Ocupar espaços de poder nunca foi uma concessão pacífica para mulheres negras e de origem periférica. Em comunidades moldadas por estruturas tradicionais e privilégios históricos, romper a barreira invisível do preconceito exige mais do que talento; demanda uma postura combativa e uma sólida bagagem de conhecimento. A trajetória de Marta Nunes ilustra perfeitamente essa dinâmica de confrontar o destino preestabelecido.
Criada em um contexto onde os recursos eram escassos e o sobrenome não abria portas, ela identificou no ensino público a única engrenagem capaz de subverter as desigualdades de partida. Sua caminhada, que começou nos bancos escolares locais e alcançou centros de excelência global, não se limitou ao acúmulo de distinções científicas.
O diferencial da educadora reside na decisão de retornar às suas raízes com ferramentas de transformação real. Longe de se isolar no ambiente acadêmico, ela transformou sua vivência em um motor de inclusão social, trazendo o rigor dos laboratórios para a realidade de jovens que, assim como ela, no passado, precisam de referências para enxergar novas perspectivas.
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Esse perfil examina os bastidores de uma vida pautada pela independência obstinada e pelo direito de ditar as próprias regras, ao mostrar que a verdadeira emancipação começa quando se recusa a pedir permissão para avançar.
A infância nos bairros da Zona Sul de Santa Cruz do Sul ensinou cedo a Marta Nunes uma regra que não estava nos livros de química: em uma cidade majoritariamente branca, os pontos de partida são desiguais. Filha de operários, ela percebeu, ainda menina, que não tinha um sobrenome de origem alemã tradicional ou heranças a receber. No entanto, tinha uma percepção aguçada do mundo – o que ela mesma define como uma mistura de inteligência e astúcia.
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Hoje, aos 55 anos, Marta é bacharel e licenciada em Química, mestre, doutora pela Universidade de São Paulo (USP), pós-doutora, professora universitária, ativista social e liderança política. Uma trajetória moldada por uma aposta alta e contínua na educação, mas, acima de tudo, por uma capacidade raramente perdoada em mulheres: a de se priorizar.
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A trajetória de Marta é a prova viva do poder transformador do ensino público. Da base na Escola Estadual Alfredo José Kliemann ao ensino médio técnico na Escola Estadual Ernesto Alves, ela trilhou cada degrau entre as maiores notas da turma. Quando passou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) para Farmácia, a realidade financeira de um curso integral a fez escolher o turno da noite e a Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), conciliando as salas de aula com o trabalho em escritórios e laboratórios.
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Essa vivência a transformou em uma entusiasta inabalável da educação como ferramenta de emancipação para grupos vulnerabilizados. Marta não apenas leciona há duas décadas na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), como faz a estrutura circular. No programa Meninas na Ciência, coordenou por dois anos um projeto de extensão na Escola Alfredo José Kliemann, levando meninas de 12 a 15 anos da periferia para o laboratório, despertando o interesse pela pesquisa. Desde 2021 está envolvida com uma formação conectada à Universidade Stanford e ao Instituto Canoa, de São Paulo, integrando atualmente o programa federal Mais Professores, do Ministério da Educação (MEC), para a capacitação continuada de docentes em todo o país.
“Se você fizer o seu curso e der o seu melhor, você vai conseguir. Vai ter a barreira do machismo, da misoginia e do racismo? Vai. Mas, sem a educação, você não avança nada”, defende.
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O “egoísmo” saudável: a arte de se colocar em primeiro lugar
Se a carreira acadêmica de Marta é brilhante, é porque ela teve a coragem de tomar decisões difíceis e assumir o preço delas. Em uma sociedade que molda mulheres para o sacrifício e a abdicação, Marta escolheu caminhos diferentes.
Quando passou no mestrado na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), estava noiva, com entrada dada em um apartamento em Santa Cruz do Sul e emprego garantido. Largou tudo. Pediu demissão e partiu para Santa Maria com um colchão no ônibus. O noivado não resistiu, mas a convicção sim. Mais tarde, no doutorado na USP, o mesmo se repetiu com o atual marido, Flavio: ela arrumou as malas e foi para São Paulo.
“Eu sou vista como egoísta por muita gente. E daí? Em várias situações, me coloquei em primeiro lugar, tanto em decisões pequenas quanto nas maiores, profissionais ou pessoais. E tenho absoluta certeza de que tomei a decisão certa.”
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Essa firmeza também se refletiu na maternidade. Quando engravidou do filho Francisco, aos 35 anos, Marta se afastou completamente do laboratório devido aos riscos químicos. Viu seu currículo acadêmico desacelerar enquanto a carreira do marido ascendia, mas se manteve firme na escolha de viver aquele tempo, chegando a pedir uma licença de um ano, sem salário, para se dedicar exclusivamente ao filho.
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Curiosidades de um espírito sempre inquieto
Quem olha para a cientista rigorosa que já fez pós-doutorado na Universidade da Califórnia (UC), em Davis, nem sempre enxerga as peculiaridades que tornam Marta uma figura singular.
No ano passado, enquanto o filho se preparava para o vestibular, Marta decidiu se inscrever no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) apenas para entender a experiência da prova. No domingo do exame, simplesmente esqueceu o compromisso e preparava uma caipirinha quando o marido a alertou. Entre risadas, largou o copo, foi levada por ele até a porta do local de prova e fez o teste. Sem ter estudado e nem se preparado para o formato exaustivo do exame, sua pontuação final foi suficiente para ingressar no curso de Direito na UFSM.
Uma grande atuação também é na cultura. Desde 2008, Marta é uma das mentes por trás dos projetos sociais aprovados da Sociedade Cultural e Beneficente (SCB) União, o histórico clube negro da cidade que completou 103 anos e que faz parte da trajetória da doutora. Ela aprendeu a entender editais públicos, acessar redes de parceria e captar recursos estaduais e federais, garantindo diversos diferenciais para a entidade.
Após disputar as eleições municipais de 2024 como candidata a vice-prefeita, o horizonte de Marta continua mirando alto. Embora pondere os impactos em sua carreira acadêmica, planeja uma futura candidatura a vereadora e não descarta disputar a política universitária.
Para Marta, o motor atual não é o ganho financeiro, realidade que considera confortável e resolvida, mas a ocupação legítima de espaços de poder por quem tem a propriedade de representar mulheres negras e periféricas. Entre a ciência, a política e a inquietação herdada de sua mãe, hoje com 85 anos, Marta continua provando que o laboratório da vida exige coragem para misturar os elementos certos, mesmo que a reação desagrade a quem prefere o status quo.
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Trauma de carnê
A infância de orçamento apertado, pagando as contas “boleto a boleto” e parcelando o rancho do mês, gerou um hábito rigoroso: Marta não parcela praticamente nada. Carro, casa ou compras menores, tudo é planejado para ser pago à vista.
O kit fiador
No doutorado na USP, Marta foi acolhida por uma orientadora que se tornou sua fiadora e mentora. Ao descobrir que a professora guardava um “kit fiador” para ajudar estudantes de fora de São Paulo, Marta adotou a filosofia de repassar o apoio, tornando-se também uma rede de suporte financeiro e habitacional para seus próprios alunos de pós-graduação anos mais tarde.
O retorno e os espaços de poder
Marta sempre soube que precisava sair de Santa Cruz do Sul para progredir sem as amarras invisíveis do preconceito local. Entretanto, o plano sempre foi voltar com bagagem. No retorno, ela canalizou sua capacidade técnica de estruturação de projetos científicos para o terceiro setor.
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