Comparar gerações virou um hábito social. Em conversas cotidianas, nas redes sociais, nas empresas e até dentro das famílias, o discurso se repete: uma geração é frágil demais, outra é dura demais; uma não suporta frustração, outra não sabe demonstrar afeto. O que muitas vezes passa despercebido é que esse movimento constante de comparação, quando feito sem escuta e sem contexto, tem se tornado um importante fator de adoecimento da saúde mental.
Nunca tantas gerações conviveram simultaneamente nos mesmos espaços. Baby Boomers, Geração X, Millennials, Geração Z e Geração Alpha compartilham decisões, rotinas e expectativas, mas falam línguas emocionais diferentes. Cada geração foi moldada por um tempo histórico específico, por crises, avanços tecnológicos, modelos familiares e formas distintas de lidar com sofrimento, trabalho e vínculos.
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Os Baby Boomers cresceram em uma cultura que valorizava estabilidade, resistência e silêncio emocional. Falar sobre saúde mental era quase inexistente. A Geração X aprendeu a se adaptar rapidamente, muitas vezes assumindo responsabilidades cedo e normalizando a sobrecarga. Os Millennials entraram na vida adulta em um cenário de instabilidade econômica, excesso de exigências e cobranças por desempenho constante. Já a Geração Z nasceu em um mundo hiperconectado, exposto, comparativo e acelerado, no qual a pressão por pertencimento e validação afeta diretamente o equilíbrio emocional.
Do ponto de vista psicológico, não são as diferenças entre gerações que adoecem, mas a invalidação do sofrimento. Quando uma geração desqualifica a dor da outra com frases como “na minha época não era assim” ou “isso é falta de esforço”, cria-se um ambiente emocionalmente inseguro. O sofrimento não reconhecido não desaparece, ele se intensifica, se desloca e se manifesta em ansiedade, depressão, burnout e rupturas de vínculo.
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No ambiente de trabalho, o impacto desse choque é evidente. Enquanto gerações mais antigas aprenderam a suportar jornadas extensas e relações hierárquicas rígidas, gerações mais jovens passaram a questionar modelos que ignoram limites emocionais. A busca por equilíbrio, propósito e saúde mental não é fragilidade, mas uma resposta a décadas de adoecimento silencioso. Organizações que insistem em comparar gerações em vez de compreendê-las contribuem para ambientes tóxicos e pouco sustentáveis.
Nas famílias, o cenário se repete. Pais educados sob a lógica do silenciamento emocional muitas vezes encontram dificuldade para lidar com filhos que nomeiam ansiedade, tristeza e exaustão. No entanto, essa abertura emocional pode representar um avanço importante na prevenção do adoecimento psíquico, rompendo ciclos de repressão afetiva transmitidos ao longo do tempo.
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Promover saúde mental entre gerações exige empatia e responsabilidade coletiva. Não se trata de romantizar o sofrimento passado nem de patologizar o presente, mas de reconhecer que cada geração desenvolveu estratégias possíveis para sobreviver ao seu contexto. Algumas dessas estratégias hoje precisam ser revistas.
Talvez o maior desafio contemporâneo não seja definir a qual geração pertencemos, mas aprender a conviver com todas elas sem adoecer. Menos comparação, mais escuta. Menos rótulos, mais compreensão. Porque cuidar da saúde mental também é aprender a respeitar o tempo e a história do outro.
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