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SUPERAÇÃO

Uma nova vida para ressignificar

O olhar atento para as cenas do cotidiano, que já estamparam páginas do jornal Gazeta da Serra, seja em fotografias ou crônicas, nem sempre fizeram parte da essência do protagonista destas linhas. O sobradinhense Romar Rigon, atualmente com 62 anos, foi, durante boa parte deste período, contador. Números e planilhas lhe acompanharam por pelo menos três décadas. Mas, a exatidão dos cálculos acabou sendo substituída por uma vida regrada, em outro sentido.

Sentado no sofá, ao lado da lareira, Romar contou à reportagem da Gazeta da Serra uma breve retrospectiva sobre os últimos tempos e que foram, sobretudo, marcados por desafios e superação. Mas é preciso voltar um pouco na história. Desde os 30 anos de idade, Romar recorda ter passado a frequentar grupos de terapia e aderiu a um estilo de vida mais saudável, cuidando mais, por exemplo, da alimentação. “Foi quando descobri a meditação. Comecei a frequentar grupos de terapia, viajava a Porto Alegre para participar destes grupos seguidamente. Fazendo meditação acaba se entrando nestes grupos de pessoas mais alternativas, que curtem outras coisas”, explicou.

A primeira batalha

Levando uma vida mais saudável, aos 49 anos, em março de 2008, ao realizar um hemograma de rotina, notou que os leucócitos, as defesas do organismo, estavam muito baixas. “Repetimos o exame três vezes e estava cada vez mais baixo. Até que fui encaminhado para uma hematologista em Santa Cruz, que começou a investigar mais, pois eu não apresentava sintomas”, detalhou. Em setembro, o diagnóstico foi de leucemia mielóide aguda. “No momento do diagnóstico a médica foi falando tudo o que aconteceria e fui entrando para dentro do chão. Porque é uma loucura”, disse Romar ao se referir ao pensamento de morte que associou ao diagnóstico. “Quando saí do consultório, pensei: meu Deus, não vou conhecer meus netos. Nossa, tinha que conhecer eles. Parece que tinha que esperar. Em seguida, liguei para meus filhos Liana e Vinicius e começamos os encaminhamentos para internar”, contou.

Entre a bateria de exames e o início do tratamento levou alguns meses. “Quando entrei na ala de internação para leucemia era outro mundo, completamente isolado. Se toma um banho para desinfecção. A ficha não caiu, nem durante a internação. Aquilo ali para mim era apenas uma fase que iria passar e continuaria a vida normal. Eu não pensei que iria morrer depois que conversei com a Juli (esposa) e meus filhos. Que pesquisei mais sobre”, detalhou Romar, já expressando o papel essencial da família nesta trajetória.

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De novembro de 2008 a julho de 2009 foram realizados oito ciclos de quimioterapia. Conforme lembra a esposa, Juli Moraes, todas as datas especiais foram passadas no hospital. “As defesas baixavam a zero. Quando se reestabeleciam voltava para casa por uns quinze dias para dar uma ‘respirada’ e depois ia novamente. Ficava muito fraco”, acrescentou Romar.

Em 2009 um agravante, a pandemia de gripe A – Influenza A (H1N1). “Durante este período fomos fazendo testes com os irmãos para ver se encontraria algum compatível para o transplante de medula. De 10 exames, os nove primeiros não foram compatíveis. No último deu 100% compatível, inclusive o grupo sanguíneo. Mas como teve a gripe A, não quiseram realizar o procedimento neste período, porque como a imunidade iria ficar zero, aí o medo de pegar alguma gripe”, destacou Romar. A medula do irmão foi coletada em agosto e guardada para o procedimento, realizado em 8 de setembro de 2009.

Na época do transplante, entre 2008 e 2009, o violão internava com Romar. “Fazíamos festa no corredor da ala do hospital nas datas festivas”, recorda-se.

