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RICARDO DÜREN

Será que ele vem neste Natal?

Um mistério angustiante costuma intrigar nossa caçula, Ágatha, toda vez que o Natal se aproxima:

– Afinal, como o Papai Noel consegue passar pelo buraco da chaminé?

A traquinas dedica-se então a cálculos e análises em torno da chaminé, faz observações pelo lado de fora da casa e também pelo de dentro, e sempre chega à mesma conclusão:

– É pequena demais para ele passar…

Dias atrás expliquei à marota que o Papai Noel tem poderes mágicos que lhe concedem elasticidade. Dessa forma, consegue ficar fininho e comprido, o que lhe possibilita se esgueirar pelas aberturas da chaminé e deslizar pelo cano, como se fosse um minhocão. Contudo, Ágatha logo percebeu que eu caíra em contradição:

– Mas pai… ano passado tu disse que ele tinha o poder de ficar pequeninho, como o Pequeno Polegar. O que não explica como não se machuca ao despencar lá de cima. Afinal, quantos poderes mágicos ele tem?

Expliquei então que o Papai Noel tem incontáveis poderes, podendo escolher a opção que mais lhe convém conforme uma série de fatores: condições meteorológicas, arquitetura da casa, envergadura do cano e, principalmente, se a lareira ou churrasqueira está ou não em uso na hora. Até que, por fim, a traquinas concluiu que esse nosso debate era irrelevante.

– Afinal, aqui em casa ele sempre vai pelo mais prático: chega de carro e entra pela porta da frente mesmo…

Este ano, contudo, uma dúvida a mais tem intrigado a caçula:

– Será que, com o perigo do coronavírus, o Papai Noel vem?

Aí fiquei sem resposta.

Não contava com uma segunda onda da Covid-19 a colocar sob risco as comemorações natalinas, os grandes encontros em família, a chegada do Papai Noel e – muito pior – a saúde e a vida de bastante gente.

O que me leva a mais dúvidas: como foi que nós, gaúchos, deixamos isso acontecer? Como fomos descuidados a ponto de retornar, em tão pouco tempo, a patamares piores que os do auge anterior da pandemia?

Muito tem se falado da relação das eleições com o recrudescimento da pandemia. De fato, o período eleitoral, embora sem comícios, ainda teve muito corpo a corpo nas ruas, muita visitação com máscaras penduradas no queixo. O próprio pleito gerou aglomerações nas sessões eleitorais, sem falar nas festas dos vitoriosos. Mas a culpa não é apenas das eleições.

Nem chegou a esquentar, e as praias logo ficaram lotadas. A pressa em reocupar a orla foi tamanha, que mais parecia o fim de um período de dez anos de severo confinamento.

E os points da galera em locais públicos também voltaram a bombar. Semanas atrás fui cobrir o atropelamento de duas jovens, atingidas por motoqueiros que supostamente faziam um racha, na frente da praça central de Vera Cruz. A aglomeração no local era tamanha, que mal havia espaço para os socorristas atenderem as vítimas. E tudo isso sob uma confusa trilha sonora, que misturava música alta, risadas e muito bate-papo. Era muita, mas muita gente mesmo.

Compreendo a ansiedade da moçada em reocupar seus espaços. A juventude passa muito rápido e 2020 tem se mostrando um ano perdido também para quem gosta de colecionar histórias de festas, conquistas e folias. Mas a pressa está custando caro: vai prolongar a pandemia e os rigores, ao que tudo indica, terão de prosseguir 2021 a dentro, ameaçando também o Carnaval.

Parece que agimos como na fábula da lebre e da tartaruga: em dado momento, certos da vitória, relaxamos, paramos para comemorar e para nos gabarmos, sem perceber que o coronavírus – bem mais ardiloso e rápido que uma tartaruga – tomava novamente a dianteira.

O baiano Assis Valente (1911-1958), compositor de lindos sambas e de marchinhas que fizeram sucesso na voz de Carmem Miranda, é também o autor de uma antiga e famosa canção natalina que, de tão triste, até destoa do clima comumente atribuído ao Natal:

Já faz tempo que pedi,
Mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem…

Essa estrofe sempre me causava uma deprê na infância. E, agora, me faz pensar também na pandemia. Ao que tudo indica, Papai Noel também não conseguirá trazer, em seu sacolão, a tão esperada vacina. É brinquedo que não tem – pelo menos, não para este Natal.

Portanto, vamos nos cuidar.

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