Ao percorrer o corredor que une a sala de espera ao núcleo de infusões, ela encurta os passos. Observa, sorri e anuncia: “como são bonitos!” Fala dos antúrios que amenizam o ambiente destinado ao cuidado com as pessoas acometidas por doenças, como, no caso da Vera, por câncer.
Já em 2009, Vera fora diagnosticada com câncer de mama do tipo HER2 positivo. Fizera cirurgia, radio e quimioterapia. Considerada curada, encara um novo tratamento. Desta vez, trata-se de um carcinoma gástrico de infiltração medular por metástases ósseas.
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Câncer de tantas faces e intercorrências. Variedades que se multiplicam. Também os antúrios se expressam em múltiplas espécies. “Como se dão bem aqui.”, acrescenta Vera. Como ela, os antúrios solicitam cuidados. Não há como desconhecer as incertezas, os enjoos, o cansaço, a fraqueza, os sangramentos, o mal-estar, a falta de apetite, a queda de cabelo. Já foi informada de que, com o tratamento reforçado, eles cairão novamente. Vera não titubeia em seguir os protocolos e recomendações. Acredita na ciência e transparência, nutre-se da fé e dos afetos.
Já na cadeira, onde recebe a infusão quimioterápica, ela observa por entre as frestas da cortina as ramagens embaladas pela brisa das árvores logo adiante. Árvores que ventilam sonhos renovados. Vera segue sentindo a beleza de quem se sabe acarinhada e amada. Sabe da reciprocidade amorosa dos filhos, netos, genro, nora, familiares e de tantos e tantos que a desejam plenamente recuperada.
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Daqui a algumas horas irá retornar pelo corredor. Antes será instruída sobre a seguinte aplicação. Agradecerá a toda a equipe que por ela se esmera. Por ela e por todas as pessoas, conhecidas ou não, que passam por algo assemelhado. Um relacionamento fraterno as irmana no silêncio da atitude virtuosa. Há uma força incomum que as congrega e contagia aos demais.
Concluída a infusão e de posse da carteirinha, Vera pensa em voz alta: “Na semana temos consulta com a médica, sempre atenciosa. Depois, quem sabe, entre uma quimio e outra, poderíamos passar com toda família alguns dias em uma praia perto daqui.” Ao seguir pelos antúrios, seu semblante se ilumina. Imagino que lhes esteja confidenciando: “Como vocês nos alegram. Depois de estabilizada, continuarei a visitá-los”.
CAUSAS MOBILIZADORAS
Hora de nos visitar: a quantos estendemos nossas folhas para que outros possam usufruir de sua sombra e fotossíntese; a quantos abrigamos na diversidade de nossas convivências; qual o grau de saudável atmosfera purificada que podemos ofertar?
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Hora de nos afirmar: quais as causas que realmente valem a pena serem defendidas e implementadas; quais as causas que mesmo derrotadas ou de objetivos ainda não atingidos, merecem que sejam levadas adiante; quais as causas que nos encorajam frente a possíveis difamações, incompreensões e tentativas de desconstituição?
As boas causas não são contra pessoas ou instituições, mas a favor de todos na perspectiva de um futuro em devir mais promissor. Mais: meritórias causas perdoam nossos erros, inconsistências e equívocos de percurso, contanto que nelas vigorosamente perseveremos.
Também as cruzes, leves ou pesadas, libertam e florescem. Vera, e com ela muitos, bem o sabem e nos motivam.
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