“21 de setembro de 1945. Essa foi a noite em que eu morri.” É essa frase que abre “O Túmulo dos Vagalumes”. Em uma estação de metrô, Seita agoniza enquanto aguarda pela morte. Quem passa pelo garoto, claramente desnutrido, prefere ignorá-lo ou reclamar da sua presença. Horas depois, seu corpo é retirado por funcionários que agem com indiferença, evidenciando que não é a primeira criança vítima da pobreza.
O jovem reaparece de pé. Seu espírito se reencontra com a sua irmã mais nova, Setsuko, rodeados por vagalumes. Eles iniciam uma viagem de trem que nos leva anos antes para testemunharmos os acontecimentos que antecederam o fim inevitável.
Entre todas as obras do Studio Ghibli, casa de clássicos como “A Viagem de Chihiro” e “Meu Amigo Totoro” (algumas das animações mais aclamadas do cinema), talvez nenhuma seja tão devastadora quanto a de Isao Takahata. Nos primeiros minutos, o cineasta deixa claro que o desfecho de Seita e Setsuko será trágico. Qualquer esperança por um final feliz é rapidamente eliminada. A partir daí, acompanhamos os irmãos tentando sobreviver em meio ao colapso provocado pela Segunda Guerra Mundial.
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Apesar disso, a força de “O Túmulo dos Vagalumes” não está em sua conclusão, mas na jornada humanizada dos irmãos órfãos que tentam sobreviver ao conflito e à fome. Primeiro, escapam de um ataque de bombas incendiárias que devasta a vila onde vivem.
Sobrevivente dos bombardeios em Okayama em 1945, Takahata é bem-sucedido ao colocar na tela o terror de quem viu os dispositivos em chamas caindo do céu e destruindo lares. O cineasta insistia para que a cena recriasse exatamente as suas lembranças. “Eu estava lá”, ele dizia.
Enquanto os irmãos conseguem escapar, a mãe é gravemente ferida no incêndio e morre em seguida, tornando-se apenas mais um corpo entre tantos. Os traumas, no entanto, não param por aí: órfãos, Seita e Setsuko não conseguem se adaptar à vida na casa da tia e decidem morar em um abrigo antibombas à beira de um lago, onde brincam e vivem uma vida longe da guerra. No entanto, a inocência das crianças é abalada à medida que as dificuldades para conseguir alimentos aumentam. Com isso, conhecem um inimigo tão mortal quanto as bombas: a fome.
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O final de “O Túmulo dos Vagalumes” torna-se ainda mais profundo ao descobrir que a animação adapta a novela de Akiyuki Nosaka. Sobrevivente dos bombardeios em Kobe, perdeu a irmã adotiva por desnutrição. E o livro, publicado em 1967, foi uma forma de lidar com a culpa que carregava pela morte. Curiosamente, o autor não acreditava que seria possível adaptar a obra, recusando propostas durante anos. No entanto, mudou completamente de ideia quando pôde ver os storyboards de Takahata.
O estilo único do Studio Ghibli combina perfeitamente com o tom da história. Mesmo em meio à guerra, o diretor encontra espaço para a beleza, o conforto e as pequenas alegrias da infância. O contraste com a devastação, as vilas reduzidas a escombros, corpos carbonizados e feridos torna tudo ainda mais doloroso, sem que a narrativa se torne melodramática.
Ao humanizar Seita e Setsuko, sem caracterizá-los apenas como vítimas da guerra, a experiência de assistir a “O Túmulo dos Vagalumes” não se resume à tristeza. Você pode até chorar (provavelmente vai), mas não se trata somente disso: o fato de conhecermos os personagens faz com que a sua ausência deixe um vazio difícil de explicar que nos acompanha muito depois de ver o filme. É um sentimento semelhante ao luto, que dá vontade de ficar em silêncio, processando o que assistimos.
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Essa decisão torna o impacto ainda mais marcante (e mais devastador). Takahata não nos manipula a chorar, porque confia na história e na humanidade dos seus personagens. Justamente por isso, O Túmulo dos Vagalumes continua nos destruindo quatro décadas depois de seu lançamento.
A guerra nunca termina
Lançado em 1988, O Túmulo dos Vagalumes retorna à telona quase 40 anos depois, em sessões exclusivas nas salas da rede Cinemark. Os gaúchos poderão conferir o filme em Porto Alegre e Canoas, a partir do dia 20 de agosto.
É uma oportunidade única, mesmo para aqueles que já assistiram à obra-prima de Isao Takahata. É uma daquelas experiências que merecem ser vivenciadas em uma tela grande, permitindo que o público compartilhe cada emoção e o silêncio ao fim do filme. A força das imagens, o impacto da trilha sonora de Michio Mamiya e a direção de Takahata fazem com que você não tenha vontade de mexer no celular e conversar, só tentando absorver o que acabou de ver.
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O relançamento quase 40 anos depois torna-se ainda mais simbólico pelo fato de que a história segue contemporânea. Apesar de ser construído a partir das experiências de Nosaka e do diretor, o filme não é apenas sobre a Segunda Guerra. Ele revela o fracasso de duas crianças que a sociedade abandonou.
Passadas oito décadas, os conflitos globais continuam. Diariamente, notícias de órfãos, similares à de Seita e Setsuko, estampam os noticiários. Ao nos depararmos com notícias e imagens de Gaza e outras regiões atingidas, é difícil não lembrar dos dois irmãos pois, assim como eles, há crianças que perdem a casa, a família e o acesso a direitos humanos básicos, incluindo a comida.
Takahata dizia que não pretendia fazer um filme antibélico. Ainda assim, O Túmulo dos Vagalumes se tornou uma das representações mais contundentes dos efeitos da guerra. Não por transformar soldados em monstros, mas porque nos faz conhecer, amar e lamentar quem
ela destrói.
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