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RICARDO DÜREN

Um giro pelo comércio

Ah, as férias… Para as crianças lá de casa, é um período maravilhoso, de dormir até mais tarde, de perambular pelo pátio, de inventar novas brincadeiras ou passar horas embalando-se na rede sem preocupações com a lição de casa ou
a iminência das provas escolares.

Até que, em dado momento, bate o tédio. E, com ele, começam as queixas.
– Não temos nada de interessante para fazer…
– Vamos ficar só em casa?
– Estamos entediadas…

Então cabe aos pais, rendidos, inventar alguma programação. Nesta semana, decidimos levar as gurias para um passeio no Centro, a ser coroado com sorvete expresso, dos grandes. Mas, claro, nunca fica só nisso. Uma caminhada no Centro, sem um giro pelo comércio, não é passeio que se preze.

Uma das primeiras paradas foi em certa loja de acessórios da Marechal Floriano, que as gurias adoram visitar por conta da infinidade de colares, pulseiras, brincos e anéis que oferece. Como é praxe, deixei-as com minha esposa, Patrícia, no corredor das bijuterias, e fui conferir as novidades no setor de eletrônicos. Por conta disso, perdi uma cena que, nas palavras da caçula, Ágatha, e da irmã um ano mais velha, Yasmin, foi interessantíssima.

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Conforme as duas relatariam mais tarde, no dito corredor das bijuterias havia uma mãe incumbida de difícil missão: escolher um colar de presente para uma amiguinha da filha. A filha, no caso, não estava na loja, mas ela e a mãe mantinham acirrado debate, por meio de áudios no WhatsApp, acerca do colar a ser escolhido. Na falta de um consenso, a palestra foi se estendendo; e Ágatha e Yasmin deixaram de lado o que elas próprias procuravam para aguçar os ouvidos e acompanhar o drama daquela mãe.

– Ela fez fotos e mandou para a filha – relatou-me a caçula, depois. – E gravou que havia três colares legais, um de
anjo, outro de coração e um com a palavra Amor.
– A filha então escolheu o de coração – acrescentou Yasmin. – Mas acho que a mãe dela não concordou, pois logo disse assim: “Mas filha, tem o de Amor…”
– A menina então quis saber que outros colares havia. A mãe dela descreveu todos e, no fim, disse: “Filha, tem um muito bonito… escrito Amor…”

Segundo narraram-me as traquinas, a mãe, diligente, continuou garimpando colares, sempre os descrevendo à filha via
Whats: “Tem um de carinha, outro com uma pedra brilhante, um com uma estrela e outro, todo prateado… com a palavra Amor. Ah, tem mais um aqui, dourado… com a palavra Amor… E também um todo branco, onde diz Amor”. A seguir, encontrou e descreveu à filha mais um bonito modelo: “Ele tem uma correntinha prateada e pedrinhas incrustadas nas letras… da palavra Amor”.

Contudo, a menina não se dava por vencida: “Mãe, pega logo o de coração!”. – A coisa começou a ficar tensa – contou-me Yasmin, enquanto segurava junto aos lábios um celular invisível, encenando as reações daquela esforçada mãe. – Ela continuou falando dos vários colares e sempre terminava dizendo assim: “Ah, tem um de Amor”.
– Mas a filha continuou pedindo pelos outros modelos – seguiu Ágatha. – E a mãe dela foi descrevendo todos: um com bichinhos, outro com uma figa, um com um medalhão… e o com Amor.
– E a filha disse então que queria mesmo o de coração. E a mãe dela disse: “Ok, filha. Mas e o de Amor?”

As traquinas não souberam o desfecho do episódio. Em dado momento, Patrícia percebeu o interesse de nossas filhas pela conversa alheia e tratou de tirar as abelhudas dali. Quando a mim, escutando o relato acerca do empenho daquela mãe, fiquei mais uma vez impressionado com os esforços que nós, pais e mães, fazemos para atender às mais inusitadas demandas de nossos filhos. Há uma palavra que explica esse esforço: Amor!

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A parada a seguir foi em uma loja de departamentos. Logo na entrada, as gurias toparam com um expositor de perfumes. E Yasmin gritou:
– Tem amostras grátis!

Antes que pudéssemos esboçar qualquer reação, as marotas avançaram sobre os frascos e deram início a uma sucessão de esguichos, fazendo espalhar-se pela loja toda um estranho aroma formado pela mescla dos mais variados perfumes – cítricos, amadeirados, florais…

Para piorar, as traquinas esqueceram-se da regra de etiqueta que prevê o uso de tiras de papel para experimentar os perfumes – e os aplicaram em si mesmas, primeiro na parte interna dos pulsos, depois nas mãos e, por fim, no pescoço. O resultado foi uma combinação indecifrável de cheiros, que tornou impossível decidir por um tipo.

Concluímos que seria mais sensato nos anteciparmos a qualquer reação do gerente. Pegamos as marotas e batemos em retirada. E avançamos ao longo da Floriano seguidos por um cheiro que, se necessário, permitiria localizar nossas filhas à distância. Para evitar mais constrangimentos, optamos por, enfim, dar por encerrado o passeio do dia. Mas vai um aviso aos lojistas: antes do fim das férias, ainda vamos voltar!

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