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CENA CULTURAL

Escritora e roteirista gaúcha que tematiza as questões ambientais estará em Santa Cruz em junho

Um dos principais nomes da nova geração que se firma na literatura brasileira contemporânea será uma das atrações deste ano na cena cultural de Santa Cruz do Sul. A escritora e roteirista gaúcha Morgana Kretzmann, radicada em São Paulo, estará na cidade no dia 16 de junho, em iniciativa do Circuito Sesc de Literatura. Ela despontou em âmbito nacional com Ao pó, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria de melhor romance de estreia. A obra hoje está disponível pela editora Patuá, em 169 páginas.

Seu livro seguinte, Água turva, saiu pela Companhia das Letras, em 2024, e aborda a temática ambiental, na qual ela possui formação. Em entrevista à Gazeta do Sul, Morgana conta que uma de suas avós passou a infância em Santa Cruz e que João Quoos, seu professor de geociências no Instituto Federal de Santa Catarina, é santa-cruzense.

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Foi nas aulas dele que a autora idealizou O Clube Verde e a Liga dos Solos, em parceria com o também gaúcho Paulo Scott, seu marido, e com ilustrações de Pablito Aguiar, livro lançado pelo selo Escarlate, do grupo da Companhia das Letras, no ano passado.

Entrevista – Morgana Kretzmann, escritora e roteirista

  • GazetaMorgana, podes detalhar um pouco tua caminhada de formação e tuas motivações iniciais para escrever? Comecei a escrever ainda na escola, daquele jeito meio desajeitado que todo mundo começa, escrevendo porque precisa colocar alguma coisa para fora e a escrita é o canal que aparece primeiro, ou pelo menos foi para mim. O estímulo de alguns professores foi importante, não no sentido de me ensinarem técnica – isso veio depois -, mas no sentido de legitimarem aquilo que eu estava fazendo, de dizerem que valia a pena continuar. E os livros que eu lia também foram professores, talvez os melhores, porque te mostram que existe um mundo inteiro sendo construído com palavras e que você pode tentar construir o seu. Quando entrei para estudar roteiro cinematográfico na PUC do Rio de Janeiro, achei que ia me dedicar ao cinema, que era por ali que as histórias que eu queria contar iam sair. E de fato aprendi muito sobre estrutura narrativa, sobre como construir arco dramático, sobre economia de recursos, todas essas coisas que roteiro te ensina porque roteiro é uma forma muito técnica de contar história. Mas no meio desse processo comecei a escrever meu primeiro romance, e foi ali que percebi a diferença fundamental: a literatura te dá uma liberdade que outras artes não dão. Foi assim que acabei escrevendo Ao pó, que começou como experimento, como vontade de ver até onde eu conseguia ir sozinha com essa liberdade toda, e acabou virando o livro que ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura. Acho que o que me motiva a escrever continua sendo a mesma coisa que me motivava na escola: a sensação de que há histórias que precisam ser contadas e que se eu não contar elas vão ficar presas dentro de mim. Foi assim com Água turva, o romance que mais me motivou na vida, traduzido para 15 países, sete línguas, e que agora em julho sairá por uma das maiores editoras do mundo, nos EUA, a gigante Harper Collins. 
  • Tua região de origem, o Noroeste gaúcho, é também ambiente que comparece em tua literatura. É uma forma de levar os temas com os quais trabalhas para essa realidade social e cultural? O Noroeste gaúcho aparece na minha literatura não como cenário decorativo, mas como matéria-prima, como lugar que carrega dentro dele as contradições e as violências que me interessam investigar. É uma região de fronteira, literal e metaforicamente, lugar onde o Brasil profundo se manifesta sem filtro, onde as estruturas de poder são mais explícitas porque são menores, mais concentradas, e por isso mais visíveis. O Noroeste gaúcho é um desses lugares, mas poderia ser o interior de qualquer Estado, qualquer cidade pequena onde cooperativa agrícola manda mais que Prefeitura, onde acidente de trabalho vira estatística sem nome, onde mãe enterra filho e ninguém pergunta por quê. Escrever sobre esses lugares é uma forma de dizer que eles importam, que as histórias que acontecem ali merecem ser contadas com a mesma seriedade com que contaríamos histórias que acontecem em São Paulo ou no Rio, e que entender o Brasil passa necessariamente por entender essas geografias também. 
