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MACHISMO

‘Votando pela aparência, me colocaram no chão, como se meu trabalho não valesse’, diz vereadora

Foto: Câmara de Vereadores de Canguçu

A Câmara de Vereadores de Canguçu, município no Sul do Estado, foi palco de uma cena de machismo escancarado, na última quarta-feira, 22. O alvo foi a vereadora Iasmin Roloff Rutz (PT), de 24 anos, que foi vítima de comentários constrangedores durante a votação que escolheu os membros da mesa diretora da Casa Legislativa para o ano que vem. “Para embelezar essa mesa aí e ter um ‘tchan’ feminino”, justificou o vereador Arion Braga (Progressistas), ao indicar Iasmin para o cargo de 2ª vice-presidente.

Além dele, outros dois vereadores – Francisco Romeu da Silva Vilela (Progressistas) e Oraci Teixeira (PSB) – votaram na parlamentar usando a beleza dela como argumento. De pronto, a jovem política respondeu aos comentários, solicitando que a escolhessem pela “capacidade intelectual e não pela beleza”. Iasmin chegou a se candidatar à presidência da mesa diretora, mas perdeu para o vereador Marcelo Maron (PTB). “Me dispus para marcar meu posicionamento”, apontou. Os votos que ela recebeu foram para 2ª vice-presidente.

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Em entrevista ao programa Rede Social da Rádio Gazeta 107,9 FM, na tarde desta quarta-feira, 29, Iasmin contou que a situação a deixou revoltada e entristecida. Este é o primeiro mandato da vereadora e, conforme avalia, apesar do pouco tempo, já foi possível desenvolver um trabalho importante, principalmente na defesa e promoção dos direitos da mulher e na valorização da agricultura familiar. “Conseguimos avanços nas políticas de gênero e no enfrentamento da violência doméstica, como a reativação do Conselho da Mulher, a Sala das Margaridas e a Lei do Acompanhante”, listou.

Para ela, esses resultados não justificam um voto somente pela aparência. “Os colegas votando pela aparência, me colocaram no chão, como se meu trabalho não valesse nada. Eu faço meu trabalho com inteligência e seriedade. A aparência não interfere em nada disso. As mulheres só querem trabalhar, executar o seu melhor, não serem julgadas ou buscar elogios”, desabafou. A vereadora ainda contou que, mesmo tendo se manifestado no momento da votação, demorou um tempo para processar o ocorrido – até que começou a repercussão, em nível estadual e nacional.

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Iasmin acredita que é importante falar sobre o tema. “Eu ouço muito que é ‘mimimi’, mas precisa ser falado, porque não pode ser algo normal, não é legal. As mulheres devem ser reconhecidas pelo que são, pela capacidade, inteligência e estudo, não aparência”, disse. A parlamentar aponta que esse episódio demonstra que ainda há muitas barreiras a serem derrubadas, no que diz respeito às mulheres na política. “Eu sou a única vereadora mulher, entre 15 eleitos. Na história do município, sou a quarta eleita. Há muito espaço para se afirmar, temos que ocupar nosso lugar de fala e tudo que temos direito”, argumentou.

A política, para Iasmin, apesar de ser um ambiente tão masculinizado, deve ser vista como um espaço diversificado, capaz de acolher ideias e necessidades. Exercendo o primeiro mandato, porém, ela convive com o preconceito desde o início. Ela foi eleita com 23 anos e, pelos corredores da Câmara costumava ouvir palavras não muito agradáveis. “São todos mais vividos, então me chamavam de ‘guariazinha’ e outros adjetivos, sempre no diminutivo. Me sentia desrespeitada e precisei falar isso a eles. Na minha frente, acabou. Pelos corredores, ainda escuto um ou outro desvalorizando meu trabalho”, comentou.

Uma prática comum entre as mulheres é aceitar situações como essa, para não ser acusada de vitimização. “Não deve acontecer, ainda mais em uma sessão pública, gravada. Precisamos nos posicionar, para que outras mulheres não passem por isso”, afirmou. Nas redes sociais, a maioria dos comentários negativos em relação à atitude de Iasmin são de homens. “Eles nunca vão saber como é passar por isso”, finalizou.

*Colaborou a jornalista Maria Regina Eichenberg

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