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CICLONE

RICARDO DÜREN: Yakecan

O Rio Grande do Sul todo ficou em polvorosa esta semana, com as previsões da passagem do temido ciclone. E não foi para menos. Os meteorologistas falavam em ventos de 120 quilômetros por hora, a Defesa Civil mandou todo mundo ficar em casa, aulas e serviços foram suspensos.

Particularmente, comecei a ficar preocupado quando soube que o ciclone fora batizado, pela Marinha, de Yakecan – em tupi-guarani, “O som do céu”. O pessoal da Marinha, sabe-se, não é dado a frescuras e exageros. As forças navais, historicamente, são famosas pelo treinamento rigoroso, pela participação em missões de alto risco, pela coragem ante a fúria dos oceanos. Em resumo, é uma turma casca-grossa. Então, pensei comigo mesmo: “Se a Marinha está dizendo que a coisa vai ficar feia, a ponto de dar esse nome ao ciclone, é porque a coisa vai ficar feia mesmo”.

E passei a estabelecer, lá em casa, um plano de contingência. Primeiro, revisei portas e janelas, dei uma espiada na situação do telhado e inspecionei o pátio, em busca de possíveis ameaças. Dei-me ao trabalho de remover do suporte e deitar ao chão o poste da tabela de basquete, com medo de que fosse arrancado pela força dos ventos e arremessado contra uma vidraça.

Um complicador, no meu caso, é que eu não estaria em casa na hora do provável pico da tormenta, ao final da tarde de terça-feira. Coisas da rotina de jornalista. Como editor, meu lugar seria na redação, dando suporte às equipes de campo, recebendo e compilando as informações, se o temporal realmente fizesse estragos na região.

Então, convoquei a esposa e as crianças para uma reunião de crise, no mesão na cozinha, e repassei uma série de instruções sobre como proceder em meio à tormenta – em resumo, todos deveriam permanecer juntos e sem colocar o nariz para fora de casa, independentemente do que fosse acontecer. Mas a caçula, Ágatha, ficou meio contrariada com tal medida.

– E se nevar? – quis saber. – Não vá me dizer que não poderemos sair para o pátio, para fazer bonecos de neve…

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Também insisti que tentassem não ficar em pânico com o assovio do vento, com o ruído das árvores chacoalhando lá fora, com estrondos de galhos chocando-se contra o telhado, com estouros nos postes de energia elétrica da rua. Minha ideia, ao elencar tal lista de prováveis incidentes, foi – ao contrário do que possa parecer – deixar a turminha tranquila.

Ocorre que o medo de temporais tornou-se, lá em casa, nosso tendão de Aquiles. O motivo é uma experiência traumática que passamos há alguns anos, na Praia do Cassino, em Rio Grande. Havíamos chegado à beira do mar quando uma tempestade repentina apareceu para estragar o passeio. Começou com uma chuva fraca e, apesar da preocupação da minha esposa, insisti que não valia a pena levantar acampamento, que a chuvinha logo ia passar.

Mas logo percebi que o povo ao nosso redor, certamente mais tarimbado com as peculiaridades do clima ao Sul do Estado, começou a debandar. Notei que até um imenso motorhome de três eixos, antes estacionado ali perto, batera em retirada. E concluí: “Se os caras não sentem-se seguros dentro daquele motorhome, é porque a coisa vai enfear”.

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O temporal caiu sobre nós em seguida, durante a complexa operação de recolher crianças, cadeiras de praia, esteiras, coolers e baldinhos, e acomodar tudo e a todos na minivan. No meio da ventania e da confusão, parecia que as tralhas já não cabiam mais no porta-malas, cadeiras caíam para fora, a tampa se negava a fechar. Quando, enfim, sentei-me ao volante, o mar rugia ameaçador à nossa direita, como se quisesse abocanhar toda a orla, e o aguaceiro era tanto que os limpadores de para-brisa já não davam vencimento.

E havia um agravante. Ocorre que tenho um velho costume, em passeios e viagens, de ir sempre além do previsto, vendo onde estradinhas sinuosas vão dar, tentando descobrir o que existe atrás de um morro, testando a mecânica do carro e contrariando os apelos dos demais tripulantes. Segundo minha esposa, trata-se de uma mania típica de alemão cabeça-dura, legítima coisa de mulakopf. Pois naquela tarde, no Cassino, eu havia rodado uns cinco ou seis quilômetros pela beira da praia, bem mais do que o necessário para encontrar um local aprazível. E agora, no meio da tempestade, teria que refazer todo esse caminho de volta, rodando sobre as armadilhas da areia encharcada e sem ver um palmo na frente do nariz, até retornar à segurança da civilização.

Isso não era tudo. O trecho era entrecortado por alguns córregos, que atravessavam a areia em direção ao mar e, inflados pela chuva, haviam se convertido em torrentes d’água. Não havia escolha: teria que passar com o carro sobre eles também. Em circunstâncias normais, isso até não seria um grande problema. Anos e anos de cobertura jornalística em enchentes, e de reportagens nos recantos mais escondidos do nosso interior, ensinaram-me a dirigir sobre córregos e trechos alagados. Mas era a primeira vez que o fazia à cegas, sem ver absolutamente nada além do movimento frenético dos limpadores.

Cada mergulho da minivan nesses córregos levantava a nosso redor ondas de água e areia molhada, e o tamborilar implacável da chuva sobre o teto do carro só era abafado pela gritaria das crianças. Até que, enfim, conseguimos deixar a praia e ingressar na Avenida Atlântica, uma via asfaltada de acesso ao Cassino. Estacionei sob o toldo de um posto de combustíveis, desembarcamos e paramos para respirar, aliviados.

E então, no minuto seguinte, a chuva parou, o temporal se dissipou e até um lindo sol apareceu.
Que raiva!

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Por fim, o Yakecan passou por nós, esta semana, sem todos aqueles estragos que eram previstos, felizmente. Até me perguntaram se não houve alarido demais em torno do ciclone, mas penso que, nesses casos, convém se precaver. Posso até ser um mulakopf, mas quando a Marinha avisa – ou quando até a turma dos motorhomes bate em retirada – costumo dar-lhes atenção.

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