Poucas pessoas não se depararam alguma vez com uma escolha, uma tomada de decisão. Pode ser diante de opção simples, como sair a caminhar ou correr com chuva iminente, mas também ante decisão mais radical, como comprar ou deixar de comprar uma casa, ou trocar de emprego, ou até mesmo se mudar do próprio país. Não raras vezes situações como essas se revestem de angústia, mexem com a emoção, principalmente pela incerteza de que a nova escolha seja a melhor. As mesmas pessoas que abominam o calor, ao primeiro frio do inverno declaram seu amor incondicional ao verão. Parece que o melhor está sempre onde não estamos.
Cursei Letras na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, aqui em Santa Cruz do Sul. As licenciaturas (modalidade que forma professores) eram extensão da Faculdade Imaculada Conceição (FIC) de Santa Maria, hoje transformada em Unifra – Universidade Franciscana. Alguns professores eram daqui, outros vinham de Santa Maria. Havia, na época, a opção por cursar licenciatura curta, de três anos, ou plena, com quatro anos de duração. Quando concluí a curta, não havia aqui a opção de plena, que só foi autorizada um ano depois. Mesmo com a curta ainda em andamento, já me tornei professor do Colégio São Luís.
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Eis que surge um convite do Ginásio Nossa Senhora da Glória, de Sinimbu. A diretora, Irmã Lorena Mezzarroba, me apresentou boa proposta e assinei contrato no dia 1º de março de 1972. Na tarde do mesmo dia, o professor Anildo Bettin, que me conhecera como aluno, me procurou para fazer importante consulta. Ele não conseguia dar conta do número de aulas que ministrava e me propôs assumir Português no curso de Ciências Contábeis.
Disse a ele: amigo, não posso fazer isso. Acabei de assinar contrato com o Ginásio Nossa Senhora da Glória e não quero causar esse dissabor à Irmã Lorena. Além do mais, sou apenas um professor iniciante, recém concluí a licenciatura curta. Bettin me disse: pensa bem, olha com carinho a oportunidade que se apresenta. E arrematou: cavalo encilhado não passa duas vezes.
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Fiquei bastante angustiado, até porque muito cedo aprendi que palavra dada é para ser cumprida. Dormi, refleti e no dia 2 de março, com minha Carteira de Trabalho no bolso, rumei a Sinimbu para comunicar à Irmã Lorena Mezzarroba que não mais assumiria aulas em sua escola, tendo optado por lecionar na faculdade. Então, um dia após o registro de admissão, na minha carteira consta a saída, deixando a diretora sem a vaga preenchida. Espero que a irmã tenha me perdoado, que não tenha maldito o cavalo encilhado que lhe tirou o professor recém-contratado.
Não sei como teria sido o desenrolar da minha vida, mas se tivesse aceitado trabalhar em Sinimbu, talvez a trilha profissional não me levaria a ser professor das faculdades em que por décadas ensinei com verdadeira paixão. Qualquer escolha em geral exige alguma renúncia e apresenta seus riscos, mesmo que previsíveis. Cavalos encilhados, quer dizer, oportunidades irrecusáveis não são tantas assim, ainda mais num tempo em que o mundo do trabalho não promete mais tanta solidez. Subi naquela montaria porque um amigo apresentou sua mão como estribo, o que contribuiu para que encontrasse definitivamente um espaço de trabalho para ser feliz.
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