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ENTREVISTA EXCLUSIVA

“A palavra, para mim, sempre foi motivo de encantamento”, afirma Rossyr Berny

A poesia pressupõe um olhar inspirado e sensível sobre o mundo e sobre a condição humana. E é por essa via que o gaúcho Rossyr Berny mira a existência há exato meio século. Natural de São Gabriel e desde 1973 radicado em Porto Alegre, aos 73 anos, celebra 50 anos desde a sua estreia com o livro “Homem-autômato”, em 1976. Nos anos e nas décadas seguintes, concretizou uma obra que, pela qualidade e repercussão em âmbito nacional, levou-o à Academia Rio-grandense de Letras e, mais recentemente, a se tornar o primeiro presidente do Fórum Rio-grandense das Academias de Letras.

Em sua produção, composta por mais de duas dezenas de títulos, e que mereceu apreciações críticas que igualmente resultaram em livros, evidencia sua compreensão do papel social de cada pessoa, o que transparece num compromisso do poeta de também desvelar as injustiças e os desmandos em sociedade. Sua missão, em grande medida, é, desde o princípio, des-automatizar o ser humano, chamando-o a ser coerente com as causas maiores na cidadania.

Rossyr é essencialmente poeta, ainda que tenha publicado também romance. A produção literária caminha em paralelo a sua atuação como jornalista, e logo como editor, tendo fundado a Alcance, em 1985, com a qual publicou um amplo catálogo de autores gaúchos em todos os gêneros, inclusive vários de Santa Cruz do Sul e do Vale do Rio Pardo. Além da formação no Jornalismo, pela PUCRS, iniciou o mestrado em Teoria da Literatura, na mesma instituição.

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Sua obra foi ainda reunida em algumas antologias, como Volta ao mundo em 500 poemas, de 2014, e 101 poemas escolhidos, em seleção feita pela professora e escritora Jane Tutikian, em 2018. Mais recentemente, em Arco-íris noturno: rios e florestas respiram por aparelhos, de 2024, tematizou o drama decorrente das mudanças climáticas contemporâneas. E em 2026, por ocasião de seus 50 anos de dedicação à poesia, novos projetos devem ser colocados em prática, como ele antecipa em entrevista exclusiva, concedida por escrito, com o envio de questionamentos e respostas em mensagens por WhatsApp.

Entrevista Rossy Berny — jornalista, escritor e editor

Gazeta do Sul – O que levou o senhor para o jornalismo e a literatura?

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Rossyr Berny – A palavra, para mim, sempre foi motivo de encantamento. Um estranho contraste entre onde eu vivia, com muitas precariedades, quando rapaz, e as aventuras que o jornalismo indicava. Formei-me na PUCRS, em agosto de 1980. Por algum tempo trabalhei na Folha da Manhã, da Caldas Jr, na mesma redação do Correio do Povo. Ao mesmo tempo, trabalhava no antigo Banco Sulbrasileiro, hoje Santander. Em 1979, durante o regime militar, nós, bancários, fizemos a primeira greve depois do golpe de 1964. Resistimos por 19 dias. Resultado: terminou a greve, terminou meu emprego. Demitido.

Naqueles tempos, findou meu casamento. Separado, tinha de pagar pensão à antiga esposa e a nossa amada filha. Eu já havia publicado seis livros de poemas. Pronto. Saído do Banco, saí do jornal e parti Brasil afora, vendendo meus livros. Nos meses de veraneio, autografava nas praias e, nos demais tempos do ano, visitava escolas e universidades de vários estados e países do Mercosul, dando palestras, declamando meus poemas e vendendo os livros. Funcionou muito bem, até que veio a criação da editora Alcance. Mas conto mais tarde.

O senhor poderia fazer um breve relato da caminhada de formação?

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Depois do jornalismo, cursei a Faculdade de Formação de Professores, na São Judas Tadeu. Voltei à PUCRS e cursei o mestrado em Teoria da Literatura. Mas precisei continuar Brasil afora vendendo livros, por anos. Quando consegui tempo de realizar a dissertação final para o título de mestre, já havia passado o tempo máximo para tal. Mas ficou o mágico saber sobre literatura, autores, cultura, enfim. Inapagáveis.

