Por Marcelo Matias*
Pesquisas recentes sobre o ambiente de trabalho médico no Brasil não deixam margem para dúvida: a relação médico-paciente figura entre as principais preocupações da categoria. Não se trata de um simples desafio de comunicação entre duas pessoas. Trata-se de um reflexo fiel de um sistema de saúde que, sobrecarregado e subfinanciado, cobra seu preço mais alto de quem está na linha de frente e que, justamente por isso, também precisa de respeito e de cuidado. Esse tema merece ser enfrentado com honestidade, sem eufemismos e sem a tentação de encontrar culpados fáceis, porque as forças que corroem essa relação vão muito além do consultório.
Há uma imagem que resume, de forma clara, muito do que nossos associados vivem: o médico como para-choque. É ele quem absorve o impacto de um sistema que não funciona como deveria. É ele que está no posto de saúde sem estrutura, sem equipe completa, sem insumos básicos. É ele que aguarda meses com salários atrasados enquanto precisa dar respostas imediatas, urgentes, muitas vezes vitais. O que poucos enxergam é que o médico também é vítima desse sistema. Assim como o paciente sofre com filas intermináveis, falta de leitos e tratamentos negados, o médico sofre com a precarização das relações de trabalho, com a falta de condições estruturais e com a impossibilidade de exercer sua profissão da forma que aprendeu e jurou fazer.
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O sonho de quem está na porta de uma emergência é simples: que todos os pacientes sejam atendidos da melhor forma possível, com segurança, dignidade e humanidade. Quando isso não acontece, na maioria das vezes não é por falta de dedicação do profissional, mas por falta de estrutura. Ainda assim, é o médico quem acaba sendo visto como o rosto de um sistema que falhou.
A saúde pública brasileira é estruturalmente insuficiente para a demanda que enfrenta. Quando um profissional atende 50 pacientes em um único turno, quando faltam medicamentos básicos para prescrever, a relação com o paciente já começa comprometida antes mesmo de a porta do consultório se abrir.
O segundo grande desafio está diretamente ligado à revolução tecnológica e à velocidade com que ela transformou o comportamento dos pacientes. Hoje, uma parcela crescente das pessoas chega ao consultório não apenas com sintomas, mas com diagnósticos. Chega depois de navegar em mecanismos de busca ou, mais recentemente, após conversas com ferramentas de inteligência artificial que respondem dúvidas médicas com uma fluência impressionante e uma aparente precisão que surpreende até os próprios médicos. Isso muda tudo. Muda a dinâmica da consulta, muda o papel esperado do médico, muda as expectativas do paciente.
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De fato, não se está falando de alguém que chegou ao consultório com conhecimento médico real. Está-se falando de alguém que passou pelo ambiente digital e realizou, antes da consulta, um rastreio inicial de informações, sujeito a erros e a imprecisões. Esse rastreio tem valor: pode orientar, pode gerar perguntas pertinentes, pode antecipar preocupações. O ambiente digital e a inteligência artificial cumprem, nesse sentido, um papel legítimo como ponto de partida para esse rastreio. Mas é apenas isso: um ponto de partida. O conhecimento aprofundado, a capacidade de avaliar a condição real do paciente, os detalhes clínicos que nenhum algoritmo jamais conseguirá capturar, isso reside, de forma exclusiva e insubstituível, no médico durante a consulta. Valorizar essa distinção é, antes de tudo, valorizar o próprio profissional médico. E é justamente ela que coloca o profissional diante de um dilema para o qual nenhuma faculdade o preparou adequadamente: como dialogar com um paciente que chegou com informação parcial, sem invalidar sua preocupação legítima com a própria saúde, sem ser condescendente, e ainda assim exercer com autonomia o julgamento clínico que anos de formação lhe conferem?
Não existe resposta simples. Mas existe um caminho. O médico que aprende a usar a tecnologia a seu favor, que conhece as ferramentas que seu paciente usa, que incorpora a inteligência artificial como aliada e não como ameaça, tem mais chances de reconquistar o protagonismo na relação. A tecnologia não substituirá o médico. Mas o médico que souber trabalhar com ela estará muito mais preparado para os próximos anos. Também é direito do médico ter acesso às melhores ferramentas tecnológicas para exercer sua profissão. Infelizmente, essa não é a realidade de muitos postos de saúde e serviços públicos, onde faltam equipamentos, sistemas adequados e recursos capazes de qualificar diagnósticos e atendimentos. Cabe ao Sindicato um papel central nessa transição. Temos investido em formação continuada que vai além da atualização clínica estrita. A comunicação médica eficaz, a gestão da relação com o chamado “paciente digital” e a compreensão ética do uso de inteligência artificial na saúde são temas que precisam integrar permanentemente a agenda de capacitação da nossa categoria.
O terceiro desafio é o mais perturbador. A violência contra o médico, seja digital ou presencial, é uma realidade que não pode mais ser tratada como tabu. Ela existe. Ela cresce. E precisa ser enfrentada com a seriedade que merece. A violência digital é silenciosa, mas devastadora. Avaliações injustas em plataformas online, ataques em redes sociais, campanhas de difamação: tudo isso corrói a reputação de profissionais que dedicaram décadas à sua formação.
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Estudos mostram que o medo da exposição digital leva muitos médicos a uma medicina defensiva. Pedem cada vez mais exames, se fecham como defesa. O resultado é um sistema mais caro e, paradoxalmente, menos seguro para o próprio paciente. A violência presencial, por sua vez, é o ponto de ignição de frustrações acumuladas.
Quando o paciente espera horas, dias ou meses numa fila, o médico torna-se o alvo disponível de uma raiva que é compreensível em sua origem, mas inaceitável na prática. As agressões verbais e físicas contra profissionais de saúde aumentaram de forma alarmante nos últimos anos. Cada caso é uma tragédia dupla: para o médico agredido, que carrega o trauma e muitas vezes abandona a profissão, e para o paciente que, no fundo, estava pedindo socorro.
O Sindicato tem atuado em diversas frentes para enfrentar esse cenário. Criamos o Observatório da Violência Contra os Profissionais de Saúde. Trabalhamos junto às instituições de saúde para a adoção de protocolos de segurança. Apoiamos juridicamente médicos que sofreram violência e buscamos, junto ao Poder Legislativo, o fortalecimento das leis que protegem a categoria. Mas sabemos que a resposta definitiva não virá apenas da punição. Virá de um sistema que funcione melhor e que não coloque médico e paciente em posição de adversários. Nossa atuação parte de um diagnóstico claro: a relação médico-paciente não se recupera quando as condições estruturais que a degradam são efetivamente transformadas.
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A luta do Sindicato é inseparável da luta pela saúde pública de qualidade, porque médico e paciente, no fundo, são aliados naturais. Ambos querem a mesma coisa: um sistema que funcione, que respeite a vida e permita o cuidado digno. A relação médico-paciente está em crise. Mas crise, na linguagem da medicina, não é diagnóstico final. É o momento mais agudo, que exige intervenção, que pede atenção, que abre caminho para a recuperação. Estamos nesse momento. E o Sindicato está aqui para atravessá-lo ao lado de médicos e de pacientes.
*Presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul
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