Durante o tratamento, Romar conta que todo o dia “caía uma ficha”, no sentido de questões mais ligadas ao emocional. “O que mais me tocou foi a questão do perdão. Eu me perdoar. Me parece que esta questão do perdão foi fundamental, porque sentia muita culpa. Foi algo muito marcante. E é uma coisa que aconteceu. Não algo que eu quis, do tipo ‘preciso pedir perdão’. Não. Isso veio, esse sentimento, porque precisava fazer aquilo”, destacou.

Segundo Romar, o primeiro refúgio é a família, assim como os amigos mais próximos, também ter algo no que acreditar, a questão da espiritualidade, e é nisto que se apega nesses momentos. “Tive uma renovação celular, de sair a pele, as unhas, cabelo, cílios, tudo. Então precisava estar bem do restante. Por isso acredito que dos meus 30 aos 49 anos vim me preparando para enfrentar isso, parece. Eu mesmo acho que na vida como eu vinha vivendo, ao mesmo tempo que estava me preparando para isto, estava criando uma doença, porque eu tinha muito medo, de nada, de nenhuma coisa em específico e muita culpa. E estes adoecem. Então assim como vinha adoecendo, vinha fazendo coisas para superar isso, alimentação, meditação, grupos”, pontuou.

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Conforme conta, foram dois anos tomando medicação controlada para evitar a rejeição da medula ao corpo. “Quando completou cinco anos, me deram como curado da leucemia”, contou Romar sobre o momento. Era sabido, porém, da predisposição a neoplasias, que poderiam ou não se desenvolver. Segundo Juli, Romar sempre foi muito regrado. “Nunca vi ele revoltado com o que tinha vindo para ele. Ele dizia, ‘está aí, então vamos lá’”, contou.

Para ele, a aceitação da condição é algo fundamental. “Pra mim, melhor foi a aceitação. ‘Estou com leucemia: preciso fazer isso, isso e isso para me salvar, então vamos fazer’. Sempre pensei em projetos futuros, para depois do perrengue, e realmente fiz muitas coisas. Com certeza uma vida nova. Tu olha para trás e pensa: ‘aquilo não era eu, vivendo aquela vida’. Se muda a maneira de pensar e tudo”, compartilhou.

O despertar para a escrita e fotografia

Em 2014, a perda do neto recém-nascido, Vitor, representou, além de um momento doloroso, reflexão. “Um dia, pensando no que o meu filho e minha nora estariam passando, enquanto estava na rede, me veio um texto e resolvi escrever uma carta sobre a vida e a morte. Mostrei ao Laerson e ele me convidou para escrever para o jornal. Então, passei a escrever semanalmente para a Gazeta da Serra, sobre diversos temas”, recordou. Segundo Juli, anterior à isso, Romar escrevia apenas para ela e dizia não querer escrever para os demais, era bastante crítico consigo mesmo. “Eu escrevia e lia de novo e ia tirando frases, sobrava pouco texto. Sintetizava demais as coisas. A partir deste momento comecei a escrever bastante”, destacou.

Romar Rigon em viagem ao Vaticano anos atrás

Junto à escrita somou-se outra grande paixão, despertada também neste período. “Tinha uma câmera em casa, mas não sabia usar. Um dia pensei que tinha que aprender e comecei a ver na internet, mas não deslanchava. Sempre tive uma paixão pela lua, mas queria que ela ficasse como eu a via e não uma bolinha branca na imagem. Neste meio tempo fiz um curso de fotografia, quando também aprendi edição. Estava em uma crise de depressão. Nada eu queria fazer e comecei a me cobrar muito. Até que chegou um dia, pensei, ‘vou deixar as coisas acontecerem’. Aí começou a acontecer. Veio a fotografia, a escrita, o artesanato. Coisas que jamais faria antes”, e assim ele segue registrando o universo, com um olhar especial.