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De que maneira a tarefa e o trabalho de editor se apresentaram e se estabeleceram, e quais os momentos mais marcantes nessa trajetória?

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Em meados dos anos 1980, com as aventuras de viagens, também ao interior gaúcho, um grupo de poetas e eu voltávamos de carro de Tapes e Camaquã, quando o hoje reconhecido escritor e jornalista Landro Oviedo, do Correio do Povo, sugeriu-me: “Rossyr, como tu publicas os teus livros, por que não crias uma editora para publicar os escritores em geral?” Foi o que fiz, e hoje temos há 42 anos a editora Alcance, com milhares de títulos publicados e o Landro Oviedo como padrinho.

Por que a poesia? Como ela se revelou e se estabeleceu como via de expressão?

A poesia e eu nos escolhemos quando nascemos, como forma de expressão e sobrevivência. Gêmeos univitelinos. Pura sobrevivência pelas precariedades, inclusive sobreviventes de inúmeras enchentes nas casas ribeirinhas de nosso pobre bairro em São Gabriel. Juntos, desde sempre.

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Outros “sentimentos”, profundos, ainda sem verbalização ou textos, foram sentidos aos 14 anos, menino, ainda. Eu fugia de casa às noites para cuidar de duas crianças recém-nascidas, filhas de duas “moças da vida”, elas com 20 anos. Eu deixava meus pais dormirem para cuidar das crianças e as mães saíam para ganharem suas sobrevivências. Eu preparava as mamadeiras no velho fogão a lenha – trazida com meu esforço, durante o dia, do outro lado do Rio Vacacaí – e trocava as fraldas de pano. Apenas me atrapalhava um pouco quando as duas choravam ao mesmo tempo. As mães voltavam do trabalho pela madruga e eu ia para minha casa. Ah, a grande recompensa vinha quando uma ou outra, vez ou outra, me puxava para baixo de seus lençóis. Aquilo que era vida boa!

Até que, muito tempo depois, meu pai me descobre fujão. Eu saía e voltava pela porta dos fundos, abrindo uma janelinha em losango na porta que eu deixava providencialmente destramelada. Pois aconteceu uma noite em que meu pai acordou ao ouvir ruídos de um pequeno braço invadindo a janelinha da porta.

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Lembro a vida toda, com nitidez, o braço de meu pai erguido com um facão enorme, com sua lâmina refletindo a claridade da lua às minhas costas, pronto para descer e partir meu braço de rapazote.
– Pai, sou eu!!! – gritei. Mantive meu braço no corpo, mas até hoje lembro da surra que levei aos 14 anos.

Meus primeiros versos escritos vieram aos 17 anos, quando meu destino cruzou com o de uma moça que, em férias escolares, veio de outra cidade visitar familiares que moravam perto de minha casa. Sem muitas palavras, nem um toque ousado, mas um sentimento novo. Voltou para sua cidade com meu primeiro poema. Isso foi tudo. O milagre dos primeiros espantos, em versos.

Depois disso, em 1970, veio um ano interno em escola rural; 1971/73, serviço militar e vinda para Porto Alegre, meu segundo mundo de semeaduras e colheitas em forma de poesia, livros e filhos.

Na tradução, que trabalhos foram mais instigantes e prazerosos? Há outros projetos em vista na área?

O encanto pelo espanhol vem do tempo de viagens com meus livros aos países do sul da América. Ah, antes disso eu criei uma coletânea bilíngue, com quatro volumes de 300 páginas e poetas destes países e chamei de MERCOPOEMA, imagine! Ah, cinco livros traduzidos ao português: Carlos Higgie, Nélida Manfrú e Rubinstein Moreira. Tenho em preparo uma antologia bilíngue em comemoração aos meus 50 anos de literatura.

