Caro Armando.
Espero que estejas bem. As meninas estão bem, Gott sei Dank. A Helena anda absorta com a faculdade. A Ana, com o colégio. Aliás, o Sinodal está completando 90 anos e é comovente ver os depoimentos dos monstros sagrados da escola como o Udo Kunert e a Merlinde, que gosta muito de ti. Acho que tu foste um dos primeiros alunos de alemão dela. O ensino da língua alemã avançou muito lá. A Ana fala e lê alemão melhor do que eu quando tinha a idade dela. Ainda bem.
Cara, tuas observações sobre a preparação militar que está em curso na Alemanha e sobre os ventos políticos por aí fizeram-me pensar muito. Por aqui, o pessoal é gago em planejamento e eficiência, apesar da profusão de vídeos curtos no Instagram e de palestrantes encantadores de serpentes por todos os lados atestando o contrário. A palavra de ordem é inovação. Hubs de inovação pipocam em cada canto. Tem gente se dando bem com essa fumaceira. Salvo uma ou outra exceção, não consigo ver avanço real nisso, impactos concretos para o bem comum. Quero muito estar enganado. Essa moda pegou aí também?
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Teu diagnóstico da crise no CDU me lembrou de que é ano eleitoral por aqui. Aí fui procurar quais são as propostas dos candidatos ao governo do estado para o fortalecimento das relações com os estados alemães. Eu devo ser muito ingênuo para fazer isso. Que propostas, cara pálida? Planos de governo? Que silêncio constrangedor. Enquanto isso, São Paulo está voando com a parceria que eles já têm com o estado da Baviera e mais recentemente com Berlim. Quando a Karen Schneider me questiona sobre os motivos de não aproveitarmos as portas que foram abertas, graças ao Bicentenário, em Mainz e em Wiesbaden, tenho vontade de largar tudo de mão. Como é difícil abrir os olhos de quem está no poder! Alguns líderes até são lúcidos, mas parecem blindados por uma entourage medíocre que não deixa projetos transformadores decolarem. Visão curta, no mínimo.
No cenário nacional, a polarização virou “ou China ou Estados Unidos”. E picando na frente do gol a alternativa de um alinhamento geopolítico com a Alemanha que, bem ou mal, equilibra-se desde 1949 sem cair nas armadilhas dos extremos. Os paulistas e até os cearenses estão vendo isso. Nós, aqui no Sul, cheio de sobrenomes alemães, não somos capazes de emplacar essa oportunidade.
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Já te contei sobre a tese dos modelos de germanidade? Quando fui assistir às últimas edições do “Jugend debattiert”, em Ivoti e no Dohms, reparei que alguns estudantes sem sobrenome alemão, normalmente oriundos de São Paulo, não apenas falavam melhor como estavam mais conectados com a Alemanha contemporânea. Aí formulei a tese dos modelos de germanidade: o modelo nostálgico e o modelo pragmático.
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O modelo nostálgico é o do gaúcho, que associa germanidade ao passado, à história da imigração, ao folclore e à cuca da vó. Isso tudo é ótimo, mas é tão forte que parece turvar a visão para as oportunidades vivas, hoje. O modelo pragmático é o dos paulistas, mineiros e cearenses. Para eles, o que importa é cooperação técnica no presente, aproximação política e cultural, investimento, ciência, logística e infraestrutura, independentemente de terem ou não sobrenome alemão.
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Quando eu sugeri ao Sulz que incorporasse alguma das canções que tocamos no Geist, ele também reagiu segundo o modelo nostálgico. Pensou que eu estivesse me referindo a Volksmusik. Não é simples modificar uma mentalidade arraigada. Talvez eu devesse ter usado a palavra inovação.
Forte abraço!
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