Com a aprovação do projeto de lei que autoriza a concessão de isenção progressiva do “IPTU Cinturão Verde” a comunidade valoriza e reconhece o esforço dos proprietários preservacionistas, pois assim o fazem em relevante benefício coletivo. Cumprimentos ao Executivo Municipal, à Câmara de Vereadores, ao Conselho de Gestão Sociocioambiental, ao Ministério Público e também ao Conselho do Meio Ambiente e a todos, e são muitos, que vêm se empenhando pela preservação do Cinturão Verde, que por certo aplaude a oxigenante iniciativa.
Repleta casa vazia
Ela, a casa está inquieta. Serena, porém inquieta. Seu assoalho range, mesmo sem os passos do passado. As portas e venezianas parecem entreabertas ainda que fechadas. Uma folha de zinco, junto à calha, acompanha o ruído do assoalho e dialoga com as aberturas. Diálogo partilhado pelo coqueiro junto ao quarto da frente. Também a mangueira, as pitangueiras, bergamoteiras, o que restou da horta e as parreiras conversam com a casa. Cochicham histórias que já não se repetem, mas são lembradas em versões que se movem de acordo com o dia e o tempo.
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A casa e seus convivas gostam das chuvas, não daquelas que não acabam mais ou sacudidas por ventos excessivos. Em situações de excesso, ela teme por seu telhado e pelas vulnerabilidades que desafiam sua resiliência. Excessos velozes também feitos das alegrias do casal, filhos, netos, bisnetos, parentes e de todos que ampliam a família. Quanta correria para não varrer o chão e lavar a louça ou, ainda pior, para tentar escapar do curativo à base do, à época, ardido “merthiolate”? Alegrias e tristezas. Também a casa chorou quando ela, a dona da casa, flagrou os filhos maiores se digladiando com a farinha destinada às fornadas de pães.
Ela, missioneira, nossa mãe, orante, que nunca se aposentou e que amava os lírios, cravos, as dálias, roseiras, e ervilhas. Ele, professor, nosso pai, que zelava pelo apiário junto à casa e que era o primeiro a verificar algum “barulho” estranho, desses que amedrontam as madrugadas.
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A casa também se aconselha com o porão, assentado sobre blocos de arenito, lugar dos maiores mistérios e temores, onde tudo cabe, como os pregos e parafusos recolhidos em latas enferrujadas. Latas desordenadas em conluio com a enxada que costumava ser trocada de lugar, até porque não era muito apreciada pelos filhos, pois não faltavam as travessuras que terminavam com a ordem de limpar e capinar o pátio.
A casa entardece melancólica, distanciada das certezas transitadas e incerta quanto ao seu futuro. Amanhã ainda estará ali? Na verdade, a casa apenas aparenta vacuidade e desconcerto. Está repleta de movimentos e esperanças. Mesmo quando já não existir, continuará ali. Porém, antes e depois de tudo, sua trajetória se faz continuada, em remodelação a cada visita ou lembrança de um familiar. Se reconhece muito mais como ponto de partida do que estação de chegada, mas sempre berço amoroso testemunhado pelas fraldas memoriais postas a secar no varal acima do fogão da cozinha.
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A casa seguirá morando no morro ensolarado, aquele das quedas dos ciclistas desastrados que não conseguiam tomar a curva que acessa a avenida Independência. Também não esquece dos vizinhos, das amizades e dos chegados da missioneira Cerro Largo. Conterrâneos ali encontravam acolhida. Onde viviam dez irmãos, como não abrigar quem mais viesse?
As casas segredam. Conhecem os códigos dos ventos, feito livros universais, que trazem e enviam mensagens nunca esgotadas.
Talvez, estimada leitora e leitor, estejas pensando na morada originária, na casa planetária, ou na residência personagem do filme “Valor Sentimental”, habite onde ela estiver. Casas não são propriamente construções, são memoriais que carregamos conosco, ora com a leveza das satisfações, ora com a crueza das dores, estas nem sempre claras, quase sempre difusas, distraídas pelas narrativas que ensaiam verdades intuitivas, espontaneamente pretendidas. Narrativas que insistem em trazer à tona as possibilidades do que poderia ter sido. Cabe perguntar: transportamos a casa conosco ou é ela que, inquieta, nos habita a cada dia menos serena?
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