“A fotografia é uma coisa milagrosa parece. Enquanto estava internado, a Juli me disse que tinha uma lua linda. Ela pegou a cadeira de rodas e me levou até lá fora. Eu mal tinha forças para segurar a câmera. A fotografia é a minha paixão. O que me move hoje. A escrita tem me ajudado bastante também”, enfatizou Romar, que está com um livro sendo reestruturado para impressão e material suficiente para outro. “Se chama De volta para casa. De volta para o lar e também para dentro de si, porque o autoconhecimento foi algo muito forte, olhar para si e ver a questão da morte com mais naturalidade, trabalhar isso. Se começa a não se preocupar com a questão material e sim mais emocional. Como estou comigo e o que estou fazendo para me conhecer melhor. O autoconhecimento é o que vou levar para o resto da vida. Isso nunca chega ao fim”, destacou.

As batalhas que se sucederam

Em 2012 e 2016, Romar teve câncer de pele no nariz, tumores que foram cauterizados. Já em março de 2020, surgiu um câncer na boca, como uma ferida. Neste período foi realizada cirurgia no lábio, quando necessitou ficar 25 dias com a boca fechada. “Sem poder falar e me alimentando por seringa. Me comunicava através da escrita com caneta e papel”, contou. Era início da pandemia de Covid-19. “A questão da máscara o Romar está acostumado. A higienização das coisas também. Desde o transplante foram dois anos usando máscara, tudo o que entrava em casa era limpo com álcool. Nunca teve nenhuma intercorrência por descuido”, contou Juli. “Sempre fui muito disciplinado. Acho que era por medo de morrer”, acrescentou Romar.

No fim de 2020, Romar sentiu um caroço na parte interna da bochecha. A biópsia apontou câncer novamente e dois nódulos com metástase no pescoço. “Praticamente um ano depois da outra cirurgia, em março, foi marcada esta. Como na anterior precisei ficar três dias no hospital apenas, nesta preparamos a mala para uns cinco ou seis dias. Ficamos seis meses. Foi necessário cortar uma margem maior além do câncer e trazer um músculo do peito até o rosto, por dentro da pele, para ficar irrigando. Foram três dias na UTI, por ter sido um procedimento invasivo. Quando acordei foi algo bem chocante, era muita gente”, declarou Romar, que iniciou, na sequência, as sessões de radioterapia, com auxílio de uma máscara especial, e quimioterapias. Naquele período, alimentou-se por sonda, através da chamada nutrição parenteral.

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O momento difícil se seguiu com os dias passados no hospital e no apartamento onde ficaram em Porto Alegre, e os cuidados redobrados em meio à pandemia. “É importante neste período sempre pensar que tudo passa. A questão da superação é algo que vai se adquirindo também. Passei com a leucemia. Tive outros problemas. Pneumonias e crises fortes de depressão. Agora quero mais é viver”, ressaltou.

Romar e Juli também destacaram a generosidade das pessoas neste percurso entre batalhas e vitórias. “Pessoas muito generosas apareceram. Acreditamos muito nesta rede que se forma, de preces, orações, energias. Funciona bastante de alguma forma, ajuda a fortalecer”, declarou Juli. “O importante mesmo é nunca deixar a pessoa sozinha. Sempre tive alguém junto comigo”, frisou Romar.

No último período, foram seis meses de tratamento, duas cirurgias, radioterapias e quimioterapias. O retorno para casa, em Sobradinho, ocorreu em 29 de setembro. Agora Romar segue em acompanhamento. Como a audição foi afetada, um aparelho foi encomendado e uma consulta com um oftalmologista foi marcada, para verificar o olho esquerdo. Outra consulta está agendada para analisar os três primeiros meses e quem sabe uma próxima cirurgia, para melhorar a ingestão de alimentos, especialmente de líquidos.

Romar recebeu a equipe da Gazeta da Serra em sua casa em Sobradinho, após retornar do tratamento em Porto Alegre

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