Uma nova onda de furtos em cemitérios do interior de Santa Cruz do Sul, registrada na última semana, deixou um rastro de destruição, indignação e dor entre famílias que tiveram túmulos de parentes violados. Em pelo menos três localidades – Linha Nova, Linha Andrade Neves e Linha Antão –, mais de 200 sepulturas foram alvo de criminosos, que levaram crucifixos, placas de identificação, molduras e até fotografias antigas, muitas delas insubstituíveis.
Os delitos ocorreram em áreas afastadas, sem vigilância ou moradores próximos, o que dificulta a identificação dos responsáveis. No Cemitério Evangélico de Linha Nova, a aposentada Rosane Alzira Schaefer Grando, de 60 anos, estima que cerca de 45 jazigos foram atingidos. Entre eles, os de familiares próximos – mãe, avós, bisavós, tia e primo.
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Do local onde está sua mãe, foram retirados os letreiros. Dos avós, um crucifixo de grande valor. Já na lápide da bisavó, os invasores furtaram a moldura e a fotografia, que era a única imagem existente da antepassada. “Sinto uma tristeza profunda e uma revolta imensa ao pensar nos nossos entes queridos. O que deveria ser um lugar de descanso e paz foi transformado por uma crueldade difícil de compreender”, desabafa.
Segundo ela, essa foi a primeira vez que o espaço foi alvo de ataques. Depois de perceber os danos, moradores acionaram a Brigada Militar e registraram ocorrência. Além do impacto emocional, há o prejuízo financeiro. A reposição das peças, muitas feitas em bronze ou materiais de custo elevado, exige alto investimento.
Na localidade de Linha Andrade Neves, a situação é ainda mais abrangente, pois o cemitério fica em uma área isolada. A agricultora Carine Müller, de 45 anos, calcula que entre 75 e 80 jazigos tenham sido danificados. Em um dos casos, a subtração dos itens ocorreu apenas uma semana após o sepultamento.
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Quando os moradores chegaram ao local, encontraram cenas de vandalismo: peças arrancadas, fotos jogadas no chão e estruturas avariadas. “Ficamos simplesmente em choque. Tem túmulos em que não sobrou nada. Em outros, arrancaram um pouco. E o pior é levar foto de gente antiga; como é que a gente vai recuperar isso?”, questiona. De acordo com a agricultora, foi desolador ver o túmulo do avô sem a imagem, que não conseguirão repor.
Carine conta que a comunidade precisou se mobilizar para avisar parentes, já que muitos retratos encontravam-se espalhados pelo chão.
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Em Linha Antão, as ações atingiram dois espaços, o católico e o evangélico. O empresário Samuel Luiz Kloh, de 34 anos, descreve o cenário como um “roubo generalizado”. No cemitério católico, entre 60 e 70 pontos foram depredados. No evangélico, aproximadamente 25. “No católico, praticamente todas as lápides foram atingidas. Levaram nomes, crucifixos, molduras e muitos registros. Alguns bem antigos, de mais de 50 anos”, relata.
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Diante da situação, as comunidades se mobilizam para reforçar a segurança. Em Linha Antão, no cemitério católico, a instalação de câmeras de monitoramento deve começar nos próximos dias. Além disso, os moradores estudam alternativas para reconstruir as sepulturas com técnicas menos visadas, como inscrições em baixo-relevo diretamente na pedra.
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Prevenção é principal caminho
Embora as investigações estejam em andamento, as autoridades reforçam que a prevenção é fundamental, especialmente em áreas rurais. A orientação é de que as comunidades avaliem a instalação de câmeras de monitoramento.
“Não resolve totalmente, mas ajuda muito na investigação”, afirma o Guilherme Dill, da 1ª Delegacia de Polícia. Ele também destaca a importância de denúncias por parte da população. “Qualquer informação pode ser repassada à Polícia Civil. Sempre haverá uma equipe para verificar.”
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Outro ponto que chama a atenção é a dificuldade de responsabilização mais severa dos envolvidos. Como se trata de furto – crime cometido sem violência ou ameaça –, a legislação prevê penas baixas. Mesmo quando há agravantes, como a atuação em quadrilha, os casos nem sempre resultam em prisão preventiva.
Histórico preocupa comunidades
Situações como as registradas recentemente já ocorreram em outras ocasiões no interior de Santa Cruz e municípios vizinhos. Em geral, os crimes têm como alvo materiais metálicos, como bronze, que possuem valor de revenda.
No entanto, a sequência de ocorrências dos últimos tempos, com grande número de túmulos atingidos em diferentes localidades, acende um alerta para uma possível intensificação desse tipo de ação criminosa. Para as famílias, o prejuízo maior não é financeiro, é emocional. A violação representa mais do que um crime patrimonial: é a ruptura simbólica de um espaço de memória, respeito e conexão com o passado.
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Investigação aponta ação regionalizada
Segundo o delegado Guilherme Dill, a principal linha de investigação aponta para uma quadrilha que atua de forma itinerante na região. A suspeita é de que os criminosos venham da Serra Gaúcha, pratiquem os furtos e retornem às suas cidades de origem. Um grupo com esse perfil já foi preso anteriormente, em Flores da Cunha, com um veículo carregado de objetos furtados de cemitérios.
“É um tipo de crime regionalizado. Eles vêm, agem por um período e depois retornam. Isso dificulta a identificação”, explica. Outro desafio é a ausência de imagens ou testemunhas, já que os cemitérios atingidos ficam em áreas isoladas.
“Não há câmeras, não há moradores próximos, não há registros de veículos. Isso limita bastante a investigação”, afirma. Além da tentativa de identificar os autores, a Polícia Civil tem atuado no combate aos receptadores – pessoas ou estabelecimentos que compram os materiais furtados.
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