O professor, filósofo, pesquisador, ensaísta, escritor e tradutor santa-cruzense Flávio René Kothe é autor de mais de 60 livros, em variados gêneros, além de cerca de 600 artigos ou ensaios. Em relação a todos, talvez O bem-te-vi e a folha amarela, que acaba de lançar pela editora paulista Cajuína, possa ser classificado como um acerto de contas, ou tentativa de passar a vida a limpo. O gênero de texto adotado para a tarefa foi a narrativa ficcional curta, o conto, que, no caso, se presta a estabelecer recortes que, em muitos aspectos, se valem da autoficção. Mas não só.
Longa vivência nos estudos acadêmicos e culturais e na docência, dentro e fora do País, transformaram Kothe em um pensador de citação recorrente nas ciências humanas, o que se estende da filosofia à história, das comunicações sociais à literatura e às letras em geral. Hoje na condição de professor titular aposentado de Estética junto à Universidade de Brasília (UnB), cidade onde reside, e em vias de completar 80 anos em novembro, ele segue com uma intensa atividade intelectual, inclusive com a revisão e atualização de vários de seus textos clássicos. Nesse sentido, seu mais recente livro repassa passagens, vivências e situações com as quais lidou, na vida pessoal e no universo profissional.
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Em 30 contos, narra situações que iluminam a caminhada pessoal e em família. Mas não são poucos, igualmente, os momentos em que a história no Brasil e no grande mundo deixa de ser pano de fundo para estar em primeiro plano: licenciado em Letras, mestre, doutor e livre-docente em Teoria Literária, foi perseguido pela ditadura e perdeu o cargo que ocupava na UnB. Atuou ainda como professor na PUC-SP e na Universidade Federal de Goiás, além de ter sido catedrático visitante na Universidade de Rostock, na Alemanha.
Finalmente anistiado, conseguiu retornar à Universidade de Brasília, onde é professor titular aposentado de Estética, pesquisador sênior, e editor da Revista de Estética e Semiótica. É integrante da Academia de Letras do Brasil, sediada em Brasília, e dá continuidade a uma prolífica e eclética obra.
“Nenhum dia sem escrita; e nenhum sem ler”
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Bem-te-vi e a folha amarela, novo livro de contos do santa-cruzense Flávio R. Kothe, estrutura-se em torno de três eixos temáticos principais, a partir dos quais eventualmente deriva para assuntos correlatos: a infância e a vivência familiar em uma comunidade oriunda da colonização alemã, conjunto que de algum modo remete a Santa Cruz do Sul; o período da formação acadêmica e da atuação profissional, marcada pelo pano de fundo da ditadura militar e da perseguição que por fim o levou a uma temporada no exterior, marcadamente na Alemanha; e textos de abordagem claramente ficcional.
Entre esses, um se salienta com uma qualidade e um vigor que o qualificam a ser uma pequena obra-prima. É “Leopoldina”, curiosamente o 15o entre os 30 do volume, portanto enfeixado na exata metade do conjunto. Nele, a imperatriz do Brasil repassa a sua própria vida, e manifesta seu olhar, de descendente de Habsburgo, que cresceu na corte de Viena, sobre a relação com D. Pedro II e seu carinho pelo Brasil e por seu miscigenado povo. É um texto que eleva o conto de Kothe ao mais alto grau da literatura contemporânena no Brasil.
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Ainda que, independente de períodos ou épocas nos quais os enredos estão situados, o ponto de vista é contemporâneo, de um autor firmemente situado no presente, há ao menos um conto, “Cão de Gaza”, que evidencia o quanto Kothe segue atento aos dramas e às mazelas dos tempos atuais. Eis um livro que, se se apresenta como um lúcido de uma trajetória, é também um pungente recado ao futuro.
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Entrevista – Flávio R. Kothe, professor e escritor
- Gazeta do Sul: Em que medida o conto se prestou melhor a esse projeto de repassar a sua vida?
O conto ainda conta com espaços de publicação em jornais literários e revistas eletrônicas, de modo que há um estímulo social para a sua produção, tendo o autor uma resposta quase imediata de parte dos leitores. Um romancista daqui [Brasília] me chamou a atenção para a liberdade que eu assumia como eu-narrador, algo que eu sequer tinha atentado. Todo conto é centrado em um evento, um episódio, que é sintoma de algo maior. Nunca temos a possibilidade de chegar à totalidade de algo. Temos de operar, então, com constelações de sintomas, pontos estratégicos que permitam iluminar aspectos significativos do todo. Os contos brotam do escuro e do obscuro, para tentar iluminar um trecho da noite.