  • Tens formação na área ambiental, e isso transparece em tua obra, em especial em Água turva. A literatura acaba por ser espaço de denúncia e, em outra medida, de conscientização? Escrevi Água turva porque percebi que quando falamos de crime ambiental no Brasil a gente sempre olha para a Amazônia, para o Pantanal, para os biomas que já têm visibilidade internacional, e esquecemos que em todas as regiões do país há devastação acontecendo longe dos holofotes, com a mesma brutalidade, às vezes até com mais impunidade, porque ninguém está prestando atenção. Na fronteira entre Brasil e Argentina, no último reduto da onça-pintada no sul do Brasil, há crimes bárbaros contra animais e contra parques estaduais que precisam ser escancarados. O Parque Estadual do Turvo, que abriga o maior salto longitudinal de queda d’água do mundo, o Salto do Yucumã, e para onde a onça-pintada vai para ter seus filhotes, é desconhecido até por gaúchos. A literatura acaba sendo espaço de denúncia, sim, mas não no sentido panfletário, e sim no sentido de que ela pode tornar visível o que está sendo sistematicamente invisibilizado. Quando você conta uma história sobre um lugar específico, sobre um crime específico, sobre uma violência específica, você força o leitor a olhar para aquilo, a reconhecer que aquilo existe, e reconhecimento é o primeiro passo para qualquer mudança.
  • Em junho deves estar em Santa Cruz para atividade pelo Circuito Sesc de Literatura. Como estruturas a tua participação nesse projeto? Estou ansiosa para ir a Santa Cruz do Sul, ao Circuito Sesc do Rio Grande do Sul. Eu moro em São Paulo, mas tenho muita saudade do meu Estado e de tantas pessoas do meu Estado. Minha avó viveu sua primeira infância em Santa Cruz, por isso a vontade de conhecer mais a cidade, já que nunca fui para aí — uma pena não ter tido a oportunidade antes. Pretendo deixar o público levar a atividade como achar melhor, estarei aberta para que nosso encontro seja uma grande roda de conversa, uma grande roda de chimarrão, e espero que tenha cuca de uva junto.
  • Como nasceu e como se direciona, em termos de público-alvo, o livro O Clube Verde e a Liga dos Solos? É projeto que tende a ter continuidade? O Clube Verde e a Liga dos Solos nasceu na minha faculdade, no Instituto Federal de Santa Catarina, nas aulas de geociências do professor João Quoos, que é de Santa Cruz do Sul e cuja família ainda mora aí, e que me ensinou e me fez amar os solos brasileiros de um jeito que eu não imaginava ser possível amar algo tão aparentemente técnico. A ideia das personagens, os tipos de solos brasileiros que reaparecem como super-heróis depois de centenas de anos para salvar o planeta Terra, surgiu ali, naquelas aulas, e, quando contei para o meu marido, o escritor Paulo Scott, ele topou escrever o livro comigo a quatro mãos. É um projeto direcionado para o público infantil e infantojuvenil, mas com a ambição de não subestimar esse público, de entregar uma história de aventura que ao mesmo tempo ensine sobre solos brasileiros de forma orgânica, sem didatismo forçado. E, sim, tende a ter continuidade, porque a estrutura narrativa que criamos permite explorar outros biomas, outros solos, outras ameaças ambientais. Então, a ideia é que a Liga dos Solos tenha novas missões, novos desafios, e que cada livro funcione tanto sozinho quanto como parte de uma série maior sobre a luta pela preservação da vida humana (e não humana) na Terra.
  • Também lançaste em 2025 um conto, em e-book, em homenagem a Dom Phillips. Como a história dele te tocou e como vês a repercussão passados quase quatro anos de seu assassinato? A Companhia das Letras me chamou para escrever esse conto como parte da campanha de lançamento do livro póstumo do Dom Phillips, Como salvar a Amazônia. Na época do brutal assassinato dele e do Bruno Pereira, fiquei estarrecida e muito triste, e escrever o conto foi uma forma lúdica de processar essa violência.
  • Que projetos artísticos tens em andamento? O que os leitores podem esperar para os próximos meses ou anos? Não gosto muito de falar do futuro. Anunciar demais, pode virar forma de adiar. Mas posso dizer que por ora pretendo continuar com o meu novo projeto junto com a Aline Bei, Cartas a uma escritora, que fizemos em três sessões de leitura encenada no Sesc Paulista e que pretendo levar para outros lugares ainda neste ano. É um formato que me interessa muito, essa coisa de literatura performada, de texto quente, na boca, na saliva, na emoção do palco. Tem sido importante explorar isso com a Aline, que é uma parceira generosa, uma escritora que admiro profundamente e um ser humano que amo. 

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