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FORA DE PAUTA

Uma tapeçaria de civilizações

Não é de hoje que os testes de DNA de ancestralidade são assunto na internet. Criadores de conteúdo no YouTube, no Instagram e em outras plataformas compartilham os resultados dos próprios exames. Como sou muito interessada na minha história familiar e até o momento não consegui realizar uma pesquisa mais extensa de genealogia – estou guardando esta opção para quando, e se, me aposentar – tomei a decisão de fazer um testes destes. O processo é relativamente simples: você compra on-line e recebe um kit em casa para fazer a coleta do material genético: swabs que devem ser raspados no interior das bochechas. O material é encaminhado de volta para o laboratório e cerca de 30 dias depois você recebe um relatório extenso, que mostra de quais regiões do globo seus antepassados vieram. Atualmente, há várias empresas que realizam este serviço, com opções mais simples ou mais completas que englobam também informações genéticas de saúde.

Optei pela versão mais simples, e fiquei muito surpresa com os resultados. Apesar da maior parte do DNA ser da Europa, há também traços do Oriente Médio, Américas, África e Ásia. As maiores porcentagens são da Itália e da região Ibérica, mas figuram também França, Alemanha, Reino Unido, País Basco, Sardenha, países do leste europeu, da Península Escandinava e dos Balcãs. Também descobri qual meu haplogrupo de linhagem materna de acordo com o DNA mitocondrial e recebi a opção de contatar através do site centenas de parentes recém-desobertos, primos de terceiro a oitavo grau. Abri os resultados do site junto a meus pais, que também estavam curiosos, e em seguida liguei para meus irmãos para contar a novidade. Quando irmãos realizam os testes, os resultados podem ser ligeiramente diferentes, mas em geral, o que vale para um, vale para o outro, já que a origem é a mesma.

Olhar para o passado é uma reflexão que não acho que fazemos o suficiente. Conhecer a própria genealogia ou ancestralidade pode nos explicar muito sobre o mundo em que vivemos em 2021. Se pertenço a tantas etnias diferentes, de países tão diversos e distantes, como eu seria capaz de ainda manter preconceitos e estereótipos em relação a outros povos? Sou da opinião que um teste desse tipo seria eficaz para eliminar todo tipo de noção absurda de superioridade ou pureza racial, que algumas pessoas ainda insistem em manter. Afinal, se eu mesma tenho raízes da região do Magrebe no Oriente Médio, nos povos indígenas amazônicos e andinos, e na Costa da Mina na África, como eu poderia hoje voltar as costas para o que ocorre com essas populações?

Da mesma maneira, se sabemos que o mundo todo foi feito de migrações ao longo de milhares de anos e que cada um de nós é, em si, uma tapeçaria de civilizações, como ignorar as súplicas de refugiados e imigrantes? A quem duvida ou não conhece a jornada que os humanos percorreram, sugiro a leitura de Sapiens: uma breve história da humanidade, de Yuval Noah Harari, um livro abrangente, fascinante e de fácil leitura a respeito da história da nossa espécie.

As fronteiras e o nacionalismo tomaram contornos sombrios nos últimos anos e é triste ter que apelar à humanidade das pessoas para que reconheçam o sofrimento alheio. Nestes tempos de polarização e ódio fácil, devemos nos apegar a todo recurso que nos aproxime uns dos outros. No entanto, acredito que ainda existem aqueles que precisam ser lembrados de quem somos. Somos humanos, e na essência, na partícula ínfima de DNA dentro de cada uma de nossas células reside a verdade de que somos todos aparentados e semelhantes.

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