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O bem-te-vi e a folha amarela é o balanço de uma época, mais da vida social do que pessoal. A crônica fica presa à narração de algo que ocorreu; o conto tem a liberdade da ficção, para se desprender dos fatos e dizer algo outro, deixar transparecer algo além, nisso que é contado. Os contos reunidos formam diversas constelações, com a qualidade diferenciada do cronotopos, que cada um constitui enquanto é constituído por ele. Em Proust se pode ver como o que é narrado em primeira pessoa pode ser muito mais inventado do que o contado em terceira pessoa. A verdade da ficção não está em reproduzir de modo exato o que teria ocorrido – afinal, cada um tem sua versão dos fatos – e sim em transmitir, numa vivência inventada, o que vale por si e não pode ser dito melhor por conceitos e outras linguagens.
- Vários textos compreendem autoficção?
A autoficção parece reaproximar o conto da crônica, enquanto narração de algo ocorrido. Isso pretende ser verdade enquanto equivalência entre o fato e o que é narrado. O eu-narrador também é, no entanto, uma ficção; o alter-ego também é um ego alterado; o autor pode se mostrar pior ou melhor do que ele é: de qualquer modo, ele se inventa. Não digo que estamos na era da pós-verdade, mas da revisão do conceito de verdade, pois ele próprio era falso. Supor que há uma equivalência entre res et intellectus não é verdadeiro, pois o que está na mente nunca é igual nem vale o mesmo. Todo fato é feito de interpretações, ele nunca é algo em si completo.
Devo completar 80 anos em novembro. Chegou o momento de fazer um balanço do que foi a vida que tivemos e dar um testemunho para as gerações mais novas e as vindouras. O texto precisa manter o frescor, mesmo que seja lido em 30 ou 40 anos.
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O jornalista e o historiador procuram se ater a fatos relevantes, evitando a ficcionalização do texto. O conceito de verdade neles é a adequação do narrado ao fato. O crente que lê um texto sacro acredita que tudo ocorreu conforme é narrado no texto: ele não capta a ficção e a deformação que permeiam tudo. O ficcionista aparenta ser um mentiroso descarado, pois fica contando coisas que não ocorreram, como se tivessem ocorrido, como se tivessem ocorrido conforme é contado. O cronista antigo colocava no mesmo pé eventos decisivos do Estado e detalhes do cotidiano da realeza. Detalhes podem e devem ser sintomas de algo maior. Uma obra de ficção narra eventos que parecem singulares, mas são participações significativas em um todo mais amplo. Assim como o sonho rememora cenas da véspera, captando o seu sentido simbólico, o conto busca acenar a transcendência que há no que nele há de literal.
A chave é ver como se articula um evento singular com algo transcendente, mas não como exemplificação de um conceito anterior ou uma generalização abstrata, e sim como manifestação particular de algo mais amplo. Contra o positivismo, Nietzsche dizia: “Não há fatos, somente interpretações. Mas também isso é uma interpretação”. O fato histórico é constituído pela historiografia, sim, mas também é constitutivo do que merece ser reconhecido como pertencente ao relevante da história. O imanente ao conto deve ser transcendente, sem ser transcendental.
- Santa Cruz se presentifica ou ressurge na ficção em vários contos. O que Santa Cruz representa para o senhor hoje?
O bem-te-vi e a folha amarela é um livro muito santa-cruzense, mas não sei se a cidade vai reconhecer ou/e aceitar isso. Nasci e cresci em Santa Cruz. Tenho irmãos, primos e sobrinhos morando aí. Mantenho o costume de começar o dia lendo a Gazeta do Sul. A cidade é, para mim, mais importante que outras cidades maiores em que vivi, como Porto Alegre, São Paulo, Berlim, Rostock. O que eu relembro não é, no entanto, apenas algo que exalte a cidade, ainda que eu tenha procurado lembrar eventos engraçados, peculiares. Ressuscito vidas pretéritas que já desapareceram na cidade, mas continuam significativas.