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O que representa para o senhor a eleição para a Academia Rio-grandense de Letras? O que a academia pode fazer e faz?

Reingressei na Academia Rio-Grandense de Letras há quatro anos. E por estas duas gestões sou vice-presidente, o que me envaidece muito. Mas há a responsabilidade de trabalhar por uma entidade com 125 anos de fundação – somente quatro anos mais nova que a Academia Brasileira de Letras. Salta aos olhos o fato de que as conquistas do passado foram o lastro cultural para sermos ainda maiores, com a responsabilidade de evoluirmos bem mais.

O senhor também está na presidência do Fórum das Academias de Letras. A integração está sendo muito proveitosa?

No Congresso das Academias Estaduais de Letras, realizado em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, ficou decidido que seria criado o Fórum Brasileiro das Academias Estaduais de Letras, uma entidade para defender, de forma unificada, as políticas das academias estaduais. O fórum foi criado no congresso seguinte, em Belém do Pará, para o qual o presidente da Academia Rio-Grandense de Letras, escritor Airton Ortiz, foi eleito um dos seus diretores.

A seguir, por iniciativa de Airton Ortiz, foi criado o Fórum Rio-Grandense das Academias de Letras, filiado ao Fórum Brasileiro, para coordenar as academias do nosso Estado. Para liderar esse movimento e implantar o Fórum gaúcho, Ortiz convidou-me, na condição de vice-presidente da ARL. Fui eleito no Congresso Estadual das Academias de Letras realizado em Santa Cruz do Sul.

O que mais se apresenta à memória do senhor num olhar retroativo para esses 50 anos de poesia?

Os tempos de brisas e temporais transcorridos nestes últimos 50 anos no Brasil muito claramente refletem suas imagens nos meus 50 anos de literatura, entre júbilos e tragédias. Paralelamente, feito gêmeos univitelinos, purgamos juntos os tempos de A.I. 5, calabouços, anistia, redemocratização, pandemia de Covid e igualmente a caminhada de meus 23 livros publicados até este ano. Mais três inéditos estão em preparo. De Homem-autômato à antologia saindo, 50 anos em 550 poemas, passando por Arco-íris noturno, um de meus livros de maior ousadia, júbilo e dores, como que purgando a mortandade de 700 mil brasileiros abatidos pelo coronavírus.

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Como igual e relevante conquista, o Delfos, Departamento de Cultura e Registros da PUCRS, desde 2018 vem recebendo os principais registros sobre minha vida e obra  literária. Dessa maneira, o público universitário tem a possibilidade de estudar, através da escrita de teses e dissertações, minha obra completa publicada nas últimas décadas. Dos 103 escritores no acervo, sou o único poeta vivo.

O olhar para o social sempre se evidencia nos textos do senhor. O que o impele?

Impossível não nos assustarmos com o fato de que 5% da população é dona de 95% das riquezas do Brasil. Um disparate assustador. E a opulência e a miséria cada vez mais contrastantes. Um mínimo de sensibilidade já nos deveria fazer melhores. A ganância leva ao poder, que leva às guerras e à destruição geral. Um míssil em escola mata 170 crianças. E ninguém responde por isso. Solidariedade e justiça social deveriam ser missão, não favor.

Por outro lado, há o aspecto ambiental. A literatura pode mudar, de algum modo, o curso dos desastres?

Desde menino, junto ao Vacacaí, vejo devastação, assoreamentos, poluição, esgotos escorrendo diretamente ao rio. São grandes os prejuízos causados pelas enormes empresas no mundo. Desabafei um pouco em meu 23º livro, Arco-íris noturno: rios e florestas respiram por aparelhos. Denunciar as ruínas ecológicas pode não bastar, mas já é uma resistência.

O senhor se compreende hoje um ser urbano ou um ser rural, ou tudo ao mesmo tempo?

A vida é um grande corpo, com sentimentos distintos em cada parte do todo.

Que sonho alimenta, e que espera ver concretizado?

Que a dignidade humana seja uma embarcação comum a todos, e não apenas aos filhos de divindades.

