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Ricardo Düren: a história do carro do picolé

Já escrevi em uma coluna anterior que estamos às voltas com a produção de um livro com os causos da caçula, Ágatha, e dos irmãos. A esta altura do campeonato, estamos finalizando uma seleção das melhores histórias dentre as publicadas nessa coluna. Por um lado, é um trabalho aflitivo esse de selecionar textos, dói ter de escolher e deixar algumas crônicas de fora. Mas também é uma atividade gostosa, na medida em que nos proporciona um reencontro com episódios acerca dos quais já nem lembrávamos.

Nestes tempos de muita chuva e frio, foi saboroso reencontrar, por exemplo, uma crônica sobre os planos ardilosos da caçula para abordar o carro do picolé – uma prática comum, para quem mora em bairros, em épocas de clima mais propício para o consumo de tal iguaria. Essa história surgiu em meados de novembro de 2019, quando um novo carro do picolé passou a circular por nossa rua.

O problema que se impôs, na ocasião, foi a velocidade com que o carro passava. Era um modelo novinho, possante, e – creio eu – o motorista deveria ter alguma dificuldade em mantê-lo em marcha lenta. As crianças só tinham tempo de ouvir o chamado (“são seis picolés de frutas ou cinco picolés cremosos por apenas R$ 2,50”) que ecoava por um alto-falante fixado ao capô com fita crepe. Quando corriam para o portão – vrrruuummmm – o carro já tinha passado, não dava nem para anotar a placa.

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Claro, outros carros do picolé também passavam pela rua, mais dóceis, fáceis de serem abordados. Mas surgiu entre as crianças lá de casa uma vontade irresistível de experimentar o sabor dos picolés daquele carro em especial, que passava tão rápido. A dificuldade que o motorista impunha aos potenciais consumidores fazia crer que aquele, sem dúvidas, deveria ser um picolé especial, reservado apenas a quem fosse ágil ou habilidoso o suficiente para fazê-lo parar. Foi então que Ágatha passou a elaborar seus planos para forçar o picolezeiro a uma parada na frente de nossa casa:

Plano A – Atravessar uma corda de um lado a outro da rua.

– Eu fico segurando de um lado e a Yasmin do outro. Quando ele passar, levantamos a corda – explicou-nos a caçula, na ocasião.

Mas Yasmin alertou para o elevado risco de acidente, e o plano foi logo abortado, obrigando a traquinas a pensar em outro.

Plano B – Colocar obstáculos na rua, forçando o motorista a reduzir.

– Quando ele diminuir a velocidade, um de nós pula para dentro do carro pela janela, compra os picolés e salta para fora – detalhou Ágatha aos irmãos. Porém, faltaram voluntários para a perigosa acrobacia.

Plano C – Simular uma blitz.

– Vamos nos vestir como policiais, usar placas de PARE e mandar o motorista encostar.

Desta vez, porém, quem retrucou fui eu.

– Nem pensar, dona Ágatha. Passar-se pela polícia é crime!

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Então chegaram alguns dias chuvosos e o supercarro do picolé não passou mais. Depois veio o inverno e, nos verões seguintes, nada daquele carro – retornaram só os de sempre. Possivelmente, o sujeito desistiu do ramo dos picolés por conta do baixo índice de vendas, afinal, ninguém conseguia fazê-lo parar. Talvez tenha se transferido para outro empreendimento, como o de entregas rápidas. E Ágatha nunca soube o que, afinal de contas, havia de tão especial naqueles picolés.

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Como antecipei lá no início, está para sair, portanto, o livro das histórias da Ágatha. A ideia é que a obra, além de proporcionar uma leitura divertida, fique como um legado desta coluna, a qual (e aqui vem uma notícia que pode chocar alguns assíduos leitores) estou encerrando neste fim de semana, por conta de um novo projeto pessoal.

Mas calma, amigo leitor. Ficará o livro, cuja produção está bem adiantada. Já angariamos um apoiador cultural, que terá o nome impresso na contracapa da obra, e seguimos em busca de mais parceiros – empresas interessadas em divulgar a marca no livro podem me chamar no Whats (51) 9730 7639. Nesse mesmo contato, os leitores podem fazer pré-reservas, para deixarem garantido um exemplar. Afinal, modéstia à parte, nossa expectativa é de corre-corre em busca do livro depois que estiver lançado. Pelo menos, é o que diz a Ágatha.

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