Tenho a honra de pertencer à Academia de Letras da cidade e acompanho de modo virtual o que nela se faz. Perdi nos últimos tempos a minha mãe, minha irmã, a prima e a cunhada mais próximas. Essa sensação de vazio avolumou lembranças, fatos para mim relevantes que retornam com seu caráter simbólico, sua significação transcendente ao evento havido.
Tive a oportunidade de conviver com intelectuais relevantes do país, como Florestan Fernandes, Antônio Cândido, Jacob Gorender, Ângelo Ricci. Convivi com intelectuais de fora, como Peter Szondi, Heiner Müller, Paul de Man, Fredric Jameson. Sofri na pele a repressão da ditadura, mas entendi também que havia traços de valores antigos de Santa Cruz que favoreciam a política repressiva. Vejo que as novas gerações já não passam por aquilo que a nossa teve de sofrer. Fico contente por isso. O balanço do livro é entre tendências fascistas e democráticas do país, algo também decisivo no que vai se encaminhar nas próximas eleições. Se os agentes da repressão precisam esconder o que fizeram, quem sofreu tende a calar porque não quer viver em função do inimigo, mas há o momento em que ele precisa contar para exorcizar o funesto.
- O senhor está em vias de chegar aos 80 anos, em novembro. Essa obra é também uma espécie de contabilidade de uma vida?
Sim, os dois contos iniciais e os dois finais indicam isso claramente. Os dois primeiros são uma cena que se repete num barbeiro: uma, antes das eleições; outra, depois. Esse barbeiro já leu o livro e ficou admirado como eu lembrava em detalhe o que havia ocorrido anos antes. Os dois finais são o diálogo entre um bem-te-vi e uma folha amarela que cai da árvore, tendo o pano de fundo da agonia e morte do dono do terreno em que vivem. Tem-se aí uma reflexão sobre a fragilidade da existência, mas a folha diz que ressurgirá virando adubo na terra, enquanto o bem-te-vi dá a entender que vai ressurgir em outro pássaro igual a ele. O meu amigo Ênio Squeff, que mora em São Paulo e foi premiado como ilustrador, fez os quadros que ilustram a capa.
Estou fazendo a revisão de ensaios que escrevi no mesmo período de 2023 a 2025 e foram publicados na revista eletrônica A Terra é redonda, que tem mais de 400 mil visualizações por mês. Devem formar um livro paralelo, conceitual. Discuto a redução das categorias analíticas de dez para sete, daí quatro e, hoje, para uma, como se a quantidade pudesse definir tudo. Perdeu-se a noção dos vários sentidos da qualidade em Aristóteles, desde a estrutura geral, o estado de algo e sua peculiaridade até a impressão que causa no sujeito.
Hegel tem observações muito interessantes sobre como certa quantidade pode não ser idêntica a si mesma por haver uma diferença qualitativa. Um texto consegue ser arte se houver nele uma diferenciação de qualidade que faz com que não se esgote num momento ou lugar.
Mesmo que um livro contenha textos melhores que a média, isso não significa que será reconhecido como tal e precificado proporcionalmente no mercado. Tanto o nível cultural do público comprador pode inibir que uma qualidade diferenciada seja apreciada e valorizada quanto o narcisismo pode levar o autor a imaginar que sua obra seja melhor do que de fato é. Não se pode simplesmente crer que o futuro vai redimir injustiças presentes. Quem cria, esse age como a parturiente que não pode fazer outra coisa senão parir o que está dentro dela. Quem lê, esse lê um texto diferente do que era para o autor. O que temos a fazer hoje diante de um livro novo é dar a conhecer que ele existe e está à disposição no mercado.
- O que a leitura e a literatura representaram para o senhor, e o que ainda hoje cumprem em seus dias?
Aprendi no Liceu São Luís: “nulla dies sine linea”. Nenhum dia sem escrita; e nenhum sem ler. O mundo imaginário compensava, na infância, as limitações e dores do real; hoje, na velhice, permite reelaborar vivências antigas e fazer delas significações que vão além de mim. Nesse novo livro de contos, relato fatos da repressão em Santa Cruz e nos governos militares. Conheci gente que foi exilada, torturada, destruída, mas eu me guardei para contar; achava que, embora sofrendo, os inimigos não mereciam o prazer de me ver abatido. Contei certas coisas para que elas não voltem a acontecer. Mesmo quando parecem íntimas, não são coisas privativas. Achei que deviam ser contadas como sofridas lições. Procurei transmutar a vivência, mesmo quando dor, em prazer da leitura.
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