Depois, vêm as alegrias que só a continuidade da vida sabe proporcionar. A distância se reduziu. Como muitos pais trabalham, quando possível, os avós entram firmes na história, auxiliando na criação e educação dos netos, a presença transcende esporádicas e passageiras visitas. A todos os avós, parabéns por este dia. Se tiverem que ralhar, façam isso com carinho, com um disfarçado sorriso, porque o que os netos merecem mesmo são afagos sem fim.

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