Dias atrás meu irmão Roque compartilhou uma fotografia comigo. Dia da minha Primeira Comunhão. Ele lembrava a data e eu também – 12 de julho – mas não soube precisar o ano. Ainda vou definir, mas deve ter sido em 1962 ou 1963.
Mas não é isso que importa. Naquela foto – acho que foi o único registro da nossa família por inteiro –, as três irmãs aparecem alinhadas no alto, meu irmão ao lado delas e, à frente, eu de pé, de terno, em meio aos meus pais sentados com as mãos cruzadas sobre os joelhos. Cena clássica.
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A imagem mexeu comigo. Me remeteu de volta ao passado, e me instigou a reconstruir uma fase da vida de que pouco lembro, porque minhas irmãs casaram ainda jovens e eu sequer tive chance de opinar sobre as escolhas delas (meus cunhados foram pessoas maravilhosas, pena que tiveram que nos deixar cedo demais). Depois disso, meu irmão começou a cavocar fotos e mais fotos do baú, ou de algum álbum como se faz aqui em casa, e passamos a nos desafiar: – lembra dessa? Sabe onde foi isso? Chuta o ano dessa aí!
Desculpem a virada radical de página, mas é proposital. Acham mesmo que um arquivo digital com 500 imagens, quase todas repetidas, vale mais do que um álbum físico de 50 fotografias selecionadas a dedo e impressas, que você pode apreciar, passar para o convidado ao lado e todos juntos poderem rir das gafes e trejeitos de uns e de outros? Memória. É isso. É registro impresso, é documento, é história de vida cunhada em papel. Autêntico, sem fotoshop ou qualquer outro aplicativo que melhore sua performance visual.
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Enquanto refletia sobre essas questões me veio à mente que um dos primeiros trabalhos que desenvolvi na Redação da Gazeta do Sul, no início dos anos de 1980, foi uma seção semanal na página 2 do jornal, denominada “Memória do tempo”. Não quero exagerar, mas ouso dizer que foi a primeira vez que se deu visibilidade, não a uma ou outra fotografia, mas a um riquíssimo acervo fotográfico da família Kuhn sobre o início da colonização e a estruturação da cidade.
Na época a Gazeta circulava três vezes por semana, periodicidade que permitia alguma brecha para pesquisas entre uma pauta e outra. Lembro que passava horas no Bazar Kuhn (na Marechal Floriano, ao lado da Casa das Artes Regina Simonis), revirando caixas de fotos em preto e branco e ouvindo histórias que seu Hugo contava e que eu procurava traduzir para o jornal.
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Afora a curiosidade natural que essas imagens despertavam, como que a recontar passo a passo o desenvolvimento da cidade, me fascinava a atitude visionária dos que captaram esses registros históricos com suas lentes. Primeiro, um imigrante, seu Guilherme Kuhn, porque em suas veias corria o sangue de um jornalista. O filho Hugo continuou sua saga e o neto Luís é hoje o guardião desse legado histórico, de valor imensurável.
O impressionante é que, diferente de todo mundo, os Kuhn não se ocuparam preferencialmente com registros de eventos, de encontros familiares, rostos de pessoas. Eles focaram o cenário urbano, as ruas que ganhavam forma, as praças ainda em construção, as indústrias que prosperavam, os desfiles carnavalescos de rua, a Catedral sendo erguida tijolo a tijolo.
A pergunta é inevitável: como seria contada a evolução de Santa Cruz do Sul desde suas origens sem o olhar talentoso e iluminado e as lentes desses personagens que deram vida à nossa história?
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