Caro Armando,
Que saudade da vó Ludi! Nossos primos Kraether foram privilegiados por terem passado a infância bem próximos dela. Hoje, na esquina onde ela morava (Thomaz Flores com João Werlang) foi construída uma farmácia. Curiosamente também uma farmácia funciona hoje no lugar onde ficava a casa da vó Marieta em Araranguá. Será coincidência ou existem mais farmácias que uma população saudável demandaria? Não me lembro de ver tantas farmácias na Alemanha.
Convivemos pouco com a vó Ludi porque não morávamos em Santa Cruz, mas o afeto era grande e recíproco, embora o Léo fosse o preferido. “Gosto de todos os netos igual, primeiro o Léo, e dos outros também.” Acho improvável que ela tenha mesmo dito isso alguma vez, mas a lenda é divertida. Por ti havia um carinho especial, pois carregas o nome da grande paixão da vó, que, infelizmente, nos deixou cedo demais.
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A Tia Lia me transmitiu recentemente um crucifixo antigo que pertencia à vó, herança da família Etges. O objeto é de madeira escura, de uns 20 centímetros de altura, incluindo a pequena plataforma. Fiquei muito honrado por ser o destinatário de um bem que é símbolo de outro bem ainda maior, a fé. No velório da vó, uma freira amiga dela mencionou que a vó viveu uma vida de profunda oração. A vida é envolta em mistérios. Será que a Vó Ludi, lá do céu, acompanha nosso Briefwechsel? Talvez devêssemos escrever em alemão para garantir que ela acompanhe.
Falando em cartas, uma lembrança da infância tem a ver diretamente contigo e foi a inspiração para uma sugestão que fiz a uma amiga, a professora Leda Fischer, de Arroio do Meio, para que seus aluninhos de alemão trocassem correspondência com crianças alemãs. Ela aceitou o desafio e conseguimos viabilizar uma ponte com uma escola de Rheinland-Pfalz. Golaço! O gatilho da sugestão foi a lembrança de que tu, lá pelos 13 anos, te correspondias com uma tal Sonja, da Alemanha. Isso me marcou muito, até porque eu sentia, mesmo sendo uma criança, que tu gostavas bastante dela.
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Na canção “Das Mädchen aus Rottweil”, o Campino fala dessa atendente da loja de um posto em que o ônibus do Toten Hosen parou para abastecer, perto de Rottweil. A troca de olhares o atingiu como um raio, mas os pés dele o levaram automaticamente de volta ao ônibus e ele nunca mais a viu. Nem seu nome ele sabe. E, anos depois, ainda se pega imaginando como ela estaria hoje.
Não sei se a Sonja é a tua garota de Rottweil. Eu tenho a minha, mas, ao contrário do Campino, ao menos o primeiro nome dela eu sei: Cornelia. Conheci-a em agosto de 1996, numa noite em Berlim. Eu, o Goetze e um amigo francês nos integramos – sei lá como – a um grupo de alemães e desbravamos os arredores da Oranienburger Straße: ônibus enterrado até a metade como se tivesse caído da lua, cinema projetando filmes antigos em um prédio sem paredes… Dentro do grupo, apenas uma garota, 20 anos, oriunda de Dresden, cabelo loiro curto e que estudava jornalismo em Berlim. Linda.
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Uns quatro caras não paravam de me hostilizar, tentando me tirar do páreo, mas eu resisti a noite inteira, com meu alemão intermediário, mas cheio de emoção. E ela me deu corda. Nunca nos falamos depois daquela noite de uma era sem internet. Espero que ela tenha tido uma vida feliz e que ainda viva muitos anos. Não faço ideia do que a vó Ludi pensaria disso tudo. Mas algo me diz que ela acharia bonito. Forte abraço!
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