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Que livros ou que autores entende que ajudaram a formar o Rossyr e sua visão atual de mundo?

Sempre me encantaram os romancistas franceses, como Victor Hugo, Balzac, Proust e Camus. Em nossa América, todos os louros para Gabriel García Márquez, Neruda e os de casa, como Ferreira Gullar, Drummond, João Cabral, Quintana.

Quem o senhor está lendo, e quem tem na mesa de cabeceira, para em breve?

Lendo a Obra reunida do poeta Oliveira Silveira. E uma pilhona de dar vergonha por avançar tão lentamente, devido a tanto trabalho.

O que o Rossyr que completa 50 anos de literatura enviaria como recado para o Rossyr jovem? E que recado envia para o Rossyr de dentro de dez ou 20 anos?

Que, de todas as maneiras, multiplique suas fórmulas para os zelos com o ser humano, sobretudo os desassistidos e injustiçados. E que o sopro pela frente seja um vendaval de bons versos.

E que recado envia para o leitor?

Com as três palavras que meus pais, que não tiveram chance de frequentarem uma escola sequer, recomendavam aos seus 13 filhos que sobreviveram, dos 18 que tiveram, e frente a todas as dificuldades possíveis, recomendavam: – Estudem, estudem, estudem!

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Um depoimento sobre o autor

Sempre achei que um crítico de literatura deve estudar todas as matérias referentes aos segmentos de Humanas e Linguagens, e até por isso não parei até agora, aos 57 anos. Minha nona especialização (quase todas por universidades federais) se chama Educação Ambiental e Sustentabilidade e é oferecida pela Unipampa. Nas graduações em que me matriculo (já foram quatro), nas especializações e no mestrado em Literatura Brasileira pela Ufrgs, sempre direciono a coisa para a literatura, uma vez que estou em atuação na crítica literária desde 1990, quando comecei com uma coluna no Jornal Radar, de Canoas, vinculado a um veículo de Santa Cruz do Sul. 

Foi quando notei que o Rossyr Berny publicou o livro mais revolucionário da história da literatura quem sabe até mundial e que tem tudo a ver com Educação Ambiental e Sustentabilidade e decidi escrever o meu Trabalho de Conclusão de Curso a respeito dele – Arco-Íris Noturno, rios e florestas respiram por aparelhos (2024). Este, com riqueza tamanha que me senti desafiado a transformar minha tese em um livro sobre o Arco-íris noturno, abordando, desta vez, sua parte referente à preocupação ecológica e aos danos provocados à natureza. O subtítulo do livro é enormemente desafiador: “Rios e florestas respiram por aparelhos”. Aguardem a publicação deste meu novo trabalho sobre a obra do Rossyr, que é considerado um dos melhores poetas contemporâneos pela doutora em Literatura Jane Tutikian.

Eduardo Jablonski
Exclusivo para a Gazeta do Sul

Jablonski é graduado em Letras Português e Inglês (Unilasalle), Filosofia (Ufpel), Letras Espanhol (Ufpel) e está cursando Faculdade Tecnológica em Tradução e Interpretação em Libras (Furg). Mestre em Literatura Brasileira (Ufrgs); tem 39 livros individuais publicados na área de crítica literária, entre eles A rebeldia poética em Rossyr Berny, de 2018.

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Um poema — “Do ofício de libertar fantasmas”

“Do ofício de libertar fantasmas”

Até os 20 anos
não via único livro em casa

Lutava-se pelo exíguo alimento à mesa
para quase 20 bocas

Nenhuma obra em poesia
Nenhum romance para viajar

Mas sentia multidões de fantasmas
indicarem-me lápis e papel

Nenhum livro em poesia
Nenhum romance até meus 20 anos
quando decidi sair de casa

Tudo o que tenho feito a partir daí
é correr mundo
A libertar fantasmas

Os 500 que mais me assombraram
– criar e alforriar –
de mãos dadas damos voltas ao mundo

(Do livro Volta ao mundo em 500 poemas).

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