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CONVERSA SENTADA

Relato do intercâmbio

Eu fui criado “a tripa forra”. Na casa dos meus pais tinha almoço feito com comida nova quase todos os dias e três ou quatro opções de frutas. Ainda que eu já tivesse algumas responsabilidades fora do ambiente doméstico, eu não tinha real dimensão do ambiente privilegiado que meus pais me proporcionavam. Até que, em 18 de julho de 2011, embarquei para o Canadá para fazer um intercâmbio.

Fernando Pessoa dizia que é preciso sair da ilha para enxergar a ilha. Senti na pele essa metáfora quando cheguei no colégio interno onde estudei. Ficava em Hamilton, região metropolitana de Toronto. A cidade era, como dizia um colega meu, “uma Bento Gonçalves grandinha”. Morei num alojamento com 43 rapazes de sete nacionalidades, todos entre 15 e 17 anos. Nos nossos momentos de convívio na lavanderia, aprendi a dividir só duas pizzas para toda aquela galera.

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Ao invés de ter o meu quarto – que eu reclamava ser pequeno – eu dividia dormitório com outros três colegas e dormia na cama de cima de um dos dois beliches. Dormia bem, mas somente depois que o sol parasse de entrar pelos espaços entre as persianas. Era verão e não anoitecia antes das 22h30. 6h20 chegavam os ônibus escolares amarelos, que também passavam pelo alojamento feminino antes de nos descarregarem no pátio da escola.

7 horas batia o sinal. Eu tinha aulas de história, geografia, matemática, inglês e francês. 9 horas breakfast, 12 horas almoço e, incrivelmente, às 17 horas era oferecida janta após o final das aulas. O cardápio era sempre o mesmo: pão, batata assada, bacon e ovo mexido, além dum arroz empaçocado, sem sal e impalatável. Obviamente, eu sentia muita fome até conseguir dormir.

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Um dia, lá pela quinta semana, consegui trazer laranjas do colégio de uma forma não convencional. A gurizada fez fila no corredor do alojamento enquanto eu distribuía as frutas para quem quisesse. Assim descobri que ainda me sobram instintos de bicho e aprendi que a dificuldade une as criaturas muito mais do que a fartura. Eu tinha notas para ficar estudando até o final do ano e, a depender do meu rendimento, concluir o college por lá… mas bem capaz!

Retornei ao Brasil quando terminou o trimestre, pesando 11 quilos a menos. Faz 15 anos que passei pela experiência que me ensinou a dar valor à carne, ao feijão, às frutas, às coisas de dentro de casa e à união entre as pessoas. Apesar dos perrengues, não me arrependo nem um pouco do que vivi no Canadá. Foi importante para o meu crescimento, assim como todos os tempos difíceis acabam sendo para quem tem para onde voltar.

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