Nuvem+flor+gato(espaço)+gato+caracol+estrela+coração+sol(espaço)+árvore+nuvem+estrela+pássaro+sol, etc. Meu querido amigo: nem imaginas, querido confidente, o que me aconteceu hoje bem cedo, na hora que eu, completamente molambenta e descabelada, atravessava a rua para comprar pão e leite… Justo naquele momento, que vinha descendo a rua? Ele, claro! E eu querendo me enfiar no primeiro buraco…
Que menina, na adolescência, não manteve um diário cifrado? Cada letra substituída por um desenho, num caminho inverso de Champollion. Ficavam lindas aquelas páginas cobertas de hieroglifos. E, mais do que lindas, inexpugnáveis. O método assegurava sigilo às nossas confidências mais secretas, tratassem elas de paixões celestiais ou de rasteiros ódios. Não precisávamos medir emoções e elas escorriam pelas páginas com genuína intensidade.
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Havia um porém, talvez dois: o primeiro: para não esquecermos nosso código, mantínhamos, na última página, uma elaborada cópia daquele alfabeto particular. O segundo: as mães eram – e são! – vorazes caçadoras de segredos. Juntando os dois fatores, o que só conseguimos fazer depois de as tragédias acontecerem, não seria de estranhar que, numa discussão qualquer, elas, as mães, apresentassem novas e poderosas armas: Então, a mocinha ODEIA a própria mãe, aquela que lhe deu a vida, somente porque, para o seu BEM, não a deixou ficar até altas horas na quermesse da escola? Ou: Quer dizer que o seu pai fica simplesmente RI-DÍ-CU-LO repartindo o cabelo atrás da orelha esquerda e penteando para cima e para o outro lado, a fim de disfarçar a careca? Ele vai saber disso, vai mesmo!
O efeito era devastador. Jamais a mãe entenderia que só a odiávamos em certas circunstâncias, e que, no geral, a amávamos mais do que a qualquer pessoa no mundo. Do mesmo modo em relação ao pai: quase todo o tempo o adorávamos, com ou sem careca. Impotentes, maldizíamos a burrice.
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De ter deixado um flanco tão exposto. A vontade era de bater a cabeça contra as paredes do quarto, até que estourasse todos aqueles miolos inúteis. Na prática, queimávamos o Diário, jurando nunca mais escrever outro, juramento que durava até a próxima necessidade de confidências.
Gente querida, pena que senso de humor e adolescência sejam incompatíveis; poderíamos ter visto a graça de tudo aquilo…
Grata, todos os dias, por me lerem!
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