Poucas características definem tanto o Brasil quanto sua extraordinária fragmentação municipal. Ao longo das últimas décadas, o país multiplicou cidades, prefeituras, câmaras de vereadores e estruturas administrativas em ritmo muito superior ao crescimento de sua população. O resultado é conhecido: centenas de municípios dependem quase integralmente de transferências federais para sobreviver.
À primeira vista, a situação parece contraditória. Como justificar a existência de cidades incapazes de gerar arrecadação suficiente para custear a própria máquina pública? Sob uma lógica estritamente econômica, a conclusão parece inevitável: muitos desses municípios seriam inviáveis. Não por acaso, a discussão costuma ser conduzida em torno de números, déficits e indicadores fiscais.
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O problema é que países não são empresas. A racionalidade que orienta a organização territorial de uma nação raramente coincide com critérios de eficiência financeira. A história brasileira demonstra isso com clareza. Em inúmeras regiões, a emancipação municipal representou mais do que uma alteração administrativa. Significou aproximar o poder público de comunidades historicamente afastadas dos centros decisórios, levando serviços, representação política e alguma capacidade local de influência.
Isso não significa ignorar as distorções. Em muitos casos, a estrutura burocrática tornou-se desproporcional à população atendida. Prefeituras, secretarias e câmaras municipais passaram a consumir parcela significativa dos recursos disponíveis, enquanto a atividade econômica local permaneceu limitada. O município existe formalmente como ente autônomo, mas sua autonomia financeira é, na prática, reduzida.
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Ainda assim, a questão mais interessante talvez não seja econômica, mas sociológica. O que o Estado brasileiro financia quando transfere recursos para essas localidades? Não financia apenas salários, prédios públicos ou despesas administrativas. Financia a permanência de populações em territórios que, de outra forma, poderiam experimentar intenso esvaziamento demográfico.
A controvérsia surge porque esse arranjo produz efeitos contraditórios. De um lado, contribui para a manutenção de comunidades, identidades locais e redes de pertencimento. De outro, pode estimular dependência permanente e reduzir incentivos para a diversificação econômica.
Talvez por isso o debate sobre os pequenos municípios brasileiros costume gerar mais calor do que compreensão. A pergunta relevante, portanto, não é apenas quanto custa manter essas cidades. É quanto custaria, social e politicamente, abandoná-las.
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