Há menos de um mês, Janine Paiva saiu da maternidade segurando nos braços os gêmeos Ravi e Lucca, seus primeiros filhos, aos 38 anos. Desde então, os dias passaram a ser medidos entre mamadas, fraldas, sustos, descobertas e um amor que, segundo ela, “só faz sentido quando a gente olha para eles pela primeira vez”.
“Eu não romantizo a gravidez.Nem tudo são flores. Mas quando a gente vê aqueles rostinhos, entende que nasceu uma outra pessoa dentro da gente.”
A maternidade chegou depois de um caminho de escolhas, amadurecimento e espera. Antes dos filhos, Janine priorizou a construção da carreira. Sócia-proprietária de uma imobiliária em Santa Cruz do Sul, passou anos focada no crescimento profissional, nos planos pessoais e na estabilidade financeira. “A gente sempre coloca uma viagem na frente, um carro, outras prioridades”, conta. “Eu nunca tinha pensado realmente em ser mãe antes desse relacionamento.”
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Foi ao lado do marido Rodrigo que o desejo pela maternidade apareceu de forma concreta. “Eu acho que vem muito do relacionamento certo”, resume. Quando decidiu que era hora de tentar engravidar, o relógio biológico já fazia parte das conversas do casal. “A gente pensou: tem que ser agora. Porque depois as coisas complicam, principalmente para a mulher.”
Após um ano tentando engravidar, Janine e o marido procuraram auxílio médico para iniciar os exames de fertilidade. “Nós fomos ao consultório para começar o processo da fertilização. E o doutor brincou: ‘Geralmente quem senta aqui, levanta grávida dessa cadeira’.” Duas semanas depois, o teste confirmava a gestação. “Mal começou a ecografia e já apareceram os dois coraçõezinhos. O pai quase infartou.”
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A gravidez gemelar aconteceu de forma natural. “Foi uma loucura no começo. Um susto e uma bênção ao mesmo tempo.”
Enquanto o País registra uma queda histórica na fecundidade e um aumento no número de mulheres que engravidam após os 35 e 40 anos, histórias como a de Janine ajudam a traduzir as transformações apontadas pelos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A maternidade tardia deixou de ser exceção silenciosa para se tornar parte de uma nova realidade feminina, marcada por planejamento, autonomia e escolhas mais conscientes.
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No caso de Janine, a maturidade trouxe também mais tranquilidade para viver a gestação. “Hoje eu sou uma pessoa muito mais calma do que era antes”, afirma. “E acho que isso passou para eles também.”
A gravidez foi considerada tranquila pelos médicos. Janine manteve exercícios físicos, fez pilates até o fim da gestação e trabalhou praticamente até os últimos dias antes do parto. “O doutor dizia para eu parar um pouco, levantar os pés”, conta. “Mas eu sou hiperativa.”
Agora, instalada na sala de casa entre mamadeiras e cochilos curtos, Janine vive o começo intenso da maternidade real. “Hoje, tomar banho tem que ser cronometrado”, brinca.
Mesmo com rede de apoio, ela descreve a rotina como um mergulho integral. “Quando tu vê, passaram-se duas horas e já começa tudo de novo: mamada, fralda, arroto.” A diferença é que, desta vez, as prioridades mudaram completamente. “Antes eu pensava muito em mim, em trabalhar e comprar minhas coisas. Agora tudo é pensado neles primeiro.”
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Ela fala sobre a transformação da maternidade sem idealizações exageradas, mas com emoção genuína. “O amor mesmo acontece quando a gente olha para eles e entende: agora eu sou mãe dessas crianças.”
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Menos filhos e mais tarde
As mulheres brasileiras estão adiando a maternidade e tendo menos filhos. É o que apontam os dados mais recentes do Censo Demográfico 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A pesquisa mostra que a Taxa de Fecundidade Total (TFT) – indicador que estima o número médio de filhos por mulher ao longo da vida reprodutiva – segue em queda no País há mais de seis décadas. Em 1960, a média era de 6,28 filhos por mulher. Em 2022, caiu para 1,55.
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O movimento é percebido em todo o Brasil, mas aparece de forma ainda mais intensa na Região Sul, historicamente uma das primeiras a registrar a redução no número de filhos. Segundo o próprio IBGE, Sul e Sudeste iniciaram esse processo antes das demais regiões, especialmente entre mulheres com maior escolaridade e inserção no mercado de trabalho.
Os números revelam uma transformação profunda na forma como as mulheres têm vivido a maternidade. Se antes ter filhos cedo fazia parte de um roteiro quase automático da vida adulta, hoje a decisão costuma vir acompanhada de planejamento financeiro, estabilidade profissional, busca por autonomia e, muitas vezes, da espera pelo “momento certo” – que nem sempre chega cedo.
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Os dados mais recentes das Estatísticas do Registro Civil do IBGE reforçam essa mudança de perfil. Em 2004, 75,6% dos nascimentos brasileiros eram de mães com até 29 anos. Vinte anos depois, esse percentual caiu para 60,5%. Ao mesmo tempo, cresceu a participação de mulheres que têm filhos após os 30 anos. Em 2024, 39,4% dos nascimentos no País já eram de mães com 30 anos ou mais. Em 2004, eles representavam 24,3%.
O envelhecimento da maternidade também aparece entre mulheres acima dos 40 anos. Em 2004, o Brasil registrava pouco menos de 60 mil nascimentos de mães nessa faixa etária. Em 2024, o número passou de 102 mil. O avanço acompanha mudanças sociais profundas, mas também os avanços da medicina reprodutiva, que ampliaram as possibilidades de gestação tardia.
Mudança no perfil etário das mães (%)

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Rio grande do sul
No Rio Grande do Sul, esse cenário acompanha uma tendência já consolidada. O Estado registra uma das menores taxas de fecundidade do País, próxima de 1,5 filho por mulher – abaixo do chamado nível de reposição populacional, estimado em 2,1 filhos. Na prática, isso significa que as famílias estão menores e que o envelhecimento da população gaúcha deve se intensificar nos próximos anos.
Os indicadores estaduais ajudam a dimensionar essa transformação. Em 2024, 45,2% dos nascimentos registrados no Rio Grande do Sul foram de mães com 30 anos ou mais – um dos maiores percentuais do Brasil e acima da média nacional, de 39,5%. Em contrapartida, apenas 7,8% dos nascimentos no Estado foram de mães com até 19 anos, um dos menores índices do País.
Segundo o chefe da agência do IBGE em Santa Cruz do Sul, Luiz Eduardo Braga, a tendência é que em 2070 as mulheres tenham seu primeiro filho entre os 34 e os 37 anos de idade. “A mulher realmente está deixando para ter um filho mais tarde, ou não ter”, explica.
A mudança acompanha transformações que vêm redesenhando a vida adulta feminina nas últimas décadas. Mais escolarizadas e inseridas no mercado de trabalho, muitas mulheres passaram a adiar casamento, maternidade e formação da família. O próprio IBGE aponta que a idade média ao casar também aumentou. Em 2004, mulheres brasileiras se casavam, em média, aos 24,9 anos. Em 2024, subiu para 29,3 anos.
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Medicina reprodutiva
As mulheres estão engravidando mais tarde e a medicina reprodutiva acompanha essa transformação em ritmo acelerado. Mas embora os avanços tecnológicos tenham ampliado as possibilidades de gestação após os 35 e até os 40 anos, especialistas alertam: o corpo feminino continua obedecendo ao próprio tempo biológico.

Para o médico ginecologista, obstetra e especialista em fertilidade Carlos Eduardo Kampf, o adiamento da maternidade é resultado direto das mudanças sociais vividas pelas mulheres nas últimas décadas. “Hoje a gente vê as mulheres engravidando cada vez mais tarde. Porém, a fisiologia reprodutiva da mulher não foi avisada dessa mudança no perfil atual”, resume.
Segundo ele, a transformação vai muito além da maternidade em si. Passa pela busca por formação acadêmica, consolidação profissional, independência financeira e relacionamentos mais tardios. “A questão da carreira profissional das mulheres mudou muito nos últimos 30 anos. Isso teve impacto importante sobre a maternidade e sobre a saúde reprodutiva.”
Os reflexos aparecem também nos consultórios especializados. Em clínicas de fertilidade, cresce o número de pacientes que procuram orientação após os 35 anos – muitas vezes já pensando em preservar a possibilidade de engravidar no futuro. “Hoje muitas mulheres buscam o congelamento de óvulos antes dos 35 anos para utilizar esses óvulos lá nos 40, quando a vida estiver mais estável”, explica.
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A técnica, cada vez mais conhecida, surge como alternativa para driblar um dos principais desafios da maternidade tardia: o envelhecimento ovariano. Conforme Kampf, a fertilidade feminina diminui progressivamente após os 35 anos e sofre uma queda mais acentuada depois dos 40.
“O óvulo de uma mulher de 40 anos não é o mesmo óvulo de uma mulher de 20 ou 30 anos”, afirma. “Existe uma dificuldade maior de engravidar e também um risco aumentado de abortamento por alterações cromossômicas.”
Avanços para uma gravidez saudável
Além do congelamento de óvulos, a medicina reprodutiva avançou em outras frentes nos últimos anos. Testes genéticos permitem avaliar embriões antes da transferência para o útero, reduzindo riscos de alterações cromossômicas e aumentando as chances de uma gestação saudável. Em alguns casos, também é possível recorrer à ovodoação, utilizando óvulos doados para a fertilização. “São técnicas que vieram para ajudar essas mulheres a engravidar numa idade mais tardia e permitir que essa gravidez evolua de forma adequada”, afirma Carlos Kampf.
Ainda assim, o especialista reforça que a tecnologia não elimina os riscos clínicos de uma gestação após os 40 anos. Entre as complicações mais frequentes estão hipertensão arterial, diabetes gestacional, prematuridade e outras intercorrências obstétricas. “Isso precisa estar muito claro para os casais que postergam a gestação”, alerta. “Não é apenas uma questão da qualidade dos óvulos. Existe também toda a avaliação clínica da mulher que vai gerar esse bebê.”
Para ele, esse debate deveria começar cedo, ainda nas consultas ginecológicas de rotina. “O aconselhamento reprodutivo precisa acontecer por volta dos 30 anos. A mulher precisa entender como funciona o envelhecimento ovariano e quais são os riscos envolvidos.”
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Apesar dos limites biológicos, Kampf observa que a maternidade tardia também costuma vir acompanhada de ganhos emocionais importantes. Diferentemente de gerações anteriores, muitas mulheres chegam à gravidez após um processo de amadurecimento pessoal e estabilidade emocional. “Muitas vezes essas mulheres chegam mais maduras para a maternidade”, ressalta. “Os casais costumam estar mais estruturados emocionalmente e financeiramente, e isso pode refletir numa boa evolução da gestação.”
Dentro da nova configuração familiar brasileira, o médico acredita que a maternidade deixou de ser apenas uma etapa automática da vida adulta para se tornar uma escolha cada vez mais consciente e planejada. “Hoje os filhos, na maioria das vezes, são muito desejados e muito planejados. Existe uma preparação emocional maior para isso.”
“A alegria dos bisnetos não tem explicação”
Aos 88 anos, Norma Franke olha para a fotografia sobre o colo e vê ali o retrato da própria vida. Entre filhos, netos e bisnetos, construiu uma família que hoje atravessa gerações e que, para ela, representa o maior legado de uma existência inteira dedicada ao cuidado. “Eu me sinto uma pessoa realizada”, resume, com os olhos marejados e a fala serena de quem coleciona memórias.
Norma teve a primeira filha aos 22 anos, em 1960, uma época em que a maternidade chegava cedo e quase como continuidade natural do casamento. “Naquela época, a gente constituía família mais cedo. Casava e não esperava muito tempo para ter filhos”, recorda. O segundo nasceu cinco anos depois. “Foi uma experiência muito bonita. Uma alegria.”
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Quando observa as mudanças no comportamento das novas gerações, percebe um mundo diferente daquele em que cresceu. “Hoje em dia é diferente. As mulheres esperam mais, pensam mais”, diz.
Para ela, a maternidade deixou de seguir um caminho automático e passou a dividir espaço com carreira, independência financeira e outros projetos de vida. Mesmo assim, fala sobre os filhos com a mesma delicadeza de quem ainda revive o primeiro colo. “Eu acho que filho é uma bênção. É a continuação da vida.”
A história de Norma também atravessa a formação de Vera Cruz. Ao lado do marido, Guido, ajudou a administrar por décadas a Cascata do Franke, atualmente rebatizada de Cascata Cantinho Colonial, antes mesmo de o local se transformar em ponto turístico conhecido na região. Entre festas, bailes, casamentos e trabalho intenso, conciliava a rotina da família com a costura das roupas dos filhos e os afazeres de casa. “Era muito serviço. A gente fazia tudo”, lembra. “Naquela época não existia comprar roupa pronta como hoje. Eu costurava muito.”
Ela fala das dificuldades sem peso, como quem folheia um álbum antigo. O brilho da conversa aparece mesmo quando menciona os netos e bisnetos. “Com os netos eu me diverti muito. Curti eles demais e eles curtiram muito a vó.” As férias eram passadas na cascata, entre banhos de rio, colchões espalhados pelo chão e idas da avó até Vera Cruz para trocar fitas de videogame. “A vó fazia de tudo”, relembra, rindo das histórias que ainda hoje são repetidas pela família.
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Entre memórias, Norma relata a dor da perda do filho Ricardo, que atravessa a fala por alguns segundos de silêncio. “Foi muito difícil para a gente perder um filho”, conta baixinho. “Mas ele me deixou dois netos lindos.” Hoje, nas fotografias sobre a estante da sala, estão também os cinco bisnetos. Três deles nasceram no mesmo ano. “Três netos me deram três meninas no mesmo ano”, conta, orgulhosa. “A alegria dos bisnetos não tem explicação.”
Viúva há mais de uma década, mora sozinha, ao lado da filha, mantendo a independência que faz questão de preservar. Ainda limpa a própria casa, organiza a rotina e se emociona ao falar da união da família. “Nós nunca tivemos briga. Discussão, claro, toda família tem. Mas briga, nunca.”

Ao comparar a maternidade do passado com a de hoje, percebe mudanças profundas na criação dos filhos e no cotidiano das famílias. Fala da tecnologia, da correria e da ausência de tempo. “No meu tempo, a mulher não trabalhava fora como hoje. As mães agora precisam dar conta de tudo.” Sente falta, especialmente, da relação mais afetiva com as pequenas coisas do dia a dia. “A comida era quase um remédio”, resume, lembrando das sopas feitas em casa e do feijão sempre pronto para os netos.
Enquanto segura a foto da família reunida, Norma sintetiza o próprio coração da reportagem: entre as mulheres de sua geração, ser mãe fazia parte do curso esperado da vida. Hoje a maternidade se tornou escolha, planejamento e, muitas vezes, adiamento. Mas independentemente do tempo em que chega, ela continua sendo atravessada pelo mesmo afeto silencioso que sustenta gerações.
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