Em 1626, o padre Roque Gonzalez de Santa Cruz conseguiu atravessar o Rio Uruguai. A empreitada já vinha sendo preparada anos antes; todavia, “os pajés impediram inúmeras vezes que o padre Roque cruzasse o Rio Uruguai, atribuindo ao batismo das crianças e moribundos o surto de epidemia que grassava entre os índios, ao entrarem em contato com os brancos. Finalmente, o padre Roque cruzou o rio, fundando, em 3.5.1626, a missão de São Nicolau do Piratini.” (FLORES, Moacyr. Colonialismo e Missões Jesuíticas. Porto Alegre: EST, 1983: p. 22/23).
Doze anos depois já haviam sido implantadas 18 missões, identificadas como do Tape, fase que perdurou até 1640. A partir de 1682, com a fundação da redução de São Borja, iniciavam-se as missões dos Sete Povos.
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A fase conhecida como dos Sete Povos sofreu um duro revés em 1750, quando, pelo Tratado de Madrid, foi determinada a transmigração. Até então, o sistema missional se referenciava ao rei de Espanha, ainda que cada redução pudesse se valer de certa autonomia administrativa e autossuficiência econômica.
Assim, se os jesuítas se empenharam na evangelização cristã e tentaram defender os indígenas contra os avanços escravagistas dos bandeirantes, havia a questão das fronteiras espanholas em relação à expansão portuguesa. Lembremos que em reação ao Tratado de 1750 sobreveio a Guerra Guaranítica (1754/56). Com a expulsão dos jesuítas, em 1768, a decadência dos Sete Povos se fez inexorável.
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Dois anos após a instalação da primeira redução jesuítica já se tem notícia da presença do gado, que rapidamente formaria as gadarias e estâncias. De forma geral, os armazéns, especialmente dos Sete Povos, estavam bem abastecidos de alimentos e roupas e de quase tudo o que fosse necessário para atender a comunidade. Os ervais, as lavouras e o gado eram considerados bens coletivos.
Por três dias da semana, cada indígena poderia se dedicar à própria subsistência, através do “Abambaé”; nos outros dias, sua obrigação era com o trabalho coletivo, conhecido como “Tupambaé”, o que garantia alimentação e cuidado com as viúvas, órfãos, doentes e os mais necessitados.
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Todavia, o massacre se fez avassalador, tanto que o sangue guarani e dos padres martirizados tingiu as campinas e se encontra impregnado no rubro das terras missioneiras. Cabe realçar que a relação da experiência missioneira com nossa cidade e região não se restringe à coincidência do nome do padre jesuíta precursor “Roque de Santa Cruz”, mas com um legado que se exprime em reminiscências das reduções também por aqui instaladas, a exemplo de Jesus Maria, em Candelária, e São Cristóvão, em Vera Cruz, sobre cuja abrangência tem se debruçado o editor Romar Beling.
A memorial permanência missioneira se revela também na devoção, nos vitrais e nas denominações, no processo pedagógico, nos pequenos santuários caseiros, em encontros comunitários, em tantos e tantos momentos de nosso quotidiano, a que, por vezes, não damos a devida atenção.
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A título ilustrativo desta realidade, citamos a nossa família. Da parte paterna, nossos bisavós e familiares, originalmente instalados em Cerro Branco, migraram para Cerro Largo. A descrição desse percurso de 16 dias, com datas e locais, encontra-se zelosamente guardada pelo mano Roque. Por sua vez, a família de nossa mãe deixou a região de São José de Hortêncio para alcançar Cerro Largo, à época “Serro Azul”. Tanto que este que vos escreve nasceu na missioneira Cerro Largo.
Todavia, se estão disponíveis informações sobre a “Epopeia Missioneira”, há também uma imensa lacuna: o que os próprios Guaranis nos têm a dizer acerca das reduções missioneiras e de seus desdobramentos? Oportuniza-se, pois, uma pauta de reflexão coletiva. Talvez possamos vir a entender um pouco melhor o “modo de ser Guarani” e exercer a busca pela “Terra sem Mal”. Assim, não é por acaso que o quinto encontro das Academias de Letras do Rio Grande do Sul esteja previsto para acontecer em Santo Ângelo, no mês de novembro deste emblemático ano de 2026.
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