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Sichuan, China: celebração de cultura e diversidade

Foto: Arquivo Pessoal

A Ópera de Sichuan é um dos maiores atrativos culturais de Chengdu

Era quase meia-noite em Chengdu. Eu trabalhava em meu quarto no vigésimo segundo andar do hotel quando senti o chão desaparecer. Levei alguns milissegundos para perceber que o prédio estava sendo sacudido. Na manhã seguinte, o funcionário na recepção me informou que era “apenas” mais uma das dezenas de réplicas sismológicas do terremoto que, dois meses antes, havia causado a morte de quase 90 mil pessoas, além de deixar 358 mil feridos e mais de 10 milhões de desabrigados. O desastre natural de 12 de maio de 2008, que teve seu epicentro a 80 quilômetros da capital da província, ficou conhecido como o Grande Terremoto de Sichuan, com magnitude 8 na escala Richter. Antes disso, minha última visita à cidade tinha acontecido em março do mesmo ano, o que me deu a impressão de ter driblado o infortúnio.

Outra espécie de abalo, bem menos mortífero, aguarda aqueles que quiserem se aventurar pela gastronomia de Sichuan, famosa no mundo todo e considerada a mais condimentada da China. A refeição mais popular e tradicional se chama “panela quente”, também conhecida como fondue chinês, e consiste em um recipiente metálico contendo uma sopa fervente extremamente apimentada no centro da mesa e pratos com ingredientes crus ao redor. Cada conviva mergulha as carnes e vegetais que desejar no líquido em ebulição. No primeiro jantar, os ingredientes servidos eram relativamente normais e, com a ajuda de litros d’água e do baijiu, uma aguardente de sorgo com 53% de teor alcoólico, consegui digerir o picante e saboroso jantar. Na noite seguinte, em outro restaurante, a história foi diferente. A carne menos exótica ali era estômago de pato. Apesar de estar com fome, aleguei falta de apetite e, ao ser deixado no hotel, aguardei que meus anfitriões fossem embora para ir a uma lanchonete de fast food na redondeza.

Hot Pot-Panela quente: a gastronomia local é a mais apimentada da China

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As tradições e a arte da região merecem destaque. Um aspecto cultural importante e que vale a pena assistir mais de uma vez é a Ópera de Sichuan, que inclui bela música, dançarinos talentosos e virtuosos atores que trocam suas máscaras coloridas com uma rapidez quase mágica. No aspecto religioso e filosófico, além do budismo, estão presentes milenares templos taoistas e muitos adeptos do confucionismo. A doutrina de Confúcio (Kung-Fu-Tzu), surgida cinco séculos antes de Cristo, influencia até hoje as relações e a cultura chinesa, definindo disciplina e moralidade como princípios básicos do indivíduo e do governo.

As montanhas a noroeste da província faziam parte do Império do Tibete, que tinha Lhasa como capital, até a China incorporar a vasta região em 1951, fazendo com que tibetanos se tornassem uma parcela razoável do povo de Sichuan. Como os russos, os chineses, e em especial a etnia Han, dos quais descendem 90% da população, expandiram seu território pela agressividade e ataques, até atingirem barreiras naturais. Quando não encontravam obstáculos geográficos, como a cordilheira do Himalaia, chineses construíam seus próprios limites. O mais famoso é a Grande Muralha, com mais de 20 mil quilômetros de extensão, que protegia a China dos temíveis mongóis. De certa forma, a expansão segue hoje no oceano, com imponentes bases militares de Pequim emergindo sobre aterros no Pacífico.

Qingyang: templo taoista do século 7 em Chengdu, Sichuan

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Como última curiosidade, em Sichuan encontrei os mosuos, uma das mais antigas sociedades matriarcais remanescentes no planeta. Cerca de 40 mil deles vivem às margens do Lago Lugu, na fronteira entre as províncias de Yunnan e Sichuan. Além da liderança das mulheres, e quem sabe por causa dela, o povoado da região destaca-se pela ausência de criminalidade. Ali não existem os papéis de pai ou marido, e nome de família e propriedade particular são passados de mãe para filha, com os homens realizando igualmente as atividades domésticas e agrícolas sob o comando feminino.

Para quem acha uma cultura matriarcal exótica, lembro que no Brasil o percentual de mulheres chefes de família cresceu mais de 200% nas últimas três décadas. Segundo o censo de 2015, são 29 milhões de núcleos familiares com a mãe no comando, e apenas um terço deles inclui um cônjuge. Infelizmente, um dos principais motivos do aumento é o desamparo provocado pelos ex-companheiros. A determinação dessas mulheres, raramente reconhecida, representa sem dúvida um dos principais sustentáculos no que ainda resta do tecido social brasileiro.

Os mosuos são uma das mais antigas sociedades matriarcais do